Trevas
-Que barulho foi este?
-Você está ficando louco, eu não ouvi nada.
-Pegue seu facão tem alguma coisa nos seguindo.
O vento balança as copas das árvores sobre suas cabeças. Ao longe o pio de uma coruja, talvez para que sua cria bata as asas e voe, ou por alegria de ter pego uma caça para se alimentar. Já era passado das onze horas da noite, estava frio, ja era em tempo, o inverno ja estava batendo na porta, e tudo indicava que seria um ano frio, e ano após ano estava cada vez mais frio quem poderia controlar?
-É apenas o vento. Vamos precisamos encontrar algum lugar que sirva para nos assarmos esta lébre e passarmos a noite - Cortou um galho que atrapalhava sua passagem por entre duas árvores e seguiu em frente.
-Não sei se é boa ideia de irmos tão longe nesse mato, Pedro - começou a segui-lo - Nós já estamos muito longe do carreiro que leva até a estrada, e não há nenhum morador em um raio de pelo menos uns 15 km.
- Se esta com medo volte - respondeu asperamente Pedro - Não tem como nós acharmos a trilha agora, com o escuro, temos que encontrar um lugar para acampar e logo! Estou varado de fome. Vamos! - Não haviam parado para comer desde a hora do almoço, e já tinham andado bastante, ele não via a hora de parar e tirar aquelas botas de seus pés, uma pulga o estava matando.
Os dois caçadores continuaram em frente, abrindo caminho pela mata, à procura de um bom lugar para descançar, já era muito tarde e não era um bom local para se estar. O vento soprava cada vez mais forte, cada vez mais as árvores sentiam seu poder e curvavam suas copas diante de sua força.
Pedro também estava com medo, mas ele sabia que não podiam voltar, não agora, o dia estava sendo excelente para eles, pois tinham reservado caça farta aos dois homens, que levavam em suas bolsas 3 lebres, 1 tatu e um casal de jacus enormes. Também sabia que seu comentário havia sido verdadeiro, e que mesmo com os lampiões acesos seria quase impossivel encontrar uma trilha tão estreita como a qual eles tinham entradado, e se por sorte a encontrassem fácilmente, nunca chegariam em casa sem parar para descançar naquele floresta.
Floresta fechada, as copas de suas árvores tampavam toda a visão do céu o que a deixava muito mais escura mesmo em noites de lua cheia como está que se sucedia, quem entrasse em seus domínios a noite dificilmente conseguia enxergar mais de um palmo à frente de seu nariz e o lampião não era de grande ajuda nestas circunstâncias pois iluminava apenas poucos metros do caminho a frente, durante o dia não era tão diferente pois as enormes embuias que abitavam aquele solo tampavam quase toda a passagem dos raios de sol que quisessem entrar ali. Era uma mata coberta de maus presságios, não havia moradores nela a não ser os animais que lá tentavam sobreviver. Era perigosa, mas se perguntados, os moradores de São Mateus, uma pequena colônia construida no fim da floresta ao lado do rio que saia de sua escuridão, não saberiam responder pois poucos tentaram adentrá-la e menos ainda conseguiam sair de seus domínios, mas quem saia, saia dizendo sobre loucuras que havia visto, e pior, ouvido no interior da floresta, e quem reencontrava a luz nunca mais queria perdê-la ,tendo noites em claro e um pavor pela escuridão que consumia com o que restava de sua sanidade.
E São Mateus já teve tempos melhores, onde todos tinham seu lugar nas lavouras ou então nas diversas serrarias que de lá exportavam madeira para todos os cantos, por grandes embarcações que saiam e chegavam no pequeno porto, porto que já havia sido muito mais animado, a colônia era banhada pelo rio escuro como era chamado ali pelos moradores, mas que adquiria outros nomes ao longo de seu trajeto.
Mas então veio tempos ruins, onde pestes assolaram as plantações e a madeira que ali era produzida, foi perdendo seu comércio pelo surgimento de outras áreas com melhores produtos a serem explorados ao longe, o que mostrara que a madeira dali extraída era de pior qualidade derrubando seus preços e tornando sua produção inviável para grande parcela de indústrias, que acabaram fechando suas portas e pondo na rua centenas de famílias, que sem esperanças tentavam encontrar qualquer meio para sobreviver.
É, eram tempos difíceis, a comida era excassa, e nem todos tinham o privilégio de ter três refeições diárias, quem dirá um emprego. E os dois irmãos que antes eram empregados, até que eram bons empregados muito responsáveis, nunca haviam faltado um dia sequer e conheciam de árvores como ninguém, trabalhavam em uma das maiores madeireiras da colônia, vendo a situação apertada, por falta de alimento e dinheiro para o pagamento do aluguel de sua casa decidiram se aventurar como caçadores na floresta aos redores da cidade, mesmo sabendo de seus perigos era a necessidade, ela te obriga a fazer coisa inimagináveis.
O vento assoviava cada vez mais forte por entre as árvores, Pedro o sentiu em sua nuca o que o arrepiou até a espinha, ergueu o lampião para iluminar mais a frente o seu caminho e como se alguma coisa o tivesse travado as pernas parou subitamente, quase não sentiu seu irmão se bater em suas costas.
- Ei! por que parou? Eu quase derrubei meu lampião por isso - resmungou.
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O escuro sob as árvores
HorrorEm uma cidade em decadência, moradores são obrigados a encontrar um meio de sobreviver, já outros por ganância buscam explorar as riquezas de uma floresta onde a luz é quase inexistente e coisas estranhas acontecem com seus visitantes.
