Todas as vezes que olho para baixo, vejo cada dia mais pessoas alimentando essa doença e ainda mais pessoas alimentando a ignorância de acreditar que ela não existe.
"Marcus, pare de escrever e vamos logo", diz uma voz angelical.
Marcus deixa o corpo de um jovem cair ao chão e voa até um pequeno prédio com apenas uma luz acesa na janela mais alta.
"Ela está chorando, Marcus, sozinha!", afirma aquele ser tão belo quanto o céu.
"Quer que eu descubra o motivo, Bianca?", diz uma voz assustadora e calma.
O demônio sobrevoa distante daquele local até encontrar uma aglomeração de jovens barulhentos, algo que irritaria qualquer pessoa comum. Ele não precisa se esforçar muito para perceber uma aura podre em um grupo de jovens bem vestidos, conversando sobre assuntos interessantes e sorrindo bastante. O demônio sente que seu alimento está próximo.
Enquanto isso, a alguns quarteirões daquela festa barulhenta, Bianca, o anjo, acalma a mente triste e destruída de uma pobre jovem apenas com sua presença. Ela sente angústia, aflição e medo. Aquela garota foi violada de corpo e alma. Após alguns minutos, Bianca a leva ao sono. O anjo sobrevoa ao redor do prédio e encontra no topo um gatinho de cor escura, cego de um olho, e o aconchega em seus braços, levando-o até o apartamento da jovem e o deixando lá como presente.
Enquanto isso, naquela festa...
"Conversa interessante a de vocês, um assediador. Não me estranha esse cheiro de porco vindo de você!", diz a voz demoníaca, deixando escapar a palavra "você" para o mundo material.
"Alguém me chamou?", indaga o jovem, assustado, olhando à sua volta.
"A festa está muito barulhenta. Deve ser algum conhecido", diz o jovem ao lado.
A noite segue normalmente, com muita bebida e música.
Ao final da festa, o demônio, em busca de informações, descobre o trajeto que aquele garoto fará até sua residência. O demônio então espreita em um beco, adquirindo a forma de um gato.
"Não vai me custar muito. Ele vai comprar a bebida mesmo", diz Marcus, seguido de uma risada infernal que ecoa por quarteirões.
Um clarão de luz corta os céus do plano espiritual e uma voz ressoa por quilômetros.
"PARE! Você não se lembra das regras que ainda nos mantêm aqui?!", grita Bianca.
"Por que você confia em palavras talhadas em pedras antigas jogadas em um salão velho?", diz o demônio em tom de deboche.
"Você lembra ou não, Marcus? Nós não podemos..."
"Nós transformarmos dentro do mundo material. Não podemos ter sentimentos um pelo outro e blá blá blá", diz o demônio, sem deixar Bianca completar sua frase.
"Você ainda acredita nessas frases? Você ao menos sabe quem as escreveu?"
"Em um mundo onde nos tornamos seres sobrenaturais capazes de vasculhar mentes, de nos transformarmos no que quisermos, eu não diria que uma pedra gravada seria algo para se desacreditar", diz o anjo.
"Onde está a garota mesmo? Você precisa cuidar dos sonhos dela, não acha? Siga o seu propósito e eu seguirei o meu!", diz o demônio.
Após um tempo, o garoto finalmente passa por aquelas vielas, o que instintivamente atrai a atenção do demônio, que começa a ficar ofegante e fissurado ao ver seu alimento cada vez mais perto. Bianca põe a mão sobre seus ombros e diz:
"Depois não diga que eu não avisei".
Bianca então abre suas asas espectrais e levanta voo em direção à lua.
Marcus, em sua forma felina, espera o garoto se despedir de seu último amigo antes de entrar em seu pior pesadelo. O demônio segue em direção ao garoto, que ao ver aquele felino indefeso, diz:
"Oh, um gatinho preto. Dizem por aí que você causa azar, mas eu não acredito nisso", diz o jovem, colocando o gato em seu colo.
O gato começa a ter espasmos, se contorcer e seu corpo sai de dentro da própria boca, até Marcus assumir completamente sua forma demoníaca, a mais bestial que ele pode achar.
"Realmente! Não culpe os gatinhos. Foi você mesmo que trouxe seu próprio azar", assim diz o demônio, assumindo quatro vozes diferentes.
Todas as lâmpadas que pouco iluminavam aquela viela se apagam. O jovem tenta gritar, mas nenhum som sai de sua boca, embora ele sinta suas cordas vocais arderem.
"CORRA!", grita o demônio em uma só voz.
O garoto, com a pele já pálida, assustado de maneira indescritível, corre pela viela, sentindo que a rua parece cada vez mais distante. A sensação de não sair do lugar abraça o jovem, e na verdade ele não andou mais do que 2 metros, quando é dominado pelo sentimento de desespero.
"Sabia que os porcos ainda se debatem mesmo após perder a cabeça? POIS PERCA A CABEÇA!", diz o demônio, avançando sobre o garoto e arrancando sua cabeça com apenas um golpe.
Naquele rosto caído no chão, a última expressão deixada foi de desespero.
"O banquete está servido!"
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13 Dias: Entre o Céu e o Inferno
Misterio / Suspenso"Uma vez que você provou o gosto do céu o inferno se torna mais doloroso"
