Intratempus - Sonho

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Erick sonhava um sonho que não era dele. Mesmo assim, sentia a areia molhada da praia, o cascalho sob os pés e a brisa gelada do oceano. O chamado curto e agudo dos pernilongos-de-costas-brancas misturava-se às ondas quebrando com violência e às vozes da família. Conversas e sorrisos felizes que só um dia alegre à beira do mar pode gerar. Ele era apenas um bebê quando os pais e a avó foram rodar os Estados Unidos e conheceram as praias do Pacífico.

Desde os nove anos, talvez antes, Erick sempre esteve lá, sonhando um sonho que não era dele, relembrando uma memória antes do próprio tempo, aproveitando uma felicidade emprestada, querendo mergulhar no mar com um corpo que não lhe pertencia.

Os limites de sonho improvável e memória impossível eram testados a cada novo episódio. Durante a manhã, ouvia os mais velhos falarem sobre as descobertas e alegrias, sentia seus silêncios quando se lembravam da dor da separação e da traição, e era um deles quando a noite caia. Feliz à beira das ondas, receoso ao meio-dia, quando alguém estava faltando. Guardava as esperanças para o entardecer, quando um ponto distante ganhava cada vez mais forma conforme se aproximava. Sorrisos retornavam, perdões distribuídos, lágrimas derramadas sob as árvores da praia deserta.

O sonho era de outra pessoa, mas não pensou duas vezes em transformar todo aquele amor em algo só dele.

SnowglobeWhere stories live. Discover now