1.'Você sequer sabe meu nome'

48 5 0
                                        

   Não existe um meio de viver o amor sem sentir dor, isso é fato. Mas quando você se pega amando, o mínimo esperado é reciprocidade, uma vez que as expectativas vão surgindo ao prolongar do tempo.
   Você pode ser como qualquer pessoa, criar expectativas antes da hora, imaginar até o nome dos filhos e como seria o casamento mesmo sem saber se a pessoa lhe corresponderá algum dia.
   Mas a história se complica quando você não sabe a definição correta do amor, onde muitas pessoas apareceram em sua vida e você manteve os sentimentos iguais em todos os casos, não diferenciando mínimo detalhe. 
   A única certeza que eu tive em todos os casos era que, não era amor, mas eu me forçava em acreditar que sim, me forçando a falar um "eu te amo", me sentindo obrigada a isso.
   Beijos para mim era só exercício muscular facial, uma vez que você exerce energia sobre mais ou menos 88 músculos. Eu não sentia vontade de beijar ninguém, não sentia vontade de falar "eu te amo", não sentia vontade de ver as pessoas envolvidas nessa mentira em nenhum dos casos. 
   Era isso que eu sentia.
   Caindo em uma mentira.
   E eu sei que você se pergunta o por quê de eu, mesmo tendo toda essa concepção formada sobre sentimento, continuava a me envolver com qualquer um. Eu apenas....
   Apenas sentia a necessidade de sentir algo, sentir amada, sentir o "calor" que o amor proporcionava.
   Nunca senti nada de diferente, me vendo em um cenário gelado onde o calor do meu corpo não era suficiente para manter meu bem-estar. 
   Sempre é bom citar Camões em casos assim, onde um dos seus poemas mais famosos dizia que "o amor é fogo que arde sem se ver", afirmando, em minha interpretação, que o sentimento é quente a ponto de queimar, mas a dor presente é curada pelo próprio. 
   Quem quer viver um amor, tem que passar pela dor.
   Então a confirmação sobre o que eu sentia por ela, talvez fosse essa.
   Rosè, a primeira a me fazer sentir estranha de verdade.
Tudo aconteceu em uma proporção em que eu não pude controlar. Apesar de bem nova, eu já vivi o suficiente para saber de algumas coisinhas. Mas isso não se incluía a lista. 
Eu estive vagando por um longo período de tempo, procurando meu lugar, o espaço no tabuleiro onde eu me encaixava, falhando miseravelmente na maioria das vezes. E por mais que eu fingisse não me importar, eu me importava sim. 
Estava acostumada com toda essa rotina de perdas, incluindo amigos e familiares, de forma em que tudo ocorria em massa.
Mas tudo mudou quando eu mudei para o ensino médio. Eu já conhecia Rosè. Nosso nível parental nos obrigava a conhecer. 
Meu pai, o cara que me fez se casou com a irmã da mãe dela, tendo meu irmão e me tornando, por um único laço consangüínio, membro de sua familia. 
Nossa primeira aproximação foi aos 9 anos, eu estava correndo pela rua de minha casa quando vi, a figura de pele branca e cabelos castanhos claros médio-longo na mesma. 
Essa é uma únicas lembrança que eu tenho dela quando éramos crianças. 
Quando minha adolescência comecou, aos 12, eu fui descobrindo aos poucos o que era amor. O amor que eu recebia de minha mãe era diferente dos de meus amigos, consequentimente, o amor fraternal. 
Mas e se eu contasse, que mesmo descobrindo o que era amor matrimonial aos 13 anos, nunca me ousei a sentir. Eu sou muito nova pra isso.
Quando descobri que minha boca não era só pra falar e que também poderia fazer minha dopamina subir se eu a usasse da forma "correta", foi onde eu comecei a me envolver com outras pessoas. Sentindo o gosto de muitos, mas tudo eta vazio. Sempre vai ser. 
Quando eu cheguei nesse colégio, ela também estava aqui. A principio, não liguei. Mas nós aproximamos. Mais próximos do que quando éramos mais novas. Próximo de mais.
Não me recordo de quando eu comecei a me sentir assim, feliz por tê-la. 
Não em tê-la em desejo carnal, como sempre ocorreu. Eu queria mais que isso. 
Não queria tê-la em minhas mãos, a bonequinha de porcelana protegida por uma armadura de gelo. Eu queria protege-la. Eu queria ser dela, primeiramente. E queria que ela fosse minha também.
Eu queria sempre abraça-la, queria sempre ve-la bem. 
Foi ai que eu descobri a verdadeira definição de amor. E também descobri que doi. 
Não é atoa que o amor rima com dor.
As coisas eram bem ruins: eu sou uma menina que está relativamente apaixonada por outra menina.
E essa menina era minha prima.
   Meu sangue. Isso é ruim.
   Não sabe o quanto eu pedia pra dormir e acordar menino, talvez assim ela percebesse, percebesse que eu a amava.
   Ou ela sempre soube e eu que não enxergava, forçando-me a me manter cega, perdida em seus cabelos curtos e seis olhos castanhos.
Eu, nos últimos meses a tive bem perto de mim. Mas sem contar sobre meus sentimentos. E contar foi a pior coisa que eu pude fazer.
   A principio, você quer que a pessoa pela qual você ama saiba. Mas após a revelação, você sente a mesma se afastar aos poucos.       Comigo não foi diferente.
   Eu poderia iniciar isso dizendo que eu não tenho culpa por sentir, mas eu tenho certeza que sim.
   Cansada de só sentir calada, decidi contar de uma vez por todas o que eu sentia sentia.
Mas eu decidi isso por um fator deveras importante. 
Não era só eu que estava apaixonada por Rosè. 
   Visto a sexualidade dela, seria impossível ser correspondida, por isso eu me sentia na obrigação de somente deixá-la saber. Era so ela saber e eu não me importaria mais com nada. Era só isso. Ela era minha prima e minha melhor amiga, acima de tudo, não queria perder esse vínculo. Fiquei dias imaginando como dizer, sem fazer ideia como.
Então, em certo da aula de biologia, eu estava entediada. E vê-la sendo acaricidada por um garoto de nossa classe fez me sentir mais entediada ainda. Eu não poderia sentir ciúmes, então chamei essa emoção de tédio. Olhei para meu caderno, logo após a pasta verde que estava embaixo do mesmo, retornei o olhar a Rosè e então tive a brilhante ideia de escrever uma carta.
Tão brilhante que me afastou dela.
Puxei uma folha da pasta verde, fiz uma ponta fina no lápis e, antes de começar, busquei inspiração em seus olhos. Olhei brevemente para seu olhar, que estava focado na pele morena do garoto ao seu lado, entao comecei.
Terminei no mesmo dia na nona aula, então decidi por na mochila dela a entregar, seria vergonhoso. 
Como sempre, a acompanhei até sua casa e fui para minha, que é na mesma rua.
Eu me arrependo agora por ter feito isso.
Desde o dia, tudo ficou sem cores. Sabe? Eu sinto falta dela. Ela se foi por conta do meu comportamento indolente. Ela se foi por culpa dos meus sentinentos, eu deveria mesmo ter ficado quieta.
No conteúdo da carta, eu desenvolvi em mais de 300 palavras, um jeito de me expressar tomando toda a precaução necessária para não fazê-la ir, somente para que ela soubesse. 
O básico.
Contei que estava na sala de biologia e comecei a escrever aquilo porque eu estava ficando entediada de ver ela e aquele garoto trocando toques carinhosos.
Que eu sabia que era pecado estar gostando dela mas o problema é que eu estava gostando mais de ser esse tipo de pecadora.
Que eu sabia que ela odiava as pessoas que se apaixonaram por ela, mas que eu não aguentava mais antes preferia que ela me odiasse a continuar guardando.
Falei que eu sinto meu estômago revirar em borboletas verdes água quando ela sorri para mim, quando ela me abraça ou pega na minha mão.
Falei que eu me sentia boba por sentir a falta dela.
Triste quando eu não via ela uma única vez no dia.
Disse também que isso tudo poderia ser um oásis onde eu não sabia diferenciar o verdadeiro do falso.
Meus sentimentos puros e verdadeiros enquanto a falsa esperança me assola.
Falei que mesmo que ela fosse fria, eu precisava dela para abaixar a temperatura do meu coração.
Que ela poderia ser o sabor que falta na minha vida de açúcar.
Que eu estou esperando por ela a muito tempo.
Poucas palavras, nao foi tanta coisa.

Mas tudo o que eu planejei foi por água abaixo quando ela me entregou a carta dois dias depois, alegando não conseguir nem olhar para a mesma e desde então, ela anda me evitando. 
Mesmo sempre perguntando o que eu fiz de errado ao longo do dia, eu sei que o erro sou eu. 
Perdi as contas do quando eu chorei hoje.
Agora, estou sentada na calçada, enquanto as nuvens engolem o azul dos céus, trazendo um vento frio e gelado. Um vento de encher os cabelos passa por todos aqui presente. Diríamos que o cenário perfeito de "caos".
O primeiro texto que eu ofereci a ela em segredo.

"Gosto da lua, das noites frias e estrelas.
Gosto do escuro, do meu sozinho, do eu verdadeiro.
Eu gostava.
Mas como um ciclo, a noite acabou e o dia chegou.
O sol
Quente, você não pode vê-lo 
Brilha muito
É de mais.
Mas ela me mostrou que o sol não é ruim
Ele aquece, ilumina, eu posso me ver e ver ela nitidamente.
Ela é meu sol.
Ela é meu sol porquê ela me aquece
Ela é meu sol porque ela me faz sentir vida.
E se meu sol for embora, eu não sei se vou aguentar o frio 
Se meu sol se esconder em uma nuvem tempestuoso, não sei se vou sobreviver as costas gélidas 
Ela é não só meu sol, ela é a merda da minha vida todinha."

Fiz isso em uma noite fria, onde eu segurava o choro. Eu sempre choro a noite, mas comecei a evitar, escrevendo. Poemas tristes. 
Felizes quando ela vem a mente.

Mas agora tudo acabou.

Eu nunca precisei de uma confirmação do lado dela para saber que nada se concretizaria. Porque a confirmação estava em seus olhos.

Talvez eu nunca mais volte a sentir seu toque. O toque que enchia meu coração de calor.
Talvez nunca mais eu sinta seu abraco, sua mão delicada em minha pele.

Talvez seja melhor assim.

Her: 001 Motivos Para Entender. ||one-shot||Historias para obsesionarse. Descúbrelo ahora