Ao Anoitecer
Gustavo, nunca havia visto uma pessoa morta. Ele atravessou os corredores no fim da tarde, os cães latiam interrompendo o silêncio; buscou ouvir qualquer coisa além. Foi então, que começou a lembrar o que seu pai sempre dizia quando o deixava no aeroporto, para mais uma de suas constantes viagens; os cães latindo somos nós; seremos nós quando o silêncio ecoar, e então essa hora o deixaremos para sempre.
Começou a escurecer, algumas velas foram acessas, mas o tempo custava a passar.
- A vida é frágil – falou baixinho para si próprio.
Foi estranho o que ele sentiu naquele momento, algumas pessoas demoram a assimilar uma perda, outras choram, mas Gustavo sentiu apenas um alívio e um frio na espinha.
Caminhou pela casa chegando ao jardim, onde tantos outros momentos foram vividos, e agora que seu pai se ausentaria para sempre, pensou se tudo seria diferente, mas por fim, achou que não.
Enquanto voltava lentamente para casa, encontrou sua mãe sentada nos degraus da escada, ela não conteve as lágrimas e disse:
- Ainda não está escuro – Ela sempre se preocupava com o anoitecer, pois era a hora em que seu marido costumava chegar em casa do trabalho, como se, de alguma maneira, ao pôr do sol ele pudesse voltar.
Percorreu a casa por mais algum tempo, e ainda sentia que havia algo dentro daquele quarto, algo inexplicável ou que pudesse justificar tudo isso. O mesmo quarto que se manteve fechado o dia todo. Ficou imaginando as gotas de sangue no lençol... Por que ninguém aparecia lá? Por que não diziam nada? Por que todos fingiam que nada aconteceu? Que morte tão terrível teria acontecido naquele quarto?
Às vezes, quase esquecia que se tratava de seu próprio pai.
Mais algumas horas se arrastaram no relógio rústico de ponteiro, que sempre enfeitou a sala de estar.
Pelos corredores frios e encoberto pela escuridão, Gustavo olhou aquelas pessoas desconhecidas em sua casa, contracenando com os antigos retratos de família pendurados nas paredes, voltou-se rapidamente para o seu quarto. Chegando lá, percebeu que estava novamente em seu mundo, se acostumou com a idéia da ausência de seu pai, mas preferiu pensar que não seria permanente, e que talvez acordasse pela manhã com seu pai e sua mãe conversando num tom bem alto pela casa, e com esse pensamento adormeceu...
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Ao Anoitecer
Short StoryUma morte manteve a rotina da família em meio a visitantes sem importância.
