Ato 1

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Assim que acordei, fiquei com medo de abrir os olhos, pois senti um raio de luz incidindo sobre eles. Aos poucos, e desviando um pouco o olhar consegui abri-los. A pequena cortina de renda, que perdera sua brancura as custas de muitas manhãs como aquelas, estava imóvel dependurada na janela, que revelava não mais que algumas rajadas de sol por entre as fachadas cinzentas e cheias de musgo do Bairro Alto. Aos poucos o véu de sono foi deixando que minhas lembranças retornassem, e como que num relâmpago me veio a mente a suavidade de uma tez alva entre os lençóis, tão gastos como a cortina, porém revelando uma infinidade de desejos, e ao mesmo tempo uma inocência só concedida a quem se possui pela primeira vez. As sensações também foram voltando, e me apercebi que ainda tocava a mesma tez, virei de lado e pousei a retina, não em uma mulher mas em uma recordação, por que alguns momentos deixam de existir por breves instantes para se tornarem isso: recordações, e aquela imagem, agora é minha. Me aproximei, e pude sentir seu hálito quente, cheguei mais perto, toquei seus cabelos, um emaranhado que reflectia ainda nossa noite, tinham um leve odor a tinta, que me fez admira-la ainda mais, por ser perfeita até nessas pequenas imperfeições. Toquei-lhe a face e beijei-lhe com a boca trémula os lábios pequenos, há… que lábios pequenos.
_Bom dia, flor do dia!
_Bom dia!
_Sabe que horas são?
_Não tenho a mínima intenção de saber – disse ela por entre um bocejo.
_São horas de mostrar aquilo que me prometeste…
_Achei que tivesse feito isso durante a noite.
_Engraçadinha! Acorda, me dá um beijo e me mostra a sua cidade que seu mundo eu já conheço…
Descendo as escadas, vimos surgir entre o balcão a mesma senhora que nos atendeu na madrugada com o olhar entre o incriminatório e o satisfeito, seu bigode, agora de manhã, parecia ainda mais por fazer.
Primeira paragem: Feira da Ladra. Descemos até o fim da rua e lá embarcamos em um eléctrico, que nos levou até o lugar mais próximo que podia nos levar. O resto do caminho fizemos a pé. O caminho ao lado dela parecia menos íngreme, e apesar de sua respiração ofegante, também sabia que para ela, era mais fácil subir comigo, pelo menos mais confortável. Fizemos alguns trocadilhos maliciosos com palavras em brasileiro e português, na verdade isso acontecia o tempo todo.
O dia corria na sua mais perfeita ordem. Visitamos o Castelo de São Jorge, O Teatro Taborda, O Chapitô, e foi nesses lugares que eu descobri que essa cidade é feita de vistas. Para qualquer lugar que se olhe sempre se consegue ver o horizonte, e é impossível ficar indiferente ao horizonte, nos trás a sensação de que tudo é possível. Depois de tomar uma imperial no Chapitô, ao subir as escadas que davam para a rua falei:
_Eu descobri que adoro Lisboa!
_Que bom!
Mal sabia ela que aquela frase significava muito mais que uma bela vista, ou um café tomado em uma esplanada de uma rua estreita. Aquela frase vinha imbuída do que Lisboa nem se apercebeu dar-me. 
A noite chegara mais uma vez e com ela chegamos a Alfama. Caminhando por suas ladeiras a procura de uma tasca qualquer que fosse suficientemente a essência da palavra boêmia, entramos em uma porta minúscula que possuía um corredor prometendo aquelas aventuras soturnas que só aparecem em filmes. Ao final do corredor encontramos uma sala cheia de mesas de madeira com uma legião de personagens que pareciam ter saído de uma dantesca piada de português, fiz esse comentário com ela, mas ela não entendeu muito bem, não importava. Estávamos ali para ouvir fados, e no embalo das canções que se seguiram, meus olhos percorriam uma imagem de cada vez, mas sempre teimavam em fixar o mesmo ponto. Seus olhos. O apelo choroso da guitarra confundia-se com a tristeza que começava a se fazer notar.
A noite já não se sustentava por si só. Perdidos em uma esplanada qualquer no Cais do Sodré, a margem do rio, ouvindo o que restava de som vindo do bar, olhamos um para o outro, ela me disse:
_Finalmente consegui lhe mostrar Lisboa.
_Você conseguiu muito mais do que imagina.
Ali sentados, não sei por quanto tempo, tempo suficiente para tudo ao nosso redor se liquefazer, nos beijamos. E esse beijo tinha o sabor de tudo o que ainda não havíamos feito, de todos os lugares que ainda não tínhamos visitado, tinha o sabor dos desconhecidos que éramos um do outro, das brigas que poderíamos ter, das manhãs depois das pazes que faríamos. Eu queria poder dizer que a queria, mas não tinha esse direito, só eu sei o quanto a queria.
Quando a deixei em casa, virei as costas para a porta e num gesto furtivo me pus a andar.
_Escuta!
Virei-me.
_Lisboa é tão grande, temos muito o que ver ainda…

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