Prefácio...

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Uma das minhas ultimas recordações do Brasil, se não a última, é o momento em que o avião ascende e por baixo de suas asas aparece São Paulo toda iluminada. As ruas, mais pareciam veias, pulsando lentamente em um momento de sonolência do gigante que mal se deitara já se preparava para acordar e encher novamente suas vias de vidas, sonhos, esperanças e vazios…
Foi nesse momento em que me dei conta do quão grande era aquela cidade, e de quão pequeno era meu universo. Pensei em Lisboa, que estava, a pelo menos, dez horas de distância dos meus olhos, e tentei imaginar o que me esperava, tentava visualizar cada momento da minha chegada antes que ela acontecesse, por que as impressões reais por vezes ficam melhores quando são baralhadas com alguma ficção. Da mesma maneira que do alto identifiquei a Marginal Tietê ficando cada vez menor, e enfim tornar-se apenas um borrão alaranjado de luzes perdida no mapa, da mesma maneira, vi se aproximar um rio que outrora ouvi cantado em alguma canção, ou contado em alguma tarde de geografia do liceu. Esse Tejo que se aproximava era bem diferente. Era, pelo contrário, do que eu imaginava, muito maior, muito mais caudaloso que um dia sonhei. E logo atrás dele, então, a vi… surgiu bem devagar, e até onde minha curiosidade quis levar-me, não passou de um bocado de telhados empilhados em uma arquitectura repleta de história que se fazia sentir até mesmo dentro do avião. Não se passaram mais que dois minutos até que a aeronave tocasse o solo, e o que pensei naquele momento foi: como é pequenina… mal sabia eu que uma cidade tão “pequena” quisesse me mostrar tanto, ou ainda, que alguém tão pequenino como eu quisesse conhecer tanto Lisboa…
A vida nos leva a crer que já conseguimos tudo o que sonhávamos, ou pelo menos quase tudo, nos manda sinais de que nada melhor poderia estar acontecendo, algumas vezes é verdade, outras não, o fato é que a realidade, por vezes é cruel e nos obriga a seguí-la sem nenhum escrúpulo, passa por cima do que há de melhor em nós mesmos. Por isso, deixo aqui a realidade de lado, abdico de seus grilhões. Não mais me prendo a eles, nesse exacto momento sou tudo quanto quero ser. E é nesse dia, que permite o mais deleitoso devaneio que me ponho a conhecer Lisboa:

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