Capítulo único

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Se você está lendo isso, você não me conhece ainda, mas um dia irá conhecer, todos conhecem um dia. Eu sou aquela que tira a felicidade, que encerra os dias e traz lágrimas aos que ficam. Eu sou a amarga verdade mascarada pela doce mentira que é a vida.

Essa já é o que, a terceira vez que eu volto a postar.
Antes tarde do que nunca.
Vou deixar essa história única por aqui, talvez eu faça mais nesse mesmo estilo, mas no momento estou focando em algo bem mais grandioso, aguardem...

Já tive diversos nomes, Anúbis, Tânatos, Grim Reaper. Mas se tem um nome que me representa com perfeição é aquele que diz o que eu trago.

Morte.

Todo aquelesm que não faz mais parte do plano dos vivos um dia passou por minhas mãos

Vou explicar o processo de uma forma bem fantasiosa que eu acredito que todos estão familiarizados.

Bob estava em seu leito de morte na UTI de um hospital qualquer, definhando por conta de um tumor no fígado. Ao seu lado direito, sua mulher segurava sua mão chorando muito. Do seu lado esquerdo, seu filho primogênito segurava no colo seu único neto que ele conheceu em vida. Sua outra filha estava logo atrás, chorando nos braços fortes do namorado.

E então tudo parou ao seu redor, o tempo congelou e apenas Bob continuava se movendo. Logo em seguida Bob me avista, um ser cadavérico envolvido em um manto negro, segurando em suas falanges e metacarpos uma longa foice de dois metros de altura com a lâmina com mais de setenta centímetros .

Aproximo-me lentamente de Bob e vejo seus olhos vertendo lágrimas de alívio por seu sofrimento estar chegando ao fim. Ele estica sua mão em minha direção, em resposta estendo minha mão livre de volta. Ao segurar sua mão vejo seus lábios desenharem um singelo "obrigado", então puxo sua mão e seu espírito sai do corpo pronto para ser conduzido ao devido pós-vida. Antes de deixar o recinto Bob observa o que está deixando para trás. Assim que o aparelho que denuncia a frequência cardíaca da um severo "piiiii" que dizia que Bob havia morrido, a esposa caiu desmaiada semelhante a Rosa que brigou com o Cravo, seu pequeno netinho chamava o vovô que não respondia enquanto o filho chorava, a filha chorava desconsolada enquanto o namorado tentava sem sucesso consola-la.

É isso, o relato não representa com exatidão a realidade, mas é uma metáfora para ajuda-los a entender o meu trabalho.

"Nossa! Você não tem coração? Tirar o pai de uma família é algo muito trágico". Primeiro de tudo, não. Eu não tenho coração. Segundo, meu trabalho não é parar para ver a vida das pessoas, meu trabalho é retirar do mundo que elas não mais pertencem.

Eu poderia dizer que a vida do Bob era um mar de rosas. Trinta anos de casados e ele e sua esposa ainda tinham uma vida de namorados com troca de presentes, sexo frequente e um amor que parecia inesgotável. Seu filho fazia visitas frequentes aos pais juntamente com sua esposa e filho. A filha era extremamente aplicada aos estudos, Bob adorava seu genro e o tratava como um filho.

Por outro lado eu também poderia dizer que a vida de Bob era um completo desastre. O casamento estava por um fio, sua esposa não o suportava mais e ele estava tendo um caso com a vizinha, a mulher já suspeitava. A esposa do filho odiava os sogros, só via o filho e o neto umas duas vezes por ano, mesmo morando a quinze minutos de distância. A filha era uma decepção na escola, não que ela se importasse, estava ocupada demais matando aula, usando drogas e transando com o namorado. Namorado esse que os pais advertiram categoricamente para a filha deles não se envolver, que a traia com a sua melhor amiga.

Agora eu lhes pergunto, que diferença o contexto de vida do Bob faz na minha função? De qualquer forma meu trabalho de recolher sua alma será o mesmo.

Se um cara se explodiu e levou cinquenta pessoas com ele, ou se outro cara morreu usando seu corpo como escudo para salvar uma criança desconhecida de um tiro. Nesses dois casos eu terei que tratar os dois da mesma maneira, mesmo que aos olhos humanos, um seja herói e o outro um monstro.

E é sempre bom lembrar-se dos apegados. Sempre tem aqueles que ao receber minha visita imploram misericórdia . "Por favor, eu tenho uma filha que depende de mim", ou também "eu ainda sou muito jovem, tenho muito que viver ainda" e o meu preferido "eu não posso morrer, sou muito rico, tenho que cuidar do meu dinheiro".

Muita gente passa tanto tempo tentando criar uma vida favorável que se esquecem de viver. Então quando eu chego para confrontar os arrependimentos surgem. Nunca esqueça, obras em vida não valem nada depois de mim. A memória das pessoas sobre você? Não passa disso, uma memória. Ainda que sua morte impacte a vida das pessoas e deixe uma cicatriz eterna. Ainda que sua morte cause a morte de outra pessoa, o mérito disso não é seu, você não está mais presente para ver a consequência de sua ausência. Em determinado tempo você se torna irrelevante.

"Mas nem todo mundo se torna irrelevante, Joana d'Arc, Hitler, Sócrates. Certas pessoas marcam tanto a história, às vezes de uma forma negativa, que sua memória permanece". De fato, algumas pessoas saem da vida para entrar para a história, Getúlio Vargas estava correto. Mas a ideia permanece, de que adianta ter todo um legado se você não pode ver isso com seus olhos. Posso citar como exemplo o escultor Aleijadinho, nasceu e morreu pobre. Para ele não adiantou porra nenhuma suas obras terem ficado famosas após sua morte.

"O que eu realmente queria saber é como você se sente quando ceifa avida de alguém". Por que eu deveria sentir algo? Eu apenas fecho um ciclo natural. Mas veja bem, eu estou me referindo a um ciclo natural. Tudo apodrece um dia, o corpo humano não é algo permanente. Quando alguém interrompe o processo natural de outra pessoa, fatalidade, mas não há o que fazer. Mas por favor, não interrompa o seu próprio ciclo natural da vida. Eu diria que essa é de fato a única situação em que eu me sinto comovido ao buscar a alma de alguém.

Outra dúvida que vocês devem estar tendo é "quando você finda uma vida, onde a alma dessa pessoa vai parar?" Eu poderia responder essa perguntar com outra, para onde você acha que vai quando morrer? Católicos, islâmicos, budistas e até mesmo aqueles que acreditam nas lendas gregas antigas. Todas as culturas tem sua forma de pensar no pós-vida, talvez quem estejam corretos sejam os nórdicos. Ao morrer de uma maneira gloriosa em batalha você é recompensado com uma eternidade em Valhalla, se tornando um soldado a serviço de Odin é esperando para defender Asgard quando chegar o Ragnarok. Talvez seja tudo uma questão de ponto de vista e tudo dependa de suas crenças em vida para determinar o seguimento de sua alma após minha visita.

O fato é que se os humanos realmente soubessem o que os espera viveriam suas pobres vidas apenas em função da morte. O grande sentido da vida é buscar um sentido, saber o destino da morte tiraria a graça da vida.

Não que eu realmente me importe com questões existenciais dos mortais, de fato eu não me importo. Porém, me é muito mais interessante buscar a vida de alguém que soube aproveitar a sua efêmera mortalidade e aceita de bom grado a minha visita. Assim como o nosso amigo Bob. Tenha ele tido um bom pré-morte ou uma merda chamada de vida. Ele correspondeu ao meu abraço e aceitou seu inevitável destino.

Então é isso, saibam aproveitar a vida, não pensem muito sobre minha vinda. Ainda que enfrentem uma doença que seja meu arauto.

Façam valer a pena sua insignificância.

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⏰ Última actualización: Aug 29, 2019 ⏰

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