Partira

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1868

1.

Foi após semanas refletindo sobre seu falecimento que, reuni em mim coragem suficiente para tomar a decisão de desfazer-me de tudo que vinha causando-me sofrimento. Toda antiga rouparia, todos os serviçais, toda prataria que antes fora de meus pais, todos os quadros e tapetes que me lembravam-na, cada objeto, cada móvel e gaveta na qual o afeto dela mesmo posterior à sua morte, se recusara abandonar... Tudo, tudo que me tomava o caminho nas esquinas de meus aposentos com o intuito apenas de me trazer tormento, deveria ir junto dela.

Ela partira. Deixara-me sem filhos, deixara-me só.

Ela queria ser cremada, mas não tive coragem. Enterrei-a no bosque da família feito pelo meu bisavô para essas ocasiões.

Alfredo, meu mordomo, seguindo minhas ordens finais antes de sua demissão premeditada, sem deixar-se pender para comentários conflitantes sobre minhas decisões, distribuiu meus bens de bom grado a todos aqueles pobres e imundos invejosos moradores que se encontravam descendo a estrada de terra para longe de minha propriedade, no coração do povoado de Sant'rosa.

Nenhum deles fazia questão de esconder sua inveja. Nenhum. Todos tinham parte de culpa em sua morte, invejavam-me tudo... O dinheiro, a mordomia, a educação polida e no fim, provando-me mais uma vez que nada mais eram do que baratas oportunistas, invejaram-me a esposa.

Pois que fiquem com tudo que sempre quiseram.

Sua memória corroía-me. Para ter paz, pensava eu, deveria deixa-la no passado, esquecida, mas não importava o quanto eu tentava, ela fora para mim, como me ensinaram que um verdadeiro amor deve ser. Uma metade.

Não poderia me permitir o contentamento de uma vida sem ela. Sem parte dela em mim. Mesmo que isso invalidasse meu santo juramento.

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