CAP.01 - Pela Manhã

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Acordo pela manhã querendo permanecer deitada pelo resto do dia, mas hoje começa o ano letivo e em uma nova escola, estou no 3º ano do ensino médio e como dizem todos “nova escola, novo ano, nova vida”.

Essa mudança me assusta, penso logo que abro os olhos. Detesto novas escolas, novas apresentações e toda essa vergonha que somos sujeitos a passar no primeiro dia de aula.

E é assim que eu começo meu dia, com pensamentos supernegativos “Legal Olivia, dá uma de pessimista logo de manhã”, me repreendo mentalmente por muitas vezes esquecer que eu mesma quis essa mudança pois acredito que mudará o meu futuro.

Essa escola vai além dos ensinamentos do ensino médio, tem horário integral então passarei boa parte dos meus dias lá, no período da manhã tenho as aulas convencionais de uma escola normal, português, matemática, química e etc. No período da tarde tenho aulas focadas em arquitetura e design, ano que vem pretendo entrar para um desses dois cursos, ainda tenho dúvidas e espero que essas aulas me ajudem.

Logo me levanto e paro de enrolação, vou para o banheiro em meu quarto para tomar um banho, preciso acordar definitivamente. Termino o banho, me arrumo e desço para um café com minha mãe.

Ela, como em praticamente todos os dias, está alegre e radiante, quem é que fica de tão bom humor as 5 horas da manhã?! Não consigo entender isso em minha mãe, mas é algo que sempre agradeci, a alegria dela permite que o meu humor melhore.

- Bom dia filha – ela fala assim que me vê parada ao pé da escada observando ela cantarolar baixinho e preparar o nosso café da manhã.

- Bom dia mãe – respondo com um sorriso inevitável no rosto, como eu amo minha mãe, mulher forte, independente, decidida, linda, jovem, inteligente...ela é simplesmente o meu maior exemplo de vida. Ela e meu pai se separaram quando eu era muito nova, tenho uma ótima relação com meu pai, ele mora no Paraná em uma fazendo, sempre foi sonho dele, tal qual, conquistou não muito tempo após a separação, tento visita-lo de 2 a 4 vezes ao ano, sempre que me sobra um tempinho.

Vou ao escritório de estudos barra trabalho que temos em casa para preparar a minha mochila. Depois do meu quarto esse era me cantinho preferido na casa. Tem uma janela enorme voltada para o jardim, uma mesa para o computador e outra para desenhos, um sofá gigante onde muitas vezes me larguei com um livro nas mãos enquanto minha mãe analisava seus casos da assistência social, sempre gostei de ficar perto dela enquanto ela trabalhava.

- Filha vem comer, o leite vai esfriar. – ela diz assim que eu saio de lá com tudo em mãos e pensando se não tinha esquecido de nada, tinha o péssimo habito de rever tudo umas dez vezes por medo de ter realmente esquecido algo.

- Estou indo. – respondo a ela e largo minha mochila próximo a porta.

Sento ao lado dela na ilha da cozinha, não usávamos a mesa quando éramos só nós duas.

- E aí ansiosa para o novo começo? – ela pergunta curiosa e apreensiva, ela sabe como detesto mudanças desse tipo.

- Sendo sincera acordei totalmente amedrontada e ansiosa para isso e ainda estou um pouco, mas estou tendo em mente meu futuro e o que eu quero para o ano que vem, preciso de um motivo para não entrar em desespero logo no primeiro dia ne?! – respondo rindo um pouco com isso tentando fazer uma piada mas com aquele toque de sinceridade.

- Vai dar tudo certo, filha, você vai ver, vai ser como em todas as escolas que você já frequentou, entra tímida e sai com vários amigos, ainda tento saber como consegui isso – diz ela pensativa e piadista ao mesmo tempo, ela queria me deixar mais leve e tranquila e conseguia, era impressionante como ela sabia o que dizer para me tranquilizar.

- Obrigada mãe, você sempre sabe como fazer com que eu me sinta melhor. Ah já estava me esquecendo, a Liz vai passar aqui para me levar, ela quer conferir como é a nova escola, sabe como ela é ciumenta ne?! – Elizabeth/ Liz é minha namorada, nos conhecemos no 1º ano do ensino médio e a conexão foi instantânea, logo viramos amigas e não demorou para nos vermos extremamente apaixonadas. Ela é uma menina levemente baixinha e linda, com cabelos castanhos claro quase louros e olhos cor mel que vira e mexe ficam verdes com o reflexo do sol, eu me perdia sempre que os olhava pois continha sentimentos intensos demais com verdades implícitas e mistérios a serem desvendados que me fascinavam.

- Tudo bem, sei bem como ela é, me lembro até hoje dela com ciúmes da sua prima que veio do Paraná junto com você em uma das vezes que foi para lá, ela ficou tão brava que eu quase a ajudei com seus argumentos convincentes – disse rindo ao se lembrar da ocasião, minha mãe a tinha como a segunda filha que não teve, no início ela não aceitou muito bem a ideia de que sua única filha fosse lésbica e, pior ainda, não fosse a bonequinha vaidosa que ela sempre quis ter, mas assim que comecei a namorar com a Liz ela começou a aceitar melhor por me ver tão feliz e realizada e de quebra ter nela a bonequinha vaidosa que queria ter.

- Ai mãe nem me lembre – eu respondo rindo com a lembrança – ela teve que falar com o pai para acreditar, ela é ciumenta mas é uma das melhores pessoas que tenho em minha vida, agradeço muito pela força que ela vem me dando sobre essa mudança mesmo sabendo que isso significa que ficaremos mais distantes e que isso pode acabar acarretando em discussões cansativas para o nosso relacionamento. – falo comovida e tensa ao mesmo tempo pois sabia como seria difícil essa distância já que estávamos acostumadas a nos ver praticamente todos os dias a 2 anos inteiros.

- Entendo seu receio filha, mas vocês vão ficar bem. Agora vá escovar os dentes pois logo ela estará aqui e você não pode se atrasar. – ela me repreendeu vendo que eu estava enrolando um pouco para terminar o café.

- Okok, estou indo – respondo rindo e me levantando da cadeira para colocar tudo na pia.

Vou para o banheiro escovo os dentes e termino bem a tempo de escutar a buzina de frente a casa, era a Liz. Uma coisa que eu tinha uma pontinha de inveja nela era poder dirigir livremente por todo lado mesmo não tendo exatamente a idade para dirigir aqui no Brasil, mas seus pais eram advogados conceituados e conseguiram uma forma para que ela pudesse tirar sua CNH um ano mais cedo, fizeram isso pois não tinham tempo de ficar levando e buscando ela na escola e detestavam o transporte público de São Paulo e com razão. Como prêmio por passar em todas as provas em sua primeira e única tentativa ela ganhou um carro deles, era um Fiat Novo Uno, bem a cara dela, delicado, mas que aguenta uma aventura em acampamentos e serras numa boa.

Corro para que ela não fique me esperando por muito tempo, dou um beijo em minha mãe e ela me deseja boa sorte. Saio pela porta com o primeiro respirar de ar puro desde que acordei, sempre tive o costume de respirar bem fundo e agradecer ao universo tudo de novo que estava por vir, era como um mantra silencioso para todas as novas coisas que eu enfrentava, como, novas escola, provas, encontros e por ai vai.

Entro no carro dando um beijo intenso e cheio de sentimento em minha linda namorada, queria que ela entendesse com esse beijo o quanto eu estava grata por ela ser tão incrível comigo. Após o beijo nossos olhos se encontram em um sentimento mútuo de felicidade, cumplicidade e apreensão, sabíamos que enfrentaríamos mudanças radicais, mas estávamos felizes pela minha conquista.

- Bom dia meu amor! – ela me diz com um sussurro e com os olhos pregados aos meus. Como eu amo esses olhos.

- Bom dia minha linda! – minha resposta sai como a dela, em um sussurro. Ela então liga o carro e seguimos rumo ao meu novo futuro.

Nem tudo é como ImaginamosHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora