Camila pov.
Eu estava no alto de um prédio abandonado, eu era fascinada por lugares abandonados, fazia eu me sentir em um daqueles cenários pós apocalípticos, e ficou apenas as estruturas para provar que o homem teve alguma civilização, e que eu era a protagonista de uma história onde os poucos que restaram tentavam sobreviver, e como protagonista, eu seria a heroína a guiar todos para um futuro melhor. Mas não era assim, eu era a protagonista da minha história, mas eu não era nenhuma heroína, eu ao menos conseguia ver alguma possibilidade de futuro, hoje tinha sido um dia horrível, não que, os outros dias também não fossem, mas hoje, hoje as coisas pareciam tão piores do que os outros dias, acordar com os berros das discussões do meu pai e da minha mãe, ir pra escola e ter o trabalho de história roubado, a mochila mergulhada na piscina da escola, uma camisa manchada com mostarda, empurrões que me faziam ter alguns roxos pelo corpo, eu não tinha um único momento de paz, eu só queria que toda essa merda parasse, eu não sabia o que era ter um amigo, eu estava sempre sozinha e sempre jogada contra armários, em casa eu era invisível para os meus pais até que eles decidissem descarregar seu estresse em mim, por sorte minha irmã era pequena demais para ser um alvo ainda. Eu tinha cicatrizes, nos pulsos e nas coxas, mas isso não estava sendo suficiente, eu precisava que tudo acabasse, eu estava pronta para pular do topo do prédio, a chuva atrapalhava um pouco a visão, eu abri os braços, pronta para me jogar, quando escutei um som agudo, parecia um animal, virei um pouco a cabeça para trás, mas eu não conseguia ver nada, só a chuva e a escuridão, escutei o barulho de novo, estava vindo de perto da porta que dava para dentro do prédio, eu iria ignorar quando eu consegui identificar que som era, um miado, um miado quase desesperado, me afastei da beira do prédio e fui até a porta por onde passei para subir até aqui, olhei na lateral da entrada, lá estava uma caixa de papelão que já estava toda derretida, tinha um gato dentro, um gato preto de olhos muito verdes, já era um gato adulto, tinha inclusive uma coleira, ele tinha sido abandonado com a caixa fechada, mesmo com o papelão derretido dava para ver as marcas de arranhões nos cantos e onde o papelão cedeu e se abriu, o gato miou de novo, ele tremia, o peguei no colo e ele logo ronronou tentando se esconder da chuva dentro da minha blusa, respirei fundo, não seria hoje o dia que eu iria morrer, levei o gato para casa, era longe mas, eu realmente não estava com pressa, e por ser noite não tinha ninguém na rua, a chuva já estava passando, o gato tremia no meu colo, chegando em casa, fiz um esforço enorme para não fazer barulho, meus pais já deviam estar dormindo, fui até o banheiro, usei uma toalha para secar o máximo possível do gato, e então olhei mais atentamente sua coleira, ela era amarela, minha cor preferida, não tinha um pingente dizendo o nome, número de telefone ou endereço, respirei fundo, eu ao menos sabia se era um gato ou uma gata.
– Fica aqui, vou tomar um banho e vou sair comprar algo para você comer.
Sim eu estava falando com o gato, ele apenas me olhou antes de começar a se lamber sem se importar, seria melhor manter ele no banheiro para que ele não destruísse a casa, comecei a tirar a roupa molhada, abri o box, antes de entrar eu notei o gato me olhando, ele parecia me analisar, senti um arrepio na nuca e fechei o box antes de começar a ficar paranoica, abri o chuveiro e deixei a água quente me atingir, não importa quantos banhos eu tome eu sempre vou me sentir suja. Assim que terminei de tomar o banho desliguei o chuveiro e abri o box, lá estava o gato, sentado olhando atentamente para mim, me enrolei em uma toalha, aqueles olhos verdes me intimidavam de mais, juntei minha roupa molhada e a levei direto para a máquina na lavanderia, o gato me seguia por toda parte, voltei para o meu quarto, e ele logo fez questão de subir na cama, sorri negando com a cabeça, ele massageava o colchão alegremente, fui até meu armário e coloquei um jeans qualquer e vesti uma blusa de frio, sem nada por baixo mesmo, coloquei uma meia e procurei por algum tênis jogado debaixo da cama, assim que fiquei pronta fui até a mesa do computador e abri a gaveta peguei o livro do pequeno príncipe que já estava surrado, e abri, descolei a capa e tirei algum dinheiro que eu escondia ali, colei a capa de novo e guardei o livro.
– Já volto gatinho.
Sai e fechei a porta do quarto torcendo para que ele não destruísse nada no meu quarto, fui até a loja de conveniência que ficava a um quarteirão de casa e funcionava 24h, comprei duas latas de comida para gato, compraria ração amanhã, eu já estava no caixa quando eu notei, eu estava pensando no amanhã, em um futuro, um futuro bem próximo, mas ainda sim um futuro, neguei com a cabeça e paguei a comida, eu iria achar alguém que adotasse o gato, e então iria voltar ao meu plano original, não seria um gato a tornar a escola mais tolerável e minha vida dentro de casa deixar de ser um inferno, voltei para casa, peguei um pote e coloquei água nele, torci para que o gato não tivesse feito nada de mais, me assustei ao ver a porta do meu quarto aberta, e a luz do banheiro acesa, para em seguida o barulho da descarga soar, engoli em seco, esperando tomar esporro por estar acordada essa hora, mas quando a porta abriu, tudo que eu vi foi o gato pendurado na maçaneta, eu fiquei de boca aberta, completamente surpresa, o gato tinha usado o vaso, e puxado a descarga, ele soltou a porta e miou para mim antes de correr para o meu quarto, eu apaguei a luz do banheiro, ainda tentando entender o que tinha acontecido, entrei no quarto e fechei a porta, deixei o pote com água no canto, e abri a lata com a ração ao lado, ele logo veio direto para a água, enquanto ele se deliciava eu fui trocar de roupa, tirei a blusa, a calça e a meia, guardei tudo no lugar e peguei uma camisa velha minha, ela era amarela e tinha o desenho de várias bananas nela, eu amava amarelo, e amava banana, teve uma época que essas duas coisas me faziam me sentir feliz, o gato já tinha comido e bebido água, ele estava sentado me olhando, eu o peguei no colo e o deitei na cama de barriga para cima, e foi ai que eu descobri, o gato, na verdade era uma gata.
– É eu ainda preciso te dar um nome gatinha.
Falei fazendo carinho entre suas orelhas, ela ronronou e se esticou toda na cama, eu levantei a coberta e deitei me cobrindo, a gata saltou para o meu travesseiro e deitou quase que em cima da minha cabeça, senti ela suspirar antes de pegar no sono, o dia tinha sido horrível, e eu tinha certeza que o próximo também seria.
***
notas: olá, esse começo foi curto, apenas para dar inicio a história, eu quero deixar avisado, que a história que estou escrevendo vai conter bastante sintomas da depressão e muitos pensamentos suicidas, então, quem for sensível a isso não leia, também vai contar o uso de drogas e violência, obrigada a todos que estiverem lendo.
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The black cat
FanfictionCamila estava prestes a se jogar do alto de um prédio, quando o miado de um gato preto a impede de dar fim a sua vida, no dia seguinte em sua escola, uma garota nova com antecedentes criminais aparece, ela era dois anos mais velha, e por algum motiv...
