Arton vivia uma era de problemas. E isso, amigo, já havia deixado de ser novidade há algum tempo.
O mundo vivia guerras que escalavam em proporções inimagináveis muito rapidamente. A campanha expansionista dos Minotauros; Os Puristas de Yuden que marchavam contra as forças aliadas; A Tormenta; A aliança negra... Todos estes eram problemas que pareciam, agora, estarem unidos por uma cola invisível. Por uma força magnética que culminava em lendas nascendo, e morrendo, diariamente. Por uma motriz indescritível que atendia apenas pelo nome de... "Destino".
Enquanto todo o Reinado debruçava-se sobre questões muito maiores, centenas de grupos de aventureiros viviam suas vidas, pouco afetados pelos ires e vires das guerras de proporção titânica. Quando se mora em um continente gigantesco como este, os efeitos das coisas – Até mesmo das mais importantes – Demora para chegar em alguns lugares; e é sobre um destes grupos que essa história trata. Um grupo de jovens que buscavam poder, glória, ouro, reconhecimento... Um grupo muito parecido com todos os outros; e que não parecia portar absolutamente nada de especial...
...Parecia.
- Aonde você vai correndo assim, apressadinho? – Winston, um dos membros do grupo, perguntou ao seu companheiro que corria quase adentrando as trevas daquela noite. Mago e pertencente à exótica raça dos gnomos, Winston parecia um tanto impaciente para o comportamento impetuoso de seu amigo.
- Estou apressado mesmo! Oras. Não vejo a hora de recebermos as recompensas! Afinal de contas, vencemos os bandidos, não é mesmo, Félix? – A resposta era dada com efusiva verdade, e vinha de Summer, um dos outros integrantes do grupo. Ele era, também, um aprendiz das artes arcanas. Feiticeiro e Mago em treinamento. Espontaneidade e sede de conhecimento, andando de mãos dadas, dentro de toda a aptidão nata de um Qareen. A pergunta retórica, ao final, direcionada para o familiar gato que trazia consigo em seu ombro. E a resposta não demorou em vir – Meow!!
Mais atrás, coçando a testa enquanto assistia ao diálogo, estava Kerigus – O halfling ladrão do grupo. Mais calmo, ou mais desinteressado, ele andava usando passos tão macios que eram difíceis de ser ouvidos. Foi ele o primeiro a perceber o brilho que contornava a colina que subiam – Ei, que luz é essa? O Vilarejo não é tão grande assim pra emitir toda essa luz...
Verdade – Concordou o último membro aventureiro, Noash, que também era mago, e único humano do grupo – E esse cheiro, vocês conseguem sentir? – A apreensão lhe fez, por reflexo, chamar para perto de si as suas três poderosas criaturas mágicas, a quem havia apelidado carinhosamente com nomes de um dialeto antigo: "Pee Kah Shoo", "Tchar Me Leon" e "Yvah Sour".
O grupo apressou o ritmo, e logo tiveram uma das piores visões que poderiam imaginar. O vilarejo, outrora cheio de vida, jazia em chamas e fumaça. Gritos fracos ainda podiam ser ouvidos, ecoando pelas ruas agora vazias do lugar. Correndo, os aventureiros tentaram se aproximar; tentaram prestar o socorro que fosse possível àqueles pobres aldeões. O ladrão Kerigus, furtivo como a noite, logo se aproveitou da escuridão do véu de Tenebra para mesclar-se às sombras e buscar nelas pistas sobre os possíveis responsáveis por aquela atrocidade. Summer – Mais impetuoso que os demais – Avançou em desabalada carreira rumo à cerne dos problemas: Peito aberto para o perigo e para o desafio de vingar os injustiçados. Os dois restantes entreolharam-se por um segundo, antes de seguirem adiante.
Aproximar-se não era fácil. O cheiro de carne calcinada misturava-se ao de sangue e vísceras. Corpos pululavam pelas ruas. Correndo, Summer rapidamente notou que por mais numerosas que fossem as casualidades... Não correspondiam à população total da vila. Haviam mulheres estupradas e mortas de diversas formas. Velhos e crianças decepados e queimados. Todos estavam mortos, ou praticamente todos, pois, em uma pausa para recobrar o fôlego, o grupo pôde ouvir um pedido de socorro sob a forma de um gemido desesperado.
Um ancião da aldeia arrastava-se, tentando sair de sua cabana que ainda pegava fogo. O Qareen adiantou-se em seu auxílio, prontamente. Percebendo que o senhor estava totalmente queimado da cintura para baixo, aplicou nele um unguento de ervas curativas que trazia consigo, aliviando por um segundo todo o oceano de dor que o velho carregava em seu corpo agora praticamente inútil. O Bálsamo contido na mistura parecia ser de fato muito potente, pois ele abriu os olhos pela primeira vez enquanto os aventureiros recostavam-no na pracinha do centro da aldeia.
Seu olhar percorreu os rostos jovens, preocupados. Uma lágrima escorreu em seu rosto velho, desenhando todas as linhas de expressão e rugas fundas que o tempo havia fincado firmemente ali - ...Eu lembro de vocês... Vocês deveriam nos p-proteger! Vocês deveriam estar aqui... Vocês poderiam... Tê-los impedido! – Sua mente titubeou rumo à inconsciência, sendo resgatada pela voz do intrépido Summer
- Quem fez isso, velhote? Quem? Não podem ter sido os bandidos... Nós derrubamos todos eles! – Seu punho fechava-se, e era possível ver a aglomeração de uma energia quente e ígnea em seus dedos durante este ato.
- Sim – A voz bem calculada de Winston refutava a possibilidade de ter sido uma represália dos ladrões – Não há como terem sido os ladrões. Mesmo que um grupo tivesse escapado, não teriam conseguido se mover TÃO mais rápido que nós... Quem fez isso, senhor!? – Havia uma curiosidade quase científica misturada com preocupação genuína, em sua voz
- Homens... Monstros... Eu... Eu não sei dizer – O olhar do homem esquivava-se dos olhos dos aventureiros e agora fitava a pequena réplica da estátua da grande Valkaria, que figurava em um altar central – Por Valkaria... O que eles fizeram com as nossas mulheres... Com as nossas criancinhas... – Lágrimas vertiam agora em profusão, denunciando uma quase perda da capacidade de raciocínio do pobre coitado.
A voz de Noash se fez ouvir, ponderada e triste – E os homens? Só há cadáveres de velhos e mulheres... O que eles fizeram com os homens?
- Os levaram... A todos... – As mãos magras e ossudas agora cobriam o rosto barbado, abafando sua voz – Não sei para onde, não sei como...
- Eu sei – Era a voz de Kerigus, que aparecia ali trazendo nos braços uma garotinha que estava, como o velho, semi-viva – Encontrei uma trilha. São pegadas definitivamente monstruosas. E vão rumo ao sul – Terminava de falar enquanto repousava a garotinha ao lado do senhor, que, com dificuldade, pegava na mão da menina. Ela estava catatônica, e mal conseguia falar qualquer coisa. Apenas repetia, incessantemente – Pelo amor de Valkaria... Pelo amor de Valkaria!...
A dor e o sofrimento foram rápidos mensageiros para os dois únicos sobreviventes do massacre, mas não foram tão rápidos quanto Summer. O garoto avançou na direção que achava ser Sul, quase correndo, quase chorando, quase explodindo com o sentimento de vingança. O grupo se entreolhou por um segundo, tentando processar aquilo tudo. Não se conheciam há muito tempo. Havia hesitação, e havia insegurança. Havia também um minuto de silêncio, que foi quebrado por um grito do raivoso Qareen:
- DROGA, KERIGUS! AONDE ESTÁ A MERDA DA TRILHA? AONDE ESTÃO OS MONSTROS? EU VOU MATAR A TODOS!
E, com esse grito, todos perceberam que havia apenas uma única rota aceitável para um grupo como o deles, diante de uma situação como aquela:
Eles precisavam matar alguns monstros, vingar alguns inocentes, e resgatar alguns homens.
Eles precisavam se aventurar.
YOU ARE READING
Gemas da Desvirtude - O Romance
Action"Gemas da Desvirtude - O Romance" é a representação literária da campanha de TORMENTA RPG, "Gemas da Desvirtude".
