Prólogo

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Acordar com a mesma sensação de não ter dormido virou rotina há tanto tempo que seria impossível usar a precisão habitual dos dias tão iguais. O vento abriu a janela não sei bem de que horas, mas sinto sensação de não ter perdido nem um ruído da madrugada que deveria ser silenciosa. O sapato estava tão distante da cama quanto à alma do corpo, parecia que eu a tinha deixado em outro lugar enquanto vagava não sei dizer ao certo por onde. Lembrar da noite durante o dia parece uma missão a ser vivida mais real do que os acontecimentos do próprio dia, afinal dias tão iguais com cores em tons de cinza e marrom mereciam algo paralelo.

A plantação vista do alto não parece está nada bem, esse vai ser mais um ano de escassez, o frio impede o crescimento da esperança de comer sem racionalizar. Não sei por que me importo, a expectativa seria a vontade mais cruel em acreditar que algum dia nós vamos conseguir sair daqui. Finalmente encontrei um fio de recordação e junto com ele o outro par do calçado, ao lado havia um pouco e terra avermelhada, apenas isso, a visão da terra e a terra física ao lado do sapato gasto do tempo de uso. A primeira tarefa o dia foi simples, fechar a janela.

As paredes faziam um barulho indistinguível, mas as portas essas sim eram normais com sons normais de portas antigas sem um pingo de óleo para evitar o ranger em tempo integral. Descer as escadas tocando as paredes já faziam parte de um rotina indiscutível, quase um toc insuportável e prazeroso. Os degraus eram contados um a um todos os dias e assim também as poucas e grandes pedras que formavam o caminho até o poço. Não sei como poderia ser uma vida real fora desse cercado de árvores, até tenho recordações não vividas, mas ainda não sei distinguir se de fato são recordações ou alucinações.

Passei dezesseis anos aprendendo a sobreviver, a vida só conheço quando o fardo do dia se cai através do cansaço incansável e ainda assim não me lembro de nada além de pequenos fragmentos compartilhados comigo mesmo durante o dia. Enquanto espero o pó e a água se tornarem uma só entidade, mais um pouco de vida me vem à memória, terra vermelha molhada. Terra misturada com sangue, terra com cheiro de morte. Um pouco do café cai da xícara sem asa e as pontas dos dedos sentem um leve queimor, mas nenhuma lembrança me traz essa sensação, apenas molho os dedos em água fria pra amenizar a dor. Penso que são tão insuficiente essas pequenas lembranças e tão grandioso o cansaço que me sobrevém ao abrir os olhos.

Prosseguir o dia é como dar corda a um relógio antigo, tão necessário e controlável quanto frágil e temperamental. Hoje é quinta, sei disso porque o senhor e a senhora fazem um calendário minucioso todo ano e pregam na parede da cozinha, usavam um calendário antigo como base para não se perderem no tempo assim como um relógio que se esquece de dar corda. Depois de me certificar do dia da semana fui até as árvores que nos cercam para cortar a lenha necessária para o resto do mês. Meus braços por mais que trabalhe duro não se parecem com a descrição dos homens que leio nos livros encontrados no alto do armário de roupas. Acredito que essa seja a minha menor preocupação, braços finos.

O mesmo som que vem das paredes, em algumas ocasiões dá pra ouvir de dentro daquele emaranhado de galhos, minha coragem não chega ao ponto de adentrar na escuridão, escuridão essa que não cessa seja dia ou noite. Impossível fazer qualquer tipo comparação sem ter algo concreto pra comparar, mas uma coisa eu garanto, não são sons de paz. A paz não grita, não chora, não se esconde.

O moinhoWhere stories live. Discover now