Prólogo

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Naquela cálida tarde de agosto, pela primeira vez em tanto tempo, as nuvens haviam se cansado de lamentar os maus dias e nos deixaram finalmente em paz. Eu deveria agradecer eternamente por isso. Estávamos convictos de que não precisávamos de mais um pouco de chuva; as calçadas estavam úmidas o suficiente por uma década.

Os tons de cinza foram imediatamente trocados por cores vibrantes, anulando aos poucos os traços mortos e desprezados que jaziam nos céus. Aquele era um bom dia. Com as vidraças abertas e a leve brisa acariciando as maçãs do rosto, eu me sentia simplesmente livre. Provar do aconchego de um lar e o afago de um abraço era mais do que eu poderia pedir. Mais do que eu merecia.

Pude compreender, então, que existem pessoas que surgem em sua vida para mudá-la integralmente. Do início ao fim. Que vão do céu ao inferno para salvá-lo e, depois de tudo, ainda lhe garantem que os dias são fáceis, o universo é bonito e que você é a razão de tudo isso.

Lina é uma dessas pessoas que me acolhem, dizendo que o universo é mais bonito por minha causa. Ela pensa assim, pois seu olhar extrai apenas os bons sentimentos dos que estão ao seu redor. Quando me vê, as palavras que saem de sua boca são sempre as mesmas: “Sua bondade é nítida, mas você insiste em tapar os olhos”. Ela não percebe que o mundo, na realidade, é uma porção de crueldade infinita e que todos estão dispostos a aplaudir mais os fracassos do que as vitórias dos demais. Nós somos os próprios vilões das histórias que criamos.

Eu gostaria de ser mais como ela, embora saiba que meu coração não é puro. Por alguma razão, ele nunca foi. Eu gosto de ver a dor estampada nas feições de um ser qualquer que, sem algum motivo crível, implora aos deuses mais alguns dias inúteis na Terra. Eles sempre pedem mais.

— Menina, está na hora — ela grita, mas o som agudo que emite é delicado como um pequeno sussurro. Lina é adorável em tudo o que faz, e, às vezes, me pergunto se ela é real. Nada que soe tão perfeito pode ser.

— Tudo bem, Lina. — apenas concordo, deixando o arco e flecha em cima da cama.

Nós caminhamos entre algumas ruas e paramos em frente a um mercado ao ar livre, de pouco movimento. Cestas de frutas e legumes estão posicionadas sobre a mesa, atraindo a atenção dos clientes. São tantas as cores e texturas. Os mais variados aromas me fazem criar água na boca.

— Fique aqui, menina. — ela pede, se movendo até as bancadas da feira. Lina escolhe os frutos com atenção, enquanto eu foco os meus olhos em outro lugar. Nos fundos do mercado há um grupo de crianças cantarolando e divertindo-se, de forma que é impossível não reparar em seus sorrisos. Elas estão realmente felizes.

— Te peguei. Agora é com você, Melina! Duvido que consiga me alcançar. — um deles grita, correndo e tentando fugir do toque dos outros colegas.

Esta é mais uma brincadeira inocente, mas as outras crianças me tratam exatamente dessa maneira – e entendo que não estão brincando ao fazer isso. Basta olharem para mim e todos se afastam, sussurrando que não me querem por perto. Acontece o mesmo em todas as semanas, mas eu havia prometido, antes de sairmos de casa, que não estragaria a diversão desta vez. Permaneceria o mais distante possível para que não me vissem. Para não ser o alvo de fofocas.

Pretendo parar de observá-los, quando noto um dos garotos me encarando com curiosidade. Ele não desvia o olhar, por mais que eu arregale os olhos tentando afugentá-lo. Vejo que suas mãos se agitam e alcançam uns fios de cabelo que caem sobre os cílios. Sinto-me constrangida. Quero ir até ele e dizer que eu ficaria exatamente onde estava, e que não estragaria o prazer de nenhum deles, mas percebo que para isso eu precisaria caminhar até lá. Se eu me aproximasse, certamente estragaria o prazer de todos, do mesmo jeito.

Tento ignorá-lo novamente, mas seu sorriso demonstra uma diversão que eu não vejo com frequência em nenhum dos lábios. Seus olhos negros cintilam mesmo à distância, como dois poços profundos e inalcançáveis.

Sem esperar, dou um salto quando uma mão toca o meu ombro. Meu coração vai até a boca em uma fração de segundos.

— Você sabe que pode ir até lá e se juntar com todos eles. Ninguém irá mordê-la, nem estapeá-la. São apenas jovens como você, Ari. Eles não são inimigos.

— Eu não quero. Será que dá pra entender? — bufo, impacientemente. — Está cansada de saber o que eu acho. Não é nenhuma novidade.

— O que eu posso fazer? O garoto está te olhando desde que chegamos. É tão difícil olhá-lo, também? — sei que ela está sorrindo, mesmo sem encará-la. Lina está se referindo ao garoto de cabelos pretos e olhar enigmático. — Ele sempre te olha. E você sempre foge.

— Ele é bem mais velho e não está me olhando do jeito que você pensa que ele está — volto a bufar. — Todos sempre me olham do mesmo jeito, Lina, para que possam debochar entre eles depois. Eu não preciso de mais uma sessão de ódio sendo despejada sobre mim. Muito obrigada.

Ela balança a cabeça, discordando de minhas palavras. Nunca nos entendemos nesse ponto. É como se Lina quisesse encontrar salvação onde não existe algo para salvar.

— Ainda pensa que não merece sentir algo verdadeiro, é isso? — suas mãos acariciam meus cabelos, com delicadeza. — O garoto é bonito. Aquele, de cabelos negros. E você é uma jovem tão doce, Ari.

Dou de ombros, tentando ignorá-la.

— Esqueça isso, de uma vez por todas. Eu não me importo com nenhum deles. Não quero a amizade de ninguém.

Lina não concorda, tampouco permite que eu deixe tudo daquele jeito. Para ela, a vida é curta demais ao ponto de deixarmos os maus pensamentos nos consumirem. Um erro como esse não pode ser aceito. 

— Está na hora de apagar a mágoa do coração, Ari. Você não deve carregar o mesmo fardo a vida inteira.

Talvez ela estivesse certa. Ninguém merecia algo assim. Os dias não passariam de horas de solidão e momentos melancólicos, repletos do sentimento de insuficiência e de abandono. Mas o destino já estava traçado, e fugir dele serviria para atrair mais desespero e novas desgraças. Era irreversível.

Lina balança sua cabeça pela última vez, complementando o silêncio que existe entre nós. Detesto quando falamos sobre os meus sentimentos, porque eles sempre nos levam a um assunto que não costumo pôr em discussão. Eu gosto de ficar sozinha e é assim que as coisas precisam ser.

Por curiosidade, volto a encarar os fundos do estabelecimento e noto que poucas daquelas crianças restaram. Os gritos de alegria e excitação não podem ser detectados, pois ele não continua no meio do grupo. Uma pontada de decepção me atinge em seco, detonando qualquer resquício de ansiedade.

Eu jamais admitiria à Lina ou a qualquer outra pessoa, mas nunca consegui esquecer o brilho daqueles olhos escuros. O eterno garoto dos cabelos negros logo seria somente mais uma lembrança entre as tantas outras que eu insistia em esconder dentro da memória.

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