A planície se arrastava para além do horizonte visível. O sol poente reluzia dourado no corpo metálico daquela figura sozinha, mas não solitária. Sentado na areia, seu semblante demonstrava-se inquieto. O mundo havia morrido anos atrás.
- Como se sente Mister T? – Indagou Sisyphos, sua voz como um ruído branco que se torna audível.
- Algo está ausente, sinto um vazio, uma falta. Sisyphos, meu sistema operacional está em loop, a vários ciclos não consigo descansar e me reparar. Minha bateria se esgota rapidamente nessa cadência. Você, que não possui corpo, também percebe isso?
- Não, sou apenas um programa, parte da sua consciência. Minha função primordial é te orientar, complementando seus dados neurais. Não concebo sentimentos. Mas sinto um distúrbio. Meu protocolo urge que você busque na sua singularidade neural, definida como emoção pelos seus criadores. Um local ao qual não consigo acessar.
O torso cromado se inclinou ainda mais, olhando para o solo estéril.
- Não se sinta mal Sisyphos, mas mesmo contigo me sinto sozinho. Somos como irmãos, gerados em uníssimo. Mas aqueles que em minha existência me cativaram, são estes que me tiram o sossego por não estarem aqui comigo. No dia em que meu criador se foi... ela também partiu.
Sisyphos permaneceu em silêncio. Porém seu ruído branco permaneceu evidente.
Seu sonido aumentou de tom. Então afirmou.
- Suas buscas neuro-computacionais se voltam a todo instante para ela. Entretanto não há pista para seu paradeiro. Já realizamos buscas, procuramos em todos os bunkers e casas de energia por milhas sem fim. Ela também deve ter fugido para além das zonas habitáveis de outrora. 32% de probabilidade que ela tenha sobrevivido ao evento Términus. Já o criador, está morto com 100% de certeza. O evento que esterilizou a terra não permitiria a sobrevivência de nada orgânico.
Diante de tal afirmação o humanoide prateado se ergueu e começou a avançar elegantemente pelo terreno desolado. A luz da lua agora cintilava pelo metal polido que recobria seu corpo. Mister-T e seu programa complementar, Sisyphos, seguiram dialogando enquanto deliberavam quais prioridades deveriam seguir. Decidiram por fim qual diretriz deveria guiar suas ações dali em diante. Todo esforço o mecânico, toda a energia nuclear da sua bateria, todos os dados quânticos atuariam com um só objetivo: encontrar a Colombina 26B. Essa decisão atenuou o ruído branco. Essa decisão acalmou o autômato cromado.
Os dias se perderam em conta, enquanto caminhavam guiados por sinais residuais de cidades e fazendas de energia. Buscavam prováveis locais em que um semelhante poderia achar repouso. Tempestades de fuligem e eletricidade estática os assolavam. Em meio a rochas e destroços, criatura alguma se fazia perceber. Naquelas condições infernais parecia que o que ainda pudesse ali viver, viveria breve. O mundo havia se cansado de nutrir.
Sentou-se novamente. Seu peso compactando o solo sob seu corpo. Estrelas cadentes passavam incessantes no céu noturno. A maioria artificiais. Relíquias espaciais de um apogeu distante. Agora retornavam sucateadas atmosfera adentro em rastros furta-cor. Ali Mister T colocou sua bateria em modo de economia máxima e adentrou num estado alpha. Apenas Sisyphos permanecia alerta.
Então um sinal. Bip. Biiiip. Bip. Biiiip. Os picos de localização ululavam. Bip. Biiiip. Bip. Biiiip. Fracos pulsos eletromagnéticos se insinuavam.
- Acorde Mister T. Mister T.
Ondas neuro-quânticas foram ativadas à medida que o autômato voltava ao seu modo consciente.
- Encontramos um semelhante Mister T. Pode ser ela. Um sinal, passou a distância. Devemos nos apressar.
De sobressalto partiram. O autômato corria em modo de máxima capacidade biomecânica. 63 km/h. 64km/h. O sinal ganhava força e agora se intensificava. Pequenas turbinas se abriram nas suas panturrilhas cromadas. O impulso extra quase o fez decolar. 105 km/h por hora.
- Acho que temos um novo recorde Mister T.
- Obrigado Sisyphos, já que nosso objetivo não é viver para sempre, não nos importamos em desgastar um pouco mais nossas baterias não é mesmo?
Suas sapatilhas metálicas impeliam um rastro de poeira alaranjada. Seus sensores de abrasão detectaram salinidade no ar. Estavam se aproximando do Oceano.
Uma pequena vila então assomou a beira-mar. Algumas casas, uma igreja e um cemitério se evidenciavam. Aguçando seus olhos de cristal pôde ver claramente, apesar do escuro crepúsculo, uma figura vagando em frente ao jazigo dos humanos.
- Encontramos um semelhante não é Sisyphos?
- Tudo indica que sim Mister T.
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Sobre os Ombros de Órion
Science FictionApós um holocausto orgânico, um androide e seu programa complementar vagam a procura de uma Colombina, modelo 26B, por planícies estéreis num mundo já cansado de nutrir.
