Capítulo Único

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Sasuke sempre achou inquietante a forma como Uzumaki Naruto se destacava entre alfas, ômegas e até mesmo entre os de sua própria classe: os betas. Naruto era um beta e, ainda assim, atraía atenção demais, desejo demais, despertava reações que não deveria provocar. Especialmente em Uchiha Sasuke, um dos alfas mais cobiçados de Konoha.

Ele nunca soube dizer quando o olhar deixou de ser casual e passou a ser necessário. Quando observar Naruto deixou de ser um hábito inconsciente e se tornou uma urgência silenciosa. Em algum ponto, os aromas doces e provocativos dos ômegas deixaram de ter qualquer efeito; tudo o que seu corpo reconhecia era o cheiro de Naruto.

O beta mudava frequentemente de perfume e óleos corporais, e Sasuke percebia cada variação com precisão perturbadora. Era como se sua atenção estivesse sempre em estado de alerta, aguardando o momento em que Naruto passaria por ele nos corredores da faculdade.

Havia expectativa em cada dia. Morango, amêndoas, notas amadeiradas. Não importava. O que o desestabilizava era a combinação da fragrância com a pele bronzeada, quente, viva. Naruto tinha um tom de pele que parecia guardar o sol, contrastando de maneira quase dolorosamente bela com os cabelos loiros e os olhos azuis. O corpo era harmonioso, firme sem ser excessivo e provocante sem esforço. Tudo nele parecia pensado para despertar vontades que Sasuke passara a vida inteira aprendendo a controlar.

No refeitório, Sasuke escolhia sempre o mesmo lugar. Não por conforto, mas por estratégia. Queria vê-lo chegar. E não era o único. Havia um silêncio sutil, quase reverente, quando Naruto surgia. Vestia camisa social branca, mangas dobradas até os cotovelos, expondo antebraços que chamavam atenção demais. Calça jeans rasgada, coturnos firmes, colete social preto. O cabelo, propositalmente desalinhado. Sempre trazia um livro ou o celular nas mãos, os olhos baixos, alheio aos olhares que o percorriam com interesse descarado, inclusive os de Sasuke.

Naruto caminhava com segurança até a cantina, pedia um suco de melão e um pedaço de torta de frango, sorria para a atendente. Um sorriso simples, mas que fazia algo se contrair no peito de Sasuke. Sentava-se em qualquer mesa disponível. Sasuke se perguntava, mais vezes do que gostaria, como seria receber aquele sorriso direcionado a si.

"Quando vai falar com ele, otouto?", perguntou Itachi.

Itachi sabia. Sempre soube. E, para surpresa de muitos, incentivava. Eram gêmeos não idênticos, semelhantes o suficiente para confundir os menos atentos. A diferença mais clara estava nos cabelos longos de Itachi, algo que Sasuke jamais aceitaria usar.

"Talvez nunca, nii-san", respondeu, sem desviar o olhar de Naruto.

Ele acreditava nisso. Até a noite em que álcool, música alta e impulsividade se misturaram em uma festa da faculdade.

Quando percebeu, já havia puxado Naruto para um canto afastado, longe dos olhares curiosos. O beijo aconteceu sem aviso, intenso, carregado de tudo o que havia sido reprimido por tempo demais. Naruto correspondeu e isso foi o que destruiu qualquer resquício de controle que Sasuke ainda possuía.

Depois daquele primeiro beijo, vieram outros. Toques mais demorados. Respirações próximas demais. Se antes a atração era insuportável à distância, agora se tornara física, pulsante. Sasuke passou a sentir o corpo reagir à simples proximidade do beta.

Foi quando tudo começou a desmoronar.

A sociedade era preconceituosa em relação a alfas e betas juntos. Seu clã, era pior. Sasuke foi forçado a passar o cio com uma ômega, um evento mecânico, vazio, sem conexão. E aquilo foi suficiente para Naruto decidir que não poderia continuar.

O mais cruel era perceber que outros corpos não despertavam nada além de um incômodo profundo. Beijos não aqueciam. Toques não encaixavam. Havia desejo, sim, mas não prazer. Apenas ausência.

Todos os dias tentava provar para Naruto que não era apenas atração, que não era curiosidade proibida. Que estava disposto a perder tudo se fosse preciso. Naruto resistia.

"Não dá, Sasuke. Eu sou beta. Sua família nunca vai aceitar e eu não vou conseguir te satisfazer."

Eles estavam parados diante da porta do quarto de Naruto. A manhã chuvosa tornava o ar mais pesado, mais íntimo. Muitos haviam escolhido ficar no campus naquele sábado.

"Você não sabe disso", respondeu Sasuke, a voz baixa, firme.

Nunca haviam ido além dos limites que Naruto impunha. Beijos profundos. Mãos explorando com cuidado. Corpos reagindo de formas difíceis de ignorar.

"E isso nem importa. O que eu sinto por você vai muito além do físico."

"Você diz isso agora. Mas quando o seu cio chegar e eu não for o suficiente..."

"Você vai ser", interrompeu, aproximando-se. "Porque eu te amo. E o meu corpo responde ao seu de um jeito que nunca respondeu a mais ninguém."

Sasuke o encurralou contra a porta. O cheiro do alfa se intensificou, denso, quente, carregado de posse contida.

"Muitos tentaram ocupar o seu lugar", continuou. "Todos falharam."

Naruto negou com a cabeça, a respiração irregular.

"Eles erraram quando o beijo não me arrepiou. Quando o toque não despertou nada. Eles não eram você." Uma risada baixa escapou de seus lábios. "Eles quase ficaram entre nós. Quase. Mas esse 'quase' é insignificante. Nunca. Nunca alguém vai ficar entre você e eu." A mão de Sasuke pressionou o próprio peito.

"Meu coração de alfa escolheu você. Eu te amo. Não peço mais do que um pouco do seu amor. Eu te protegerei. Até de mim mesmo, se for preciso." A voz falhou. "Você me faz querer enfrentar tudo."

Naruto chorava, o corpo trêmulo.

"Isso foi quase um pedido de casamento", murmurou, tentando sorrir enquanto segurava os braços de Sasuke.

"Então que seja. Eu só quero você."

Naruto ergueu o rosto, os olhos brilhando.

"Eu também te amo, seu bastardo. Não é pouco. Eu sinto meu corpo reagir quando você chega perto. Eu também só quero você. O resto... a gente enfrenta."

O beijo que selaram não foi apressado. Foi profundo, carregado de desejo contido, amor acumulado e promessas silenciosas que ambos estavam prontos para cumprir.

Enfrentar os riscos (ABO)Stories to obsess over. Discover now