A SUICIDA
Luz estrelada, solar e artificial, se fosse para delimitar como Virginia Souza se sentia seria a última, uma lâmpada esquecida que nunca é acesa. A sensação de estar se afogando eternamente no mar é companheira desta adolescente de 15 anos, de cabelo rosa, olhos verdes e sexualmente neutra. Todo sábado usa roupa amarela, um ritual que completará quatro anos e nove meses, e não faz isso porque quer chamar a atenção, pelo contrário, isso se dá em vista de sua tia, desaparecida há cinco anos sem deixar rastros, a cor vibrante do girassol era também a favorita dela. Assim o carinho dos fins de semana, sempre cheio de sorrisos desde sua infância, havia sido transformado em enfadonhas horas no sofá de casa, assistindo a seriados com a mãe, tendo obrigatoriamente de ouvir comentários nada amistosos.
— Virginia! Nós temos um casamento da sua prima, vamos comprar o vestido amanhã — Alertara uma vez sua mãe, senhora Souza.
— Nós podemos comprar uma calça preta e também uma blusa amarela, o que acha? — Embarga Virginia desanimada logo em seguida.
— Por que você faz isso comigo? Não pode se vestir igual uma menina ao invés desses bonés de aba torta? — Tentou sua mãe persuadi-la mesmo já sabendo que não teria resultado satisfatório.
— Porque esses bonés de aba RETA me protegem do sol, já os vestidos só me causam arranhões pelos brilhinhos irritantes.
Conversação feita esta era rotina de mãe e filha, sempre contrárias em qualquer assunto, com exceção do pai de Virginia, que era tranquilo o bastante para apaziguar o clima assim que pisava na porta. O problema era que este homem, tido como herói por sua filha, não podia frequentar a escola também, se pudesse seria motivo de muitos sorrisos que não afloravam há anos.
O Ensino Médio para muitos adolescentes era um campo de flores coloridas, com festas agitadas, notas máximas e muita descoberta, mas não para Virginia. Desde a quinta série, ela soube que a escola não traria nada de bom, apenas garotas más, garotos idiotas e professores que só gritariam para lhe dar a atenção, além do desespero das aulas de educação física, pois eram notoriamente essenciais as regatas e as calças e shorts elásticos, que só evidenciavam a sua diferença com as outras. Não ser loira, magra, ter a roupa do ano, não ter mais de duzentas curtidas, não ter graciosidade, não conseguir tocar na bola de futebol ou de basquete ou de vôlei, não ter amigos, não sair e não se parecer nem 1% com as capas de revistas são motivos mais que insuficientes para o bullying sofrido por nossa personagem, que dia após dia é obrigada a levantar seis horas da manhã e ir dormir as quatro pelo choro que a toma ao cair da noite.
— Olha lá gente, a bola está indo para o gol. — Não era a bola propriamente conhecida e sim Virginia, que já deixando as primeiras lágrimas caírem retornava correndo para o banheiro.
— Gordozilla¹, volta aqui! — Gritava João do banco.
— Maria macho², vamos jogar — Acrescentava Isabelle do outro lado da quadra.
Virginia não era gorda, nem obesa e nem uma Dona Redonda, mas simplesmente era a única não magricela de sua classe, não vestia 36 e sequer tinha vontade. Poderia ter uma gordurinha aqui ou ali, mas nada que fizesse ser designada com obesidade avançada, mas isso não impedia os colegas de a atazanarem com xingamentos que de longe eram bons, apelidos como orca assassina, botijão, caixa de gordura eram somados aos preconceituosos devido ao seu estilo de roupa, que não eram tão femininos como a sociedade determina.
Uma brincadeira só é uma brincadeira quando todos estão compartilhando de uma alegria em comum, quando não acontece desta forma ter-se-á outro nome. Este é o pensamento de Virginia, que fatigada das repreensões do mundo não o acha mais bonito como quanto achava. A adolescência lhe trouxe arroubos ruins, a mudança de corpo veio junto a diversos apelidos de que ela não gostava e reclamar não adiantava, falar com os pais não tinha efeito e muito menos com os causadores, que só descobriam novos a cada semana. Sua mãe também não ajudava, sempre tinha pedras na mão, criticava sua maneira de sentar, de se vestir, de falar, de comer, de se comportar e nos últimos meses vinha divagando as transformações da idade, de como as gorduras aumentavam com os potes de sorvete ingeridos e os lanches fora de hora. O pai, mesmo tentando, não conseguia tirar a dor crescente de seu coração, mesmo com um cafuné nos domingos ou os abraços depois do trabalho.
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A morte barafustada
Short Story''A morte não é um fruto proibido mordido por tentação, é degustada por temerosas almas e acalentada como uma mãe ninando ao filho.'' O Parque Nacional de São Joaquim, em Santa Catarina, é a arena da existência de algumas mulheres. Talvez se pareçam...
