Um passarinho na mão de uma criança. Indefeso; frágil. A criança o admira bem de perto por alguns segundos. Então, ela o aperta com a mão direita. E com a esquerda, ela torce seu pescoço...
CREC
Rafael se dá conta de que está andando. Como se tivesse dormindo e caminhando ao mesmo tempo. Não se recorda da última coisa que tinha feito e nem de como havia parado ali.
Estava fazendo um pouco de frio. Suas mãos pendiam ao lado do corpo. Geladas e úmidas por estarem em contato com o aço da ponte. Ele as coloca no bolso da frente de seu moletom. Sentiu angústia de como se estivesse esquecido algo importante. Ele repara que não reconhece a roupa que estava usando. Mas aquilo não importava.
Nada passou a importar desde que fugiu de sua casa.
Ele estava sentado numa ponte inacabada que passa na Av. Ernesto Geisel. A construção tinha apenas quatro metros de altura e fazia parte de um projeto maior abandonado pela prefeitura. Suas pernas balançavam livremente enquanto alguns veículos passavam por baixo. Alguns buzinando e jogando sinais de luz em sua direção.
Porém, o som de motor de um carro lhe era familiar.
Este veículo parou um pouco atrás de Rafael. Próximo a entrada da ponte. O rapaz continuou de costas para ele sem se importar. Como que se ignorá-lo o fizesse ir embora.
Mas a moça não iria.
Anos antes, naquele mesmo local, eles compartilharam doces e salgados ao pôr do sol. Não foi difícil ela encontrar o rapaz.
Gabriela desce do carro e caminha alguns passos em direção a Rafael. Estava visivelmente transtornada e com os olhos em lágrimas.
- Rafael...
O rapaz de moletom levanta-se e vira-se para encarar sua namorada. Ele olha nos olhos dela e imediatamente seu coração se aperta.
- Você... Ma-tou eles mesmos? - Gabriela pergunta, pondo a mão na boca e finalmente seus olhos transbordaram - Todos eles?
- Não! Eu nunca... - Não soube terminar a frase. Ele desvia o olhar. Olhá-la daquele jeito era insuportavelmente dolorido.
- Então por que fugiu? Por que sumiu?
- Por que eu senti como se tivesse matado eles. Senti como se fosse minha culpa.
- Como sentir culpa, Rafael? Por que alguém...
- POR CAUSA DELE! - A garota salta para trás e engole o grito, encostando-se ao carro - Aquela coisa... Eu não acreditava... Não imaginava que daria certo! Eu estava curioso, mas não pensava que seria assim.
Nesse momento ele a encara. Seus olhos estavam vermelhos por causa das lágrimas. A expressão dela era quase de horror.
- Do que você está falando, amor?
- Você não acreditaria. Ninguém acreditaria. Foi por isso que eu sai correndo para bem longe. Eu talvez esteja correndo perigo. E você mais ainda perto de mim. Então, vá embora. Nunca...
- Não! Eu não irei até que você me explique.
- Mas você não acreditaria.
- Eu irei. E se for possível, irei provar que você é inocente.
Sentindo-se derrotado, Rafael deixa os ombros cair num suspiro. Ele demora alguns segundos para colocar os pensamentos em ordem. Caminha em direção à namorada, saindo da ponte. Então ele começa a falar.
"Um dia, eu estava no computador olhando o Facebook à noite quando eu visualizei um post que mostrava como invocar uma espécie de demônio dentro do armário"
Gabriela ri. Ela já havia desencostado do carro e estava próxima ao namorado nesse momento. Rafael lança olhar sério para ela, que reprime a vontade de rir rapidamente.
- Essa foi quase a reação que eu tive naquela noite.
- Desculpe. Foi uma vontade idiota. Continue.
"Depois de lê-lo, eu fiquei cético, é óbvio, mas com o tempo, eu comecei a acreditar nele. Comecei a ter um pouco de medo também. E decidi que a única maneira de parar de ter medo era tentando, para ver se era verdade ou não."
- Você tentou?
- Sim.
- E como é?
- Você tem de esperar todo o ambiente ficar escuro, entrar no seu armário com um fósforo e permanecer lá por dois minutos. Então você diz "Escuridão. Mostre-me a luz ou jogue-me nas trevas".
A expressão de Gabriela passou de confortável para séria quase que de imediato.
- E deu certo ? Gabi disse. Não soou como uma pergunta.
- Deu...
- E aí...?
"Quando proferi as palavras, quase que de imediato eu escutei sussurros. Poderia parecer loucura, mas acho que era minha própria voz dizendo coisas do tipo 'agora não tem volta, você fez algo muito errado, criança'. Então eu acendi o fósforo. As vozes pararam e eu sai rapidamente do guarda-roupa."
"A postagem dizia que era para eu fechar a porta quando sair. Mas eu estava tão apavorado que havia me esquecido. Quando eu me virei para fechá-la, eu o vi. Era como se fosse a própria escuridão. Como se as sombras fossem ele. Seu corpo tinha um formato humano. Mas sua boca estava num sorriso tão aberto, que parecia não ter lábios. Seus olhos brilhavam na escuridão. E ele ficava me encarando."
"O palito de fósforo parecia não o iluminar. Eu tentei gritar... Só um som rouco saia de minha boca. Não conseguia correr. Estava completamente travado. Então a criatura saiu do guarda-roupa, primeiro como se tivesse saído do chão. Depois andando naturalmente. Nesse momento, o palito atingiu meu dedo e se apagou."
"Eu gritei. Gritei como todas as forças e corri para a porta. Quando a abri, meus pais já estavam no outro cômodo correndo para meu quarto."
- O QUE FOI?! - disse o pai de Rafael.
Sua mãe e irmã estavam logo atrás.
- TE-EEEM ALGO NO QUARTO! - disse Rafael.
Seu pai, após passar o filho, caminhou lentamente em direção quarto. Estava tudo escuro. Nenhuma luz fora acesa. Ele bate a mão ao lado da coxa. Um sinal de indignação que quase sempre fazia.
- Não vejo nada...
Mas Rafael via. Estava sem seus óculos, mas o via nitidamente. No canto do quarto sussurrando algo. Gesticulando com a boca. O rapaz apenas ficou de boca aberta e com as pernas trêmulas. O pai pareceu ver isso e então, acendeu a luz. Imediatamente a criatura sumiu.
- Viu...? Não tem nada.
- Você deve ter tido um pesadelo, Rafinha? - disse sua mãe passando a mão em sua cabeça - Volte a dormir.
- Você já passou da idade de se cagar por pesadelos, idiota - zombou sua irmã, dirigindo-se para seu quarto. Seus pais foram logo atrás.
Rafael entrou no quarto. Analisou cada pedaço dele, incluindo armário e as gavetas. Realmente parecia não haver nada. Mas, mesmo assim, ele fechou a porta e deitou na cama de luz acesa.
Talvez ele não dormisse naquela noite.
- E o que aconteceu?
- Eu dormi. E tive um sonho que se repetiu algumas vezes desde então.
Gabriela não disse nada. Estava a menos de um metro do rapaz.
- No sonho, vejo uma criança, mas não vejo o rosto dela. Ela está segurando um pássaro. Ela trás o pássaro para bem perto. Por um segundo, parece que irá acariciá-lo, mas então, ela torce seu pescoço e eu escuto um "CREC" terrívelmente desconfortável antes de acordar.
- Você sonho com isso aquela noite?
- Sim, e acordei logo em seguida.
"A primeira coisa que percebi, era que a luz havia se apagado. Achei que fosse minha mãe que fez aquilo. Então eu levantei e a acendi."
"Quando olho para meu quarto, vejo na mesa do computador ao lado do meu óculos, uma faca bem grande. Eu ponho meus óculos e a observo. Não tinha sangue nela. Nenhum respingo."
"Saí do meu quarto e, mesmo de luz apagada, vejo que a porta do quarto de minha irmã estava aberta. Quando eu entro eu já notei que a garganta dela..."
Nesse momento ele se ajoelha no chão e começa a chorar compulsivamente. Gabriela se ajoelha também e o abraça.
- Está tudo bem...
- Não esta, Gabi...
- Você disse que não fez nada!
- Mas a culpa é minha. Tenho certeza de que, o que eu fiz, matou todos eles. Meu pai. Minha mãe, irmã, cachorro, todos!
- Vamos para minha casa, lá contamos o que aconteceu e talvez fique tudo bem.
Os dois se levantam. Imediatamente, Rafael para de chorar. Ele estremece um pouco.
Criança...
Pássaro...
Amassar...
Quebrar o pescoço...
CREC
Rafael se dá conta que estava andando novamente. E como da última vez, sentiu como se tivesse esquecendo-se de algo. A garoa já havia passado.
Mas nada disso importava.
Ele nota que havia uma faca em sua mão. Ele a aproxima do rosto e a aperta bem forte, reconhecendo que era a mesma faca que havia deixado em sua casa no dia em que ele havia saído.
Ele olha para trás e vê o carro de sua namorada, agora desligado. E Gabriela estendida no chão.
- GABRIELA!
Ele corre em direção sua namorada, ainda com a faca em mãos. Quando chega perto, ele a vê ainda respirando. Seus olhos em lágrimas. Quando ela o vê, sorri da melhor maneira o possível.
- Quem...? O quê...?!
Ela põe uma mão em seu rosto. Ele a ajuda segurando sua mãe e com a outra, já sem a faca, pousa a mão no rosto dela.
- Rafael... Era vo... - E soltou seu último suspiro.
O rapaz sentia um misto de confusão e ódio. Não conseguia nem mesmo chorar. Não entendia as últimas palavras de sua namorada. Procurava na escuridão por aquele assustador sorriso. Mas não o via. Ele apanha a faca mais uma vez e olha para seu reflexo na lâmina.
Rafael começa a ter visões, talvez lembranças de coisas que ele nunca fez passarem rápido pela sua cabeça.
Mas as que ele mais conseguiu focar eram a de que, naquela noite, ele não havia feito nem um ritual. Ele tinha visto a postagem e tinha ido dormir. Em seguida, ele havia acordado e matado toda sua família.
A outra visão, mais nítida ainda, tinha acabado de ocorrer.
Os dois se levantam, o rapaz limpa as lágrimas e diz:
- Infelizmente, eu não posso - Sua voz era natural e calma. Terrivelmente calam aos ouvidos de Gabriela.
No mesmo instante, ela sente uma pontada gelada na barriga. Algo quente escorrendo para calça. Quando a lâmina é retirada, ela sente a dor. Gabriela iria gritar, mas outro golpe o atinge no peito, sufocando-a.
Gabriela olha para o rosto de Rafael. Ele estava olhando para longe. Como se estivesse fazendo algo natural e simples de mais para precisar de atenção.
A lâmina volta mais uma vez e a jovem despenca no chão. Ela vê os pés de Rafael se virarem. Ela estica a mão e agarra seu calcanhar. O Rapaz chuta sua mão e continua andando tranquilamente para algum lugar que só ele sabia.
Rafael começa a chorar e soluçar compulsivamente. O choque de perceber que ele havia feito tudo aquilo foi o suficiente para ele tomar uma decisão desesperadora.
Rafael encosta a lâmina da faca em sua garganta e a desliza rapidamente. Inicialmente, não ocorreu nada. Somente silêncio. Alguns segundos depois, o sangue começou a cobrir seu moletom e o corpo de sua namorada. Ele larga a faca e a põe em seu colo beijando a na boca.
A última visão que teve, era de uma criança com um passarinho na mão. Após ter quebrado o pescoço dele, um velho para ao lado dele e fala: agora não tem volta, você fez algo muito errado, criança.
E Rafael pôde ver que era ele mesmo que segurava o pássaro. Mas os olhos eram da criatura que esteve em seu quarto.
No amanhecer do dia seguinte, a polícia já havia concluído parcialmente o inquérito em que dizia que houve um homicídio quádruplo seguido de suicídio. O assassino possivelmente matou outros dois jovens com a mesma arma dos homicídios anteriores. Os peritos encontraram o casal com os lábios selados por sangue coagulado.
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Crec
Mystery / ThrillerTudo foi culpa de um ritual? Ou será que isso não passa de uma desculpa para Rafael ter matado toda sua familia...
