Capítulo Primeiro

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Em uma conversa com um dos meus grandes amigos surgiu um tema deveras curioso, a sensação de acordar totalmente encharcado, seja ele em suores frios ou por mão de alguém travesso; e realmente a sensação é totalmente indescritível o desconforto provocado não apenas pelos frio mas também pelo peso que as roupas, os cabelos e até mesmo a própria pele aplicam sobre o colchão, tudo isto com um misto de impotência, para como se vai resolver tal coisa, e a confusão de como tal coisa aconteceu.

Enquanto eu expressava esta minha opinião que julgo ser bastante comum a quem já vivenciou tal infortúnio as expressões de meu amigo pouco ou nada se alteraram; Edgar é um psiquiatra e geralmente o seu ar é de quem compreende perfeitamente tudo a seu redor e parece sempre ser capaz, se bem o entender, de ler os pensamentos de qualquer um através do olhar.

No entanto conheço Edgar desde os tempos de colégio e sei bem que por de traz do seu ar profissional, muitas vezes confundido com arrogância, esta sempre escondido o jovem entusiasta, que perde horas, dias e ate mesmo meses a estudar pequenas coisas da vida quotidiana que o intrigam o suficiente para tal; e assim que ele levantou o olhar por sima dos óculos retangulares, percebi de imediato que estava prestes a ser o recetor da mais recente das suas inquietações:

- O meu caro amigo recorda-se de eu lhe ter falado da viagem que fiz á uns tempos pelo Atlântico com destino á América do norte?!

- Perfeitamente. - Respondi ao mesmo tempo que acenava afirmativamente com a cabeça, o olhar intenso de Edgar passava através do meu corpo sem qualquer tipo de dificuldade, como se eu ali não estivesse; era comum quando este falava de algo como que a relembrar:

- E lembra-se também, certamente de um pequeno incidente ocorrido perto da costa norte-americana!?

- O náufrago?

- Exatamente, o Dominic! Enquanto eu ouvia o meu amigo a descrever as sensações de acordar encharcado não pude esquecer as visões que tive quando um grupo de marinheiros ajudou a tirar o homem ensopado ate aos ossos das águas geladas do oceano. Rapidamente lhe foi providenciado pelo capitão, roupas secas, bebidas quentes e um dos melhores quartos da embarcação, e claro como psicólogo coube-me a mim fazer uma espécie de consulta a fim de analisar o que tinha levado a este acontecimento.

Não demorou para que Edgar ao falar se "ausentasse" da pequena sala, pelo menos em espirito, e como que por um toque da mágica nos transportasse aos dois até ao barco onde Dominic tinha sido resgatado, apenas pela forma como falava:

- O que lhe estou prestes a contar pode ser considerado um crime! Por violar o sigilo profissional, no entanto considero que uma historia tao maravilhosa como a que me foi contada não pode ficar perdida para sempre na minha memória.

Edgar dirigiu-se a uma pequena escrivaninha coberta de papeis da segunda gaveta do lado direito retirou um envelope amarelado atado por corda e selado com cera quente de uma cor azulada, e de onde se podiam ler as suas iniciais "EP".
Segurei o envelope com as duas mãos e por alguma razão não tirei os olhos de meu amigo, que acenou afirmativamente, como quem da a permissão para o abrir.
No seu interior como era de esperar estava um conjunto de papeis escritos, suponho eu, pelo próprio Dominic:

- Não diga uma palavra até terminar essa leitura, lembre-se meu amigo que a mais incrível das historias pode tornar-se alvo de chacota quando constantemente interrompida por perguntas prematuras.

...

CONTINUA

Encharcado até aos Ossos (Conto Breve)Des histoires addictives. Découvrez maintenant