Incontáveis cacos se espalharam pelo chão após a bandeja de vidro sucumbir. Um homem gordo e de costeleta, mexia nos seus suspensórios e olhava fixamente a cena sem dizer uma palavra. Talhos poderiam ser colecionados nas mãos de Agnes que sangrava lentamente. Seu olhar estava fixado na figura gorda de suspensórios e não escondia o seu medo. Ela abriu a gaveta, e antes mesmo de tirar uma faca enorme, uma mão gorda segurou fortemente o seu braço. Agnes queria gritar, mas sua voz falhou. Não havia nada nem ninguém naquele velho pub insalubre.
Agnes olhou para sua roupa e para seu rosto sentindo que algo acontecera naquela noite. Ela estava encharcada e com um cansaço extremo para quem tinha dormido 12 horas ininterruptas. Levantou-se da cama, olhou o relógio: 7:30 da manhã. Procurou no quarto por objetos que pudessem lhe indicar o que teria acontecido na noite anterior, mas não encontrou nada diferente. Ao contrário, estavam lá a mesma revista fitness aberta na sessão de dietas, o cesto de roupas sujas no canto, seu estojo de maquiagem, sua nécessaire de remédios.
Diante da nebulosidade que ainda tomava conta do seu corpo, caminhou de olhos fechados até o banheiro, realizando mecanicamente toda a rotina matinal. Quando se deu conta do estado em que suas mãos se encontravam, deixou cair um pouco de café fora do coador. Pouco a pouco, um certo inchaço acompanhado de formigamentos estavam lhe surrupiando a sensibilidade táctil. Estava atrasada. Colocou algumas pílulas num pequeno pote, enfiou um par de luvas e um gorro em sua bolsa e num passo apressado foi até a estação Shizuoka.
Poucas almas testemunhavam o fino cobertor de neve que repousava sobre a rua. Agnes estava com roupas pesadas que escondiam suas curvas. Diante do portal de um templo budista, juntou a palma das suas mãos inchadas, talvez para pedir proteção, ou simplesmente para brincar com a neve, uma vez que Agnes não era budista. Com esse gesto de juntar as mãos em frente ao templo, era como se Agnes reafirmasse para si mesma que estava nesse momento no Japão e não nas Filipinas de sua infância.
Na noite anterior, sua cabeça havia sido acometida de uma "tormenta dos infernos" — que era como ela se referia quando tinha enxaqueca — de modo que não pôs os pés no seu trabalho no pub.
YOU ARE READING
Boneca de Neve
General FictionUma estrangeira vivendo no Japão sentindo profunda solidão recorre a alguns remédios para emagrecer. Sonhos, alucinações, memórias difusas e o despertar para uma outra vida. Um conto sobre como lutar contra nossos fantasmas internos.
