Memorável

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Como eu poderia esquecer? Tão longe daqui, naquela tarde quente de verão, onde minha mãe, como todas que se prezem, lutava para que o filho desengonçado saísse por aí e aproveitasse o dia, que em seus olhos parecia salubre. Quente como está em minha memória, me conceitua o modo como eu reclamei pelos dez minutos seguidos.

Pudera, era um adolescente praticamente lânguido e sem a menor vontade de torrar a sola do sapato no asfalto escaldante da estrada para o parque. Mas fui, e se eu soubesse o que encontraria, não teria discutido ao menos a possibilidade de pisar em cacos de vidro com os pés nus.

No começo, nada que eu não tivesse esperado de ruim; o sorvete aumentara 30% e nem se comportava direito na casquinha. Sentado naqueles bancos cheios de panfletos políticos, eu flagrava até os esquilos entrarem nos troncos de árvore. Escolher o sabor de nozes era, certamente, para jovens aventureiros.

Recordo-me de querer muito voltar para casa. Jogar uma partida de qualquer "game online", seguido de sonecas ligadas ao ar-condicionado até às sete da noite. Pensar no plano perfeito era duro quando o som das crianças afoitas se emaranhava na cabeça e não deixava que o prazer de apenas navegar em devaneios viesse.

Saí do assento e fui em direção do que parecia mais colorido e supérfluo ali: um parquinho de diversão? Não era muito a minha cara, mas com certeza era a do mocinho que se localizava de costas na gangorra em nível, tão deplorável quanto eu. O assistia agarrado ao brinquedo e esticando suas pernas, apenas para deixar que a força da gravidade fosse sua companheira e o levasse ao chão.

Eu era um tanto devasso, mas ficar agindo como se não o visse ia para outro patamar que não estava em meus princípios. Engoli a pequena casquinha em minha mão e me sentei no outro lado do brinquedo, ele ainda continuava fitando o chão, mesmo que suspenso pelo meu peso.

"Olá?"

Juro que não sabia. Se soubesse que apenas em erguer seu rosto meu mundo inteiro iria abaixo, com certeza eu teria ficado quieto. Prendi a respiração, meu coração se assemelhava ao bater das asas de um colibri. Eu ainda lembrava do seu olhar surpreso, e principalmente suas íris.

Eram extraordinárias, pareciam mais flechas de luz, eu não podia sequer tirar minha atenção dele. Meu olhar revezava entre o âmbar como mel que extravagava da sua orbe esquerda e o céu inteiro que se guardava no azulado da direita.

Levantei-me por piedade de seu corpo magro que não conseguia me elevar, logo sentando novamente para vê-lo dar um grito animado enquanto ia aos ares. Eu queria diverti-lo, mesmo com minha feição de tacho que teimava em não me abandonar.

Não conseguia superar, nem ao menos seu sorriso que esbanjava a tranquilidade de alguém ter descobrido sua beleza. Mais uma vez, subiu. Parecia mais solto que quando o encontrei um quarto de hora antes, contudo só foi arriscar uma palavra quando nos encontramos sentados no balanço grande, próximos.

"Obrigado."

Aquilo foi o suficiente para ter diminuído minha maturidade em menos de dez anos valer a pena. E a sua, de nove anos, se esconder num véu de vinte. Era baixo para crianças daquela idade, entretanto só pela maneira que lidava com o mundo se fazia superior.

A verdade era que ele não se encontrava em uma só pessoa. Tinha faces, e sua face ajuizada era a que mais me entristecia, talvez seja o lado laranja-amarelo que denotava as sofridas noites que ele passava por ter que crescer tão rápido. Mas eu entendia, assim como o lado anil que amava ter a alma infantil.

Soube o nome dele, e mais algumas de suas jornadas. Eu comecei a entender o porquê de ele estar sempre solitário nelas, já imaginava que o mesmo grupo de crianças que me perturbaram, surrupiavam a paz dele na sua forma peculiar de existir.

E quer saber? Nunca me senti tão sortudo por achá-lo. Eu queria tê-lo acariciado mais e ter dito que ficaria tudo bem porque não havia motivo de se envergonhar por não aceitar o leque de máscaras que a sociedade propõe para sermos sempre zumbis que facilmente se misturam com os outros.

Eu é que me sentia unânime demais para sua singularidade. Me sorriu, e nunca ia esquecer do abraço que ele me dera, também como nunca ia tirar de minha cabeça a dor que foi vê-lo ir embora. Estava cedo demais, eu suplicava para minha pessoa.

Mas eu sabia, no fundo sabia que sua bicoloridade jamais aceitaria um monocromático como eu. E tinha que me contentar de revisar minha mente no caminho de volta para casa, tornar a repetir suas palavras e às vezes tropeçar nos próprios pés pela distração.

Naquela noite, depois de desligar o ar-condicionado, me senti livre para pensar nele. Injustiça ter me conquistado e me amargurado num mesmo dia. Quero encontrá-lo de novo, deixava escapar. Tinha consciência de que era impossível. Ir no outro dia ao parque? Já teria achado alguém melhor para levantá-lo na gangorra.

Tentei, mas jamais me senti tão errado por estar certo. Lá estava ele com uma outra criança, podiam brincar até se esvaírem em risos. Não podia expressar a agonia de sair do local com o fato de que não poderia mais vê-lo, não mais. Não podia suportar todo o paraíso que era contemplá-lo.

Decidi ir. Foi a pior escolha que eu tive. Passei madrugadas estudando para me tornar entendedor de todos os mistérios que o cercavam, apenas se acomodar na gangorra não era o suficiente.

Passei muitas horas organizando as palavras de todos os livros que publicava, caso algum dia ou em algum momento seus olhos batessem em minhas linhas e as aprovasse com ambas tonalidades.

Arrependo-me arduamente de todas as frases que não foram ditas, de não ter sido sensível o suficiente para suprir a conversa. Ainda há, sim, um fogaréu em minha essência que me faz ter esperança de revê-lo, mas não no parque, que fora destruído.

Hoje, com os cinquenta verões que sustento nas costas, me recordo, perfeitamente, de que aquele foi o mais vivaz para se carregar, porque ele me tirou o enorme fardo de uma promessa de vida ordinária.

𐍈𐍈𐍈𐍈𐍈𐍈𐍈𐍈

Obrigada a quem leu até aqui, minha primeira fic no wattpad, vocês estão ouvindo meus choros?
Espero muito que vocês tenham gostado! Namkook muito fluffy sim e ainda com um Jungkook miúdo um anjo não é mesmo?

(Ei, prestem atenção na capa da fanfic e olhem bem nos olhos do Jungkook que vocês vão ver algo massa)

Contemple-meWhere stories live. Discover now