Capítulo 1: Faíscas azuis

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Os anjos caíram quando nos foi ordenado a não acreditar mais neles? Quando passamos a construir nossos milagres, nosso deus parou de ser um salvador. Luzes artificiais, cabos e eletricidade tomaram o lugar de nossas crenças.

Mas, e quando os anjos caíram, eles sentiram a nossa dor?

Nós ainda nos lembramos o que são os anjos?

Através de uma tela projetada logo a frente de mim, assistia a vídeo chamada do conselheiro da nossa família, explicando a importância de nunca faltar à encontros formais as quais sejamos convidadas. Não dava a mínima para essa baboseira formal. Olhava para a janela do outro lado do banco, prestando atenção na chuva forte que batia no vidro.

Lady? Senhorita? está prestando atenção?

Uma vasta e massante camada de fumaça e podridão cobria a cidade. Ela sempre cobriu a imensa, imunda e infinita megalópole. A cidade que se estendia até o horizonte, alta, massiva, sem fim. Mas era ofuscada pela beleza gigantesca que pairava nos céus. Uma outra cidade brilhante que voava acima dos prédios da metrópole abaixo. Iluminava o negro do céu como uma Grande Estrela, assim era chamada. Ao contrário do resto, ela era bela, lustrada, animada; um belo lugar para se viver. As pessoas se tratavam bem, passeavam nas praças simuladas - perfeitamente simuladas, eu diria. - uma vida tranquila e boa.

Como eu sei tanto sobre ela? Era onde morava.

Bom, pelo menos até aquele dia. 

Fora da Grande Estrela, dias e noites eram muito parecidos, algumas vezes eram indistinguíveis. E naquele dia, a chuva deixava tudo como a noite solitária. Momentos como aquele eram de alegria para as pessoas - que tiveram sua moral distorcida - era o único momento em que as fábricas paravam, e todos iam à Praça Nicolau III, para beber suas raras bebidas ruins, comer suas comidas podres e celebrar a "Purificação" de mais um traidor. Todos alegres e festejantes sob a luz da Grande Estrela.

Aquém das condições moribundas em que todos viviam, era tempo de festa por uma noite, dando-lhes folga de seus trabalhos - escravos - de todo dia. Seria mais uma noite alegre, se o traidor a ser "Purificado" não fosse meu pai.

Depois da Terceira Grande Guerra - em que o Brasil encabeçou uma frente aliada contra os outros dois núcleos - a Rússia anexou a si este bloco no sul do grande país emergente da guerra após a Retaliação. Foi então que um novo Czar fora nomeado, e trouxe com ele as famílias de três nomeados Condes; dentre essas famílias, estava a minha.

O carro negro zunia enquanto saímos da Grande Estrela, declinando para a cidade abaixo. Estava acompanhada de dois seguranças que mantinham silêncio nos bancos de couro à frente. - Irônico aqueles desgraçados me fazerem usar meu vestido favorito para ver meu pai ser assassinado.

Uma tela semi-transparente desceu à minha frente, com uma ligação de minha mãe.

Querida, seja forte. O que seu pai fez, não nos representa.


O carro continuava a descer, até começar a ouvir o povo que ovacionando.

Foi a primeira vez que senti a chuva. Ainda que com uma capa sintética transparente, conseguia sentir o frio da água que caía. Na cidade brilhante não chovia.

Seguimos se esgueirando em meio ao povo. Pessoas sujas, fedendo, e ainda sim eufóricas. Os dois homens me protegiam enquanto tiravam as pessoas da frente sob força e rispidez.

O palco suspenso mantinha uma seleta quantidade de guardas, vestidos em armaduras negras - a elite do Czar - até a multidão comemorar aos berros. Um telão ao fundo acendeu-se, onde a música que dava hino à nação começou a tocar, levando seu público à loucura. Até imagens passarem na tela e recontarem a mesma história que todos já ouvimos - de como a grande Mãe Rússia venceu heroicamente seus inimigos - preludiando a entrada triunfal de seu líder máximo através do telão.

2122: As bruxas não temem a luzStories to obsess over. Discover now