- Pietro, não ouse jogar isso nela. - apontei o dedo para ele tentando intimidá-lo, porém isso, como sempre, não adiantou. O menino de apenas oito anos continuou a correr pelo pátio atrás de sua colega e tinha em mãos uma bola de soprar cheia de água misturada com um pouco de terra. Anna gritou quando teve suas costas atingidas e meus lábios se abriram estupefatos. A freira do orfanato, que também assistia a cena, caminhou até ele e, agarrando em sua orelha, o guiou para dentro do prédio onde haviam os dormitórios e a sala da madre superiora.

Pietro me olhou suplicante e chamou meu nome pedindo por ajuda. Eu poderia fazê-lo se fosse qualquer outra freira prestes a levá-lo para o castigo, mas era a freira Fry, mais rigorosa que a diretora do orfanato, e a única que não admitia interferência em seus modos de agir e educar aos pimpolhos do lar.

Anna recusou o auxílio da outra voluntária e correu para mim. Ela chorava alto e suas bochechas, geralmente pálidas, estavam úmidas e coradas. Recuei um passo quando ela praticamente pulou em mim e seus pequenos braços se prenderam ao meu redor.

- Ele me molhou, mamma! - resmungou e agachei a sua frente, após desprender suas mãos da minha calça.

- Eu sei, eu vi. Mas foi apenas uma brincadeira. Você também arremessou nele, não foi?

Ela balançou sua cabeça e me fitou com seus olhos verdes e que brilhavam em contraste com as lágrimas.

- Pois é. Ele apenas reagiu a você.

- Mas eu não o acertei e sou pequenina. - ela disse enquanto esfregava o pulso nos olhos, agora apenas choramingando, e sorri pela esperteza em seu argumento.

- Então, já que sabe que é menor e não aguentará essa ou qualquer outra brincadeira com ele, é melhor ficar de fora da próxima vez, entendeu?

- Sim, mamma.

Levantei e estendi minha mão para ela.

- Vamos limpar você.

Fui para o interior do edifício com ela ao meu lado e caminhei pelos corredores até o banheiro feminino. Dei-lhe banho e depois a levei para o quarto das meninas. Troquei suas vestes e sequei com delicadeza seus fios curtos e lisos antes de penteá-los.

- Tia Clarice, quando será minha mamma de verdade?

Levantei meu olhar para o único espelho presente no ambiente e encontrei o olhar esperançoso e inocente de Anna. Ela havia sido abandonada no orfanato pela própria mãe, que era uma prostituta drogada, quando possuía apenas três anos e sete meses de idade. Muitos casais até chegaram a mostrar interesse em adotá-la, mas desistiam em seguida quando viam a possibilidade de poder adotar uma criança mais nova ou até mesmo um recém-nascido.

Por mais jovens que fossem, os órfãos sempre percebiam quando o seu tempo de ser reintegrado a uma família estava chegando ao fim, pois notavam muitos colegas de mesma ou mais elevada idade serem rejeitados e ignorados pelas pessoas que aqui visitavam. E Anna não era diferente dos outros, ela no fundo sabia que quanto mais crescia menos seriam as chances de sair daqui sendo parte de uma estruturada família.

Desde que cuidei dela primeira vez, talvez por me achar parecida com sua mãe biológica ou pelo fato de sempre lhe fazer companhia, ela me chamara de 'mamma'. E toda vez que seus olhos sonhadores se prendiam aos meus e de seus lábios essa diminuta e tão significativa palavra era pronunciada, parte do meu coração morria um pouco por saber que não teria condições de realizar seu desejo, e por me frustrar ao ter certeza de que essa vontade de tê-la como membro da família também era a minha.

- Querida, nós já tivemos essa conversa antes.

Ela baixou o olhar para suas mãos e minha garganta se apertou quando vi seu lábio inferior começar a tremer. Movimentei-me para seus pés e fiquei de joelhos à frente da cadeira onde ela estava sentada. Toquei-lhe o queixo e o ergui.

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