It always gets late with you

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Carol tentou pensar o que fez de errado para assustar tanto aquela garota. Não foi o sexo, isso tenho certeza. Será que fui rude, passei dos limites dela? Mas sequer encostei, ou vi algo demais. Se remoeu por cada atitude, cada palavra. Pensou sobre o que falou na mesa. Devia ter deixado que pagasse o jantar também. Pensando bem, não. Era caro demais. Nunca havia acontecido algo desse tipo, e aquilo a deixava ainda mais chateada. Não podia perde-la, não aquela. Já vinha perdendo coisas demais, e agora Therese? Que merda de vida era aquela? Não merecia aquilo, até onde sabia. Nem foi para casa. Sua antiga amiga Abby era seu ponto de força, seu braço direito. A única pessoa com quem ela queria falar agora, nessa madrugada fria e solitária.

Therese chegou com uma crise de ansiedade séria. Laura acordou ao ouvi-la vomitar e chorar. Se preocupou, fez muitas perguntas. Therese mal respondeu. Laura abriu o chuveiro e enquanto esperava a agua esquentar, ajudou a amiga a tirar a bota. Trouxe um copo de agua, e um remédio. "Mas eu bebi." Agora não fazia diferença, estava tudo no vaso sanitário. Perguntou se a amiga tinha algum compromisso amanhã de manhã e nas primeiras horas da tarde. Therese fez que não com a cabeça. Falou repetidamente que era estúpida. Laura fez com que tomasse banho sentada, tentando acalma-la. No final do banho, estava melhor, e sonolenta. Vestiu uma blusa de frio enorme, e deitou em sua cama. As lágrimas paravam de escorrer a medida que Laura a distraia. Delicadamente, perguntou se alguém havia feito algo com ela, já que havia chegado com um casado, apenas. "Nossa, não. É coisa minha, deve ser bobeira. Amanhã estarei bem, amiga." Laura concordou, e disse que viria checar como ela estava durante a noite. Minutos após, adormeceram. Therese acordou dopada ao longo da madrugada. Três vezes, uma pior que a outra. Só conseguia lembrar de  Carol, do que sentia por ela, do que sabia dela. Tinha convicção de que não a veria mais. Mesmo que visse, seria a pedido de Therese, já que Carol claramente não sentia nada por ela, além de atração. Era assim, sempre seria. Therese não via uma saída para aquele padrão horroroso na sua vida amorosa. Sentiu que estava preparada para levantar, e o fez sem pressa. Sua cabeça estava pesada por causa do remédio, mas agora não estava mais passando mal. Laura havia deixado um bilhete na mesa. Teve que sair. Não fez nada além de comer qualquer coisa e assistir televisão. Tentou se distrair em casa, mas não aguentou. Pegou sua bolsa, encheu-a. Pegou o caminho mais longo para a casa de Stella. Não ligou avisando para não ter que pegar em seu celular. Sabia que não teria uma mensagem ou qualquer coisa de Carol, mas não podia ter a comprovação em mãos. Seria demais. Tocou a campainha, Stella abriu a porta. Foi para o lado de fora, onde Therese estava. "Você está mal. O que houve? Ou você também não pode me falar isso." Prometeu a Stella que falaria o mais rápido possível, mas não agora. Stella ficou furiosa, cansada de ouvir aquilo.
- Você nunca foi assim, nunca me escondeu nada. E agora parece que não somos mais tão amigas! É injusto, Therese. Eu te falo tudo... E faço muitas coisas. - Stella gesticulava e mexia a cabeça. Os cabelos castanhos com pontas loiras balançavam também.
- Eu conheci uma pessoa, eu sai com ela. Agora, por favor, me distraia. Eu não tenho condições de fala agora. Me perdoa, amiga?
Um abraço de reconciliação e entraram. As outras meninas que moravam com Stella estavam lá, tomando cerveja e comendo pizza. Therese comeu, mas não aceitou a bebida. Conversa universitária era sempre interessante, cheia de sexo, festas, palavrões. Therese se esforçou para se alienar do que estava lhe causando mal, e acabou conseguindo. Mais tarde, ligaram uma música. A festa era dali algumas horas, mas elas gostavam de se arrumar com antecedência. Therese não tinha essa necessidade, porém. Continuou sentada no sofá da sala, assistindo televisão, enrolada em um coberta. A casa de Stella era grande, cheia de decoração. Ela morava com mais quatro meninas, e eram bem ligadas. As vezes discutiam, quase batiam uma na outra, mas era normal. Paredes lilás, papel de parede, tapete. Os quadros com fotos delas e de outras meninas que moraram ali antes. A personalidade delas eram um pouco parecida. Eram agitadas, gostavam da vida boemia. Therese estava visivelmente incomodada, e as meninas tentaram alegrá-la superficialmente. A insistência não adiantou. Stella surgiu na sala um chocolate quente com muito chantilly, marshmallow, e o principal: um sorriso amigável no rosto. Therese retribuiu a gentileza, agradecendo e tomando a bebida.
- Por que você sempre suja a boca, Terry? É engraçado! Olha esse bigode. Limpa isso - Stella ria suavemente.
Therese o fez, olhando para o chão. Olhou para a caneca, suspirou.
- Eu sou sortuda de ter você. Te amo, sabia?
As amigas se abraçaram forte. Construíram uma amizade solida nesses últimos anos. Se conheceram logo quando Therese chegou cidade, totalmente despreparada, sozinha. Therese morou alguns meses no campus da faculdade. Não foi uma boa ideia. Era perigoso em todas as formas, e dividir um quarto pequeno com qualquer pessoa era quase tortura para ela. Sua casa e seu quarto em sua cidade eram tão confortáveis... Saiu do campus e ficou um tempo na casa de Stella, o que foi bem melhor. Sua vida estava extremamente complicada, e Therese encontrou a ajuda que precisava. Ajudava no aluguel, mas muito menos do que as outras meninas, que entraram em consenso de acolhe-la. As coisas se acalmaram, e Laura lhe foi apresentada. A vida deixou de ser fácil para Therese em uma época que a maioria das pessoas da idade dela diria o contrario. De uma forma, ganhou muito. Amadureceu, cresceu como ser humano, descobriu sobre o mundo e sobre ela mesma. Falar disso era algo raro, e só suas amigas e amigos mais íntimos sabiam de tudo. Uma garota que morava com Stella a chamou no seu quarto, que estava uma bagunça animada. Pegou-a pela mão e mostrou 5 comprimidos coloridos e com formatos diversos.
Deixou que escolhesse um daqueles comprimidos que faziam as pessoas dançarem e sorrirem por algumas horas consecutivas.
- Você sabe que nunca tomo muito. E hoje não, gatinha. Estou... Sei lá, melhor não. - Therese declinou.
- Você sempre fala isso. Só não fique com sono, pedindo para ir embora.
- Não vou. Dormi muito hoje. - Therese deu um passo para trás e voltou logo depois. - Me chame quando estiver pronto. Quem sabe.
Ecstasy. Não era algo frequente, e nunca abusava. Todas naquela casa usavam algo. De álcool a LSD. Mas em quantidades mínimas, caso contrario, as próprias amigas recriminariam. Therese tomou um banho demorado e quente na banheira, enquanto conversava com sua amiga. Falaram sobre Richard, que ofereceu ingressos na area vip premium. Era tão ele. Não eram amigos, mas sempre se encontravam as festas e conversavam. Alias, não tinha certeza se não eram mesmo amigos. Do que Therese tinha certeza na vida? Ah, não. Não pense nisso. Saiu do banho e ficou se olhando no espelho. Therese conseguia ver as coisas, as pessoas. Ela não era como a maioria das pessoas que só enxergava, e isso era algo para se olhar. Mas agora, ela só enxergava sua imagem, ver seria perigoso. Esvaziar a mente era o objetivo ali. Se moveu para o quarto, onde pegou o secador de cabelo. Uma garota passou entrou no cômodo para pegar algo e elogiou a tatuagem de Therese. "Obrigada. É um olho de Orus." Era um tatuagem pequena, do lado direito do ombro. Ela mesma só conseguia ver com espelho, Gostava de tatuagens pequenas, que só seriam vistas caso ela quisesse. Stella sugeriu mil coisas para usarem hoje. Therese queria fazer cachos no cabelo, e rapidamente fizeram para ela. Usou a calça preta que trouxe em sua bolsa, uma bota quente, uma blusa decotada e um casaco pesado. O clima era hostil, assim como a maioria das coisas nessa vida. Therese era tratada como boneca, e gostava do carinho. As vezes estava estressada e sequer penteava o cabelo. Foi até a cozinha pouco antes de sairem, e ao abrir a geladeira achou duas garrafas com agua colorida. Onde o Ecstasy estava diluído. Pegou algo para comer, sentou-se na bancada. Ficar ali sozinha, ouvindo os ruídos de suas amigas, pensando no que deveria fazer a respeito de... Carol. Tomaria essa decisão amanha, quando pegasse em celular. Por enquanto, não queria estragar a noite. Deu alguns goles na agua roxa.

DearestWhere stories live. Discover now