Manto de nós

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Acordei com uma ideia fixa na mente, agarrada feito algodão em ferida.

Abri os olhos, coloquei os pés no chão e caminhei lentamente até a janela. Puxei a cortina e espiei o mundo lá fora. Não gostei. Soltei a cortina enquanto me permitia um bocejo cansado e fui até o banheiro. Olheiras. Estou feio. Bolsas de escuridão caem sob meus olhos. Mas através delas, com certa delonga, identifiquei-me no espelho mirando meu rosto surrado, sem viço. Muitas cicatrizes, inúmeras marcas disformes, mas todas elas escondidas por trás da pele. Na alma. Cicatrizes que a vida me deu, de bom grado, sim, como um agrado. Um símbolo da minha conquista, um troféu para marcar cada momento difícil, cada lágrima dolorida, cada palavra envenenada que recebi e que ofereci. Cicatrizes que só eu conheço, embora muitas, não reconheço. Em cada cicatriz, uma dor. Em cada dor, um nó.

Olhei-me no espelho com grande demora naquela manhã triste onde o dia desabrochou murcho, de tom morno, de sopro cansado. Meus olhos grudados no espelho, meus nós aparentes nos olhos. Naquela manhã, percebi que sou mesmo feito de nós. Muitos nós. Em cada nó, uma dor. Em cada dor, uma cicatriz.

Acordei com uma ideia fixa na mente.

Talvez eu pudesse desatar alguns desses nós, abrir mão desses vínculos, desses restos de aflição.

Abri a torneira e deixei a água encher as mãos em concha. Fechei os olhos, desci o rosto com cuidado e esfreguei-o com desespero. Lavei a pele, mas não pude lavar a alma, porque no caminho estavam as sombras de muitos nódulos de proteção, cascas de consternação.

Levantei o rosto e abri os olhos. Olhei os nós e tentei identificar o mais simples deles, o mais frouxo... Não consegui. Tive pena daqueles pobres nós, tive pena de mim, pobre de mim. Afinal, dei-me conta de que apreciava aqueles nós, aquelas amarras de mim. Eles se formaram meio que sem querer, meio que sem poder, e marcam quem eu sou, quem estou. Sou sim muitos nós. Desejo-os, embora também os odeie em demasia, com um rasgo de agonia.

Mas acordei com uma ideia fixa na cabeça. Os nós... Ou talvez algo mais, não me lembro bem, não me recordo mais.

Mas espere!

Olhando com mais atenção percebi que não sou só nós, sou também muitas cordas, de tipos e espessuras diferentes. Coloridas ou descoloridas. Repetidas, descabidas, cordas de feridas. Cordas traçadas, trançadas, emboladas, abafadas. Em cada fim de corda, claro, um nó. E em cada nó, mais um rastro de corda. Em cada corda comprida, mais peso de nó, mais resto de ferida. Pequenos e grandes vínculos, pactos de sangue com a vida. O miolo da corda que sou, do nó que estou.

Queria ser só corda, asseguro, mas os nós são parte de mim, são restos de mim. O mundo não me reconhece pelas correntes, mas pelos nós. Não posso jogar fora meus próprios restos, pois ficaria órfão de mim mesmo, liso, sem sulcos, sem pista, sem nem mesmo uma tímida mossa. Estaria desamarrado na vida, sem identidade, sem nem sequer um rastro de ferida, sem caminho na minha própria avenida.

Olhei-me novamente no espelho e enxerguei algo mais. Uma sombra. Ou seria a completa escuridão? Sim, sou noite, mas além dela, sou trevas. Sou uma mancha em minhas próprias cordas, em meus próprios sóis. Sou o negrume do meu manto de nós.

Não há jeito, então pensei. Talvez por isso mesmo o dia tenha nascido tão turvo e diminuto. O dia sabe, claro que sabe, que minha noite é mais comparsa que ele. Havia muito tempo que eu não vivia mais dias. Agora vivia de noites, dono do escuro, algoz da alegria. Fazia nós negros e fabricava cordas de melancolia, laços de apatia.

Mas acordei com uma ideia fixa na cabeça. Nós, cordas e escuridão. Mas sim, é verdade, havia também o dia. Não essa bruma lavada, letárgica e insossa cobrindo-me de mim mesmo. Havia sim, em algum lugar havia, algo chamado dia. Um ponto de alegria. Um sopro de euforia. Onde é que estaria?

Mas não, isso não. Minha dor não queria remissão.

Concentrei-me na escuridão, mas estava cansado de ser nós, cordas e negridão. Estava cansado da solidão, ávido pelo meu próprio perdão.

Ainda havia o espelho...

Levantei a cabeça e encarei minha própria imagem. Mirei meus próprios olhos deveras receosos, um tanto acovardados. Mas eram eles mesmos, aqueles do início, quando tudo era doce, quando tudo estava ao alcance dos sonhos. Eram meus próprios olhos, mas agora eu não tinha mãos. Nem braços, nem traços ou sequer abraços.

Aquela imagem no espelho testemunharia minha total e irremediável limpeza. Já que não consegui por bem desatar meus nós, limpar meu negrume, nem soltar minhas amarras, eu as cortaria e me libertaria desse desatinado eu que havia tão maldosamente me aprisionado no espelho de mim mesmo. Estava cansado de ser a sombra de mim, uma rala nesga de desprezo. Eu não queria mais ver nós, cordas ou lençóis. Não queria mais ver nenhum dia, nem ser alegria.

Estava pronto para abandonar minha desgraça, e assim eu faria.

Adeus, nós! Não lhes quero mais!

Agora desejava ser corte. Afiado, decidido, apressado. Desejava golpear, dividir, decepar.

Peguei a faca pontuda e coloquei-a no pulso. Só me restava partir, abandonar todos aqueles amontoados de escuridão, tecidos com as cordas da incompreensão. Então olhei-me sem ardor, feito pompa de doutor, com certo ar de favor.

Não tive mais tempo. A lâmina apressada fez logo um corte fino, um escorrido insubmisso, um fio em desalinho. Olhei para baixo assustado vendo o vermelho ligeiro tomando a louça descorada da pia, roubando-me também os dedos como testemunha, e descendo arrogante e desdenhoso pelo branco que o recebia.

Mas a sangria me trouxe à razão e, escondido pelo desespero da bruma que camuflava os meus dias, notei pelo reflexo do espelho que lá ao longe aparecia um borrão iluminado, um pouco abobalhado, um tanto disfarçado. Um brilho amordaçado.

Na neblina que cobria os meus dias, percebi o fulgor de algo ao longe. E vi um anjo refletido no espelho, que me sorriu feito criança arredia. Reconheci-o sem covardia, pois era eu mesmo que revivia. Firmei os olhos e tentei enxergar com senhoria, mas logo eu me movia, meio que por covardia, meio que por sabedoria. De certo por puro medo da sangria. Então era assim que eu acabaria?

Afinal, depois de alguns dias, nem mesmo vermelho ainda havia. Nem sombra, nem cordas, nem laços, nem nós. Nada disso existia.

Cortei o pulso, confesso. Mas creia quando digo que queria cortar somente os amontoados de dor que me endureciam. Queria amputar os nodos mais duros, os que me deixaram inflexível, os que amarraram minha esperança, os que acabaram com a minha bonança. Na enxurrada do desalento, esfolei-me, acabei-me e afoguei-me no sangue da minha própria lança.

A torrente ralou-me alguns nós, levou-me alguns laços, desfez-me alguns traços. Sobrevivi. E despertei nu na margem do rio da minha própria borrasca.

Novamente acordei com uma ideia fixa na cabeça. Não sabia se conseguiria, se me acovardaria, se me abandonaria.

Na verdade o que eu queria, era ser quem eu podia. 

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