Mais um dia de trabalho concluído. A noite caiu escura e chuvosa na Estrada do Tinteiro. Raul caminhava com dificuldade pelos buracos no asfalto até a sua casa. O guarda-chuva não o estava ajudando muito.
_ Pra quê que eu fui comprar essa merda na Uruguaiana... - resmungava enquanto lutava contra o vento e a água entrando nos sapatos.
Em poucos minutos ele estava em casa. Para seu desagrado, tudo estava apagado e um silêncio triste pairava no ar. Pôs seu guarda-chuva num canto ao lado da porta e caminhou lentamente até o cômodo mais próximo, a cozinha. Acendeu a luz e verificou o fogão. A comida estava fria. Isso o deixou chateado. Será que sua mulher havia dormido antes de esquentar a janta? E seus filhos, será que tinham jantado? Talvez o tempo estivesse tão frio que acabou esfriando as panelas.
Um som estranho o fez atentar para a sala. Tudo estava muito quieto, e nem os sons dos outros dormindo ele podia ouvir. Ligou então as luzes da sala para enxergar o que causou o barulho. Raul jamais esqueceria o que viu naquela noite chuvosa. Seu coração parecia brasa no peito e o ar resolveu não voltar aos pulmões. Sentiu o corpo pesar e nem se deu conta de estar caído, sentado de frente para a cena perturbadora.
As partes dos corpos estavam todas embaralhadas. Ele podia reconhecer o rosto da filha e da mulher, mas o do filho estava um desastre. Quem faria tamanha atrocidade com uma família como a dele? Sempre foram honestos e nunca se envolveram com criminosos. A última mudança foi justamente por conta de uns vizinhos traficantes... Mas quem... Quem seria tão doente e frio para agir assim? O choro tomou conta de Raul. Ele correu até o corpo da mulher, ou, o que deveria ser seu corpo, e o abraçou, trêmulo. Ele chorava e chorava e logo passou a gritar. Gritava por socorro, por ajuda, por um milagre... Mas o ruído da chuva abafava sua súplica.
Então sua voz se extinguiu. Ele gritou mais alto, confuso, mas nem um som saiu de sua boca. Uma figura medonha se aproximou pelo escuro. Uma mulher. Cabelos longos, negros. Os olhos... Vazios como o vácuo do universo. Não havia nada, só escuridão.
_ Quem... O que... - Raul tentou dizer.
Sua voz não existia mais.
_ Eu nunca encontro um que mereça viver, Marcus. - disse a mulher. Sua voz era suave, doce. Um contraste assustador.
_ Mas você não devia procurar por isso. - respondeu um rapaz, aproximando-se.
Ela o fitou furiosa.
_ Não me diga o que devo ou não fazer, Marcus. Você ainda é uma criança perto do meu poder.
Ela voltou seu olhar para Raul. Ele estava muito confuso e assustado.
_ Termine aqui e vá cumprir sua cota pra hoje. - ela disse, por fim, desmanchando-se numa névoa escura. - E faça isso bem longe de mim.
_ Sim, senhora. - respondeu o rapaz, sorrindo.
Com a saída da mulher, todas as luzes acesas começaram a desvanecer. Raul entendeu o que viria após e abraçou com força o corpo da mulher. Ele apertou os olhos e pressionou o rosto contra o da esposa.
_ Hebe tem razão. - disse o rapaz levantando a mão - Nenhum de vocês merece nossa dádiva...
Com um movimento rápido, todas as luzes se apagaram.
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ESTRADA DO TINTEIRO
AdventureEste livro narra a trajetória de Camila, uma jovem alcoólatra, em sua vingança pela morte de sua melhor amiga. Sem mencionar os eventos que a fazem apaixonar-se pelo assassino. Cheio de fantasia e uma nova mitologia icônica. O cenário...
