Capítulo 1 - Amarillo

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Eram seis da manhã. O relógio fez o barulho de sempre. Levantei da poeira negra e tossi. Ao meu redor, as torres se erguiam, a minha frente a primeira era negra, com heras se agarrando como garras nas laterais até chegarem ao topo, onde começou a brilhar uma esfera da cor de sangue, escarlate berrante, iluminando a escuridão cinzenta. Ao meu lado direito, uma torre ligeiramente diferente, no topo brilhava outra esfera, verde como esmeralda, pulsante. Um ganido de pássaro me fez olhar para trás, onde a terceira torre se erguia, brilhando na ponta da cor violeta, nada se comparava, nela havia pássaros rondando. Voltei a olhar a primeira, para frente, estava caindo, caindo, caindo.

-Cris! - gritou a irmã dela.

A menina despertou, ofegante e suada, o lençol estava enrolado em seu corpo, como se ela tivesse girado com ele na cama. Cristina sentou na cama e coçou os olhos, piscando-os várias vezes até eles se ajustarem à luz do quartinho. Os sinos da janela circulante tilintavam feito doidos, mesmo sem nenhuma brisa aparente.

-Seis horas? - perguntou Cristina a Cássia.

-Seis e três. - respondeu.

Cássia era a única irmã. A primeira filha do casal Daluz. Maria Daluz tinha seis filhos homens, um natimorto, dois mortos dias após de nascer e os outros três morreram de doenças, ainda tão jovens quanto os mais velhos. Cássia era adotada, os pais dela moravam na casa da frente. Morreram. Tinha dois meses quando aconteceu. Josué Daluz a adotou pouco antes de Cristina nascer.

As duas dividiam o quartinho da casa. Eram uma família unida numa casinha pequena nos arredores de Vila Pacífica. Católicos e adeptos a vida antiga, vivendo com os costumes e tradições.

Cristina levantou, fez sua higiene matinal, colocou a roupa da escola/igreja e começou a trançar o cabelo na frente do espelho. Seu corpo era magro, branco e sem marcas. O cabelo negro e liso, sem brilho, sem vida. Seu rosto não tinha nada de especial, seu nariz era reto e fino, suas bochechas modeladas aos ossos e os olhos cinzentos, sem cor ou emoção. Na clavícula trazia um crucifixo de madeira e no centro dele a palavra "Henri".

Caminhou até a cozinha, se uniu para a prece matinal, recitou um cântico e foi falar com os adultos. Um beijo no pai e um pedido de bênção. Um beijo na mãe e um pedido de bênção. Um beijo na avó, um pedido de bênção e um comentário estranho.

-Amarillo lhe aguarda, Cristina, querida. Ele vem, obedece e mata. - a idosa sorriu, ainda com as mãos trêmulas segurando as da neta.

-Amarillo está morto, vovó. - Cristina sorriu empática.

Dona Jesuita não respondeu, sorriu e assentiu. Dispensando a neta para o café da manhã.

No caminho para a Paróquia São Sebastião, a quinta igreja na vila, mas a mais importante, Cristina contou ao amigo, Jessé, o que a avó disse antes do café. A reação dele foi de espanto, lógico.

-Amarillo não é aquele cão que fugiu e morreu pisoteado?

-Sim. - a menina respondeu -Este mesmo. Vai fazer um ano amanhã.

-Logo no dia da Procissão de São Sebastião? Que azar deste cãozinho, srta. Daluz.

-Nem me fale. - Cristina olhou para a Paróquia se erguendo diante de si, uma construção antiga, feita de tijolos de barro e pintada precariamente de branco e com detalhes azul, com apenas uma torre com uma cruz. - Vou sair às Dezesseis horas hoje, Sr. Bendito.

-Aula de etiquetas com marido e cuidado com filhos? - perguntou o menino sorrindo.

Suspirando, a menina assentiu. Apenas o pensamento de que completaria quinze anos em breve já lhe dava um desconforto, uma fúria.

-Até amanhã. - disse a menina, meneando a cabeça.

-Na paz do senhor. - O menino fez o sinal da cruz quando chegaram na frente da Paróquia.

Ela parou, cada pé um ao lado do outro e as mãos entrelaçadas na altura do útero, onde ela sabia que era o útero, coisa que noventa por cento dos moradores da Vila não sabia. Cristina suspirou, sentindo o cheiro da terra seca, das árvores chacoalhando e o enxofre, o bem-vindo cheiro que a acompanha desde sempre. Havia algo perturbadamente certo naquele ato, parar e sentir. Ela fez aquilo a primeira vez havia seis anos, quando seu avô morreu agonizando a sua frente e ela sentiu algo semelhante a felicidade.

-Senhorita Daluz! - gritou a irmã Conceição com a vara estalando - Pare de ficar bestando e entre já.

Aquela fúria voltou, ela sentiu a vontade de matar, ver sangue e ouvir os gritos daquela mulher hipócrita ao morrer sendo torturada. Com um susto, Cristina se recompôs. Disse para si mesma e para seu Senhor "Perdoe-me, Deus. Isso não é certo."

Com a sanidade recuperada, fez o gesto da cruz e entrou na paróquia.

A Herdeira de Ayill - Conto InacabadoHistorias para obsesionarse. Descúbrelo ahora