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Caminho pela orla tentando achar o centro antigo da minha nova cidade.

A praia está lotada e as pessoas fazem muito barulho, isso me incomoda, mas se você focar no som do mar e caminhar o mais rápido possível pra longe do centro novo as coisas começam a valer à pena.

O centro antigo – pelo o que disse um dos funcionários da tão sonhada confeitaria do meu pai– é um lugar que a maioria das pessoas nem sabe da existência porque não comporta o fluxo de turistas que vêm para o verão e nem tem aquelas parafernalhas que eles costumam gostar. Eu não sei exatamente o que estou procurando vindo até aqui, talvez um pouco de paz me parece bom.

É fácil saber que cheguei porque a arquitetura antiga é bem diferente das que a gente vê no resto da cidade que parece sempre caminhar entre o desleixo de quem mora aqui e o cuidado de quem só passa o verão e tem dinheiro o suficiente para disputar a casa mais bonita na orla. Na rua somente algumas poucas pessoas e vários restaurantes, barzinhos chiques, brechós arrumadinhos e os artesanatos mais lindos que eu já vi. Sinto, pela primeira vez desde que chegamos que estou no lugar certo, e isso é extremamente reconfortante.

Preciso sentar para desenhar tudo isso.

Desenhar tem sido uma terapia para mim, sempre foi. Acho que no meio das mudanças eu sempre preciso de algo que ancore a minha alma. Simplesmente eu preciso tirar um tempo para botar as coisas que eu vejo no papel, entender como são e analisar, ou só, sei lá, fazer isso para não enlouquecer.

Entro e sento no primeiro barzinho que vejo pela frente, da bolsa tiro meu sketchbook – um caderno sem pauta e capa dura que sempre anda comigo, mas não o abro porque um garçom vem na minha direção.

– Boa tarde, deseja alguma coisa, senhorita? –Gosto de como ele fala senhorita no final da frase.

Seu avental é preto quase igual a cor do seus cabelos e da barba, ele parece ter entre uns trinta anos, mas pode ser mais novo também, não tenho muito tempo para pensar sobre.

–Vocês têm chá gelado?

–Não é um pedido comum. –Observa ele. – Temos só chá mate, pode ser?

–Claro. –Concordo. – Pode trazer biscoitos também. Quer dizer vocês têm isso?

–Temos sim. –Ele sorri. – Posso anotar o seu nome no pedido?

–Ah claro. Meu nome é Mira.

Ele não fala nada, mas a sua expressão me mostra que ele espera que eu complete com algo a mais. A verdade é que não tem algo a mais, é estranho, mas a minha mãe sempre gostou de nomes sem frescuras e sem apelidos então Mira foi o que me foi destinado.

–É nova na cidade? –pergunta enquanto anota o pedido.

–Pode se dizer que sim.

Na verdade eu fui concebida aqui anos atrás quando meus pais se conheceram e viveram um amor de verão que acabou virando uma amor para a vida inteira. Eles se mudaram e eu cresci na cidade grande, mas acho que aquela necessidade de se acalmar e ter uma casa na praia não envelheceu ao contrário dos meus pais.

–Seja bem vinda.

–Obrigada.

Ele sorri e volta para dentro do bar. Eu então começo a olhar ao redor para decidir por onde começo a desenhar. Gosto das varandas de ferro e das flores delicadas nas sacadas, gosto da forma como as pedras são encaixadas no chão. Toco o lápis no papel e começo meus traços quando alguém bate na mesa fazendo tudo mexer eu erro o traço e as coisas caem no chão. Levanto o olhar, nervosa.

–Meu Deus, me desculpa.. – O rapaz que diz isso não parece ser muito mais velho que os meus dezessete anos.

Ele está vermelho, suado e ofegante e tem um violão pendurado nas costas. Abaixamos juntos para pegar as coisas.

–Desculpa, de verdade. – Repete.

–Não tem problema. –Sei que o meu tom não foi um dos mais amistosos.

Meu caderno caiu de cabeça para baixo tentamos pegar ele na mesma hora e nossas mãos se encontram, eu me afasto rápido. Ele segura o caderno e me entrega, sorri como se eu não tivesse me afastado de uma maneira que fazia parecer que ele tem uma doença infecciosa e corre para dentro do bar.

Volto a me sentar na mesa e o garçom está trazendo meu chá, o garoto passa por ele e fala.

–Desculpa pelo atraso novamente, Rick. – E corre para o palco.

–Como sempre Gabriel. – Responde, mas não parece irritado.

Ele me entrega o chá e os biscoitos e vai atender a outra mesa.

Tento focar no meu desenho de novo, mas ao invés disso observo o garoto enquanto ele se arruma para cantar. Quando começa os pelos dos meus braços arrepiam, sua voz é doce e bem afinada, ele canta com uma emoção que me deixa encantada.

Uma onda de inspiração passa por mim, não quero mais desenhar as pedras do chão ou as sacadas de ferro. Meu desenho se transforma no garoto tocando violão e na emoção que ele reproduz com a voz.

Não sei quanto tempo passo desse jeito, ele cantando e eu desenhando, mas quando vou ver as horas no celular percebo que o deixei desligado, antes de ligar já sei que estou encrencada.

Dez. Dez chamadas perdidas. Dez chamadas perdidas da minha mãe. Encrencada é pouco para definir a situação em que eu estou.

Disco o numero dela enquanto enfio as coisas de qualquer jeito na minha bolsa e saio apressada. No primeiro toque já estou na rua.

Brisa MaritimaLeia esta história GRATUITAMENTE!