The Flying Cross

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(PLAY)

Nave EARHART, ano [ind, +1].

Foi no fim do equinócio da primavera que aconteceu. Aquele dia havia começado como outro qualquer: a tripulação ainda dormia tranquila, assim como seus permanentes passageiros, salvo um ou outro sonâmbulo que jurava estar andando sobre a terra; as turbinas ressoavam num constante mas não inquietante zunido, tão baixo e agradável como daquelas antigas geladeiras que as pessoas costumavam ter em suas casas, em meados do século XX. Talvez a nave inteira repousasse.

Não, não foi assim que aconteceu.

(PAUSE)

***

(PLAY)

Nave EARHART, ano [ind, +2].

Agora lembro: quase toda a nave estava em repouso, não fosse uma única pessoa, com um único desejo impossível. Um Suboficial, um garoto ainda. Desejava estar dormindo, protegido do eterno vazio do espaço pelo sentimento de união, de companhia, com os outros; mas não podia. Ele não podia. Era quase palpável a sua dor: fora criado em laboratório com o exclusivo propósito de manter as rotinas de controle da estação em funcionamento durante a noite e, tal como era no lugar de seu nascimento - aquele tubo de ensaio que gerou vida através de células dispersas em uma pipeta de vidro -, toda a nave mantinha uma suave luz branco-azulada. Gélida. Morta.

Pensando com mais calma, a verdade foi um pouco diferente. Dois pequenos eventos fosse qualquer outro dia, em nada influenciariam a história, mas que se não forem ditos, não permitirá alcançar o final desejado. Uma luz verde piscando em um ritmo constante e estável, como a respiração de alguém que já viu e ouviu muito. E uma quase senhora. Não dormia, mas também não estava exatamente acordada - talvez, o mais correto aqui fosse utilizar a palavra 'meditava'. Isso. Uma quase senhora, de nome Amelia Mary Howland, que meditava em busca daquele sentimento. Daquela raiva que lhe tirava o sono.

Sim.

É aí que a história começa. Um jovem que queria dormir e uma quase senhora que não queria acordar. E uma luz.

(PAUSE)

***

(PLAY)

Nave EARHART, ano [ind, + 4].

Não existia primavera ali. Estações do ano, dias da semana, feriados ou anos bissextos eram apenas tradições, mantidas numa falsa e frustrada esperança de preservar as culturas da terra - planeta que há muito deixara de ser o nosso lar. Dia e noite, algo tão mundano que chega a ser quase supérfluo, não existia; em Earhart, noite era o período em que as luzes eram desligadas para que todos pudessem dormir. Um momento específico, convencionado. Só isso. O Suboficial em serviço havia desligado as luzes da sala de controle quando notou, com o canto do olho, algo se acender em um dos painéis distantes. Era comum deixar a nave em piloto automático por longos períodos, fazendo-se necessário apenas realizar algumas visitas preventivas nos centros de suporte auxiliar à vida, tais como nível de oxigênio, filtros, capacidade de reciclamento de dejetos e, menos frequente ainda, uma olhada nos relatórios das estruturas externas da nave (em busca de alguma pequena falha que pudesse ter passado despercebida pela equipe de manutenção). Com um pé já fora da sala, fora obrigado a dar meia volta.

- O que foi agora? - resmungou em voz alta, mesmo sabendo que ele era o único ali.

Caminhou em direção à pequena luz verde, oriunda de um minúsculo painel que se acendera no penúltimo maquinário inferior do lado esquerdo da cabine. Era um painel tão pouco usual que nem mesmo ele, o único (acordado) e responsável pelo funcionamento da nave Earhart ao longo das frias noites, sabia para que servia. Pegou um volumoso manual e começou a folhear em busca de algo. Encontrou a resposta após longos minutos, ou curtas horas, (difícil distinguir) - era um sinal de emergência de uma nave que, se ele não se equivocara nos cálculos, provinha de 1106 Kydonia(1).

The Flying CrossWhere stories live. Discover now