O adeus

60 2 1
                                                  


– É verdade o que ela diz, Lucius? – os olhos de Jason acertaram os de seu pai como facas – Você confirma isso?!

A temperatura caía abrupta pelo fim da tarde e deixava ainda mais rígidos os vultos dentro do quarto do casal Real, e as palavras, ainda mais gélidas. Emanuelle permanecia paralisada junto à porta da sacada, acuada em seu próprio refúgio, as lágrimas que contornavam seus olhos avermelhados de cólera brilhavam pelo luminoso ouro que atravessava as cortinas. Abraçava-se com as mãos trêmulas, pela certeza de que só de si mesma poderia esperar consolo naquele momento.

Lucius tinha a respiração curta e a boca travada, nada se insinuando em sua garganta. Um dos escassos momentos em que um amante das palavras como ele parecia tê-las perdido todas de uma vez.

– Eu fiz uma pergunta, pai! – a voz de Jason vibrava tanto quando suas mãos. Estava cruamente desesperado.

O rapaz, então com dezessete anos, sentiu aquele silêncio roubar o último fio de paz que ainda era capaz de reter em seu peito:

– Será que não é capaz de me oferecer a verdade, Lucius? Ou me cobre de mentiras ou só te sobra silêncio? – a garganta embargada se fechou, ele se viu engasgado com aquela dor que corroia seu espírito, seu chão roubado, tudo que conhecia de si, desfeito.

Jason se sentiu tão só e traído naquele quarto luxuoso, tão intruso, tão malquisto, que em seu peito esvaziado de amor começou a abrigar um crescente medo. E quando, enfim, o rapaz abafou as palavras, o rei reencontrou as suas:

– É verdade. – confessou, com um tom tão cansado e humilde que se duvidaria ter saído de Lucius.

Jason soluçou quase num rosnado, comprimiu os lábios, magoado, incrédulo. Lançou olhares de profundo desgosto aos dois, longos e feridos, como se agora os visse de longe, como se os desconhecesse.

– Como ousaram me esconder isso por tanto tempo? Por que acharam que eu merecia descobrir desse jeito desumano?

– Nada devia ter sido dito, foi um erro.

– Ah, então o erro foi o fato de terem me contado, não o de terem me escondido?! Sua esposa "deixou escapar" uma das partes mais importantes da minha história! É isso?? Um simples erro?!

– Você não saberia guardar esse segredo. – respondeu o rei, já perdendo a paciência, cansado do fardo lançado pelos olhos do filho.

– E como pode ter certeza disso?? Eu tinha o direito de saber! É minha vida!! – bateu no peito, agora oco.

– Cale-se, Jason!

– Não! Eu não admito mais o silêncio! Nem o meu, nem o de vocês! Eu exijo a verdade inteira!

Emanuelle fechou os olhos e estremeceu. A garganta queimava, chamuscada pelo fogo cuspido, a tal verdade que sempre a consumiu como um silencioso incêndio e que finalmente tinha exposto em um momento de descontrole. Não tinha volta, ela sabia, e enfim diria tudo, sim, enfim tiraria esse tóxico de dentro de si. Mas Lucius a interrompeu:

– Você vai ter de admitir, porque é tudo que te sobrou, moleque! E saia desse quarto agora, antes que eu tenha de te arrastar à força!

– Se eu sair desse quarto sem a verdade, eu estarei saindo para sempre. – sentenciou.

Lucius retorceu o rosto com a ameaça. Jason continuou:

O Feiticeiro - Vol II - O Rei (Primeiros Capítulos)Onde as histórias ganham vida. Descobre agora