No Morro

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Estava frio, muito frio, Helena sentia os pés gelados por sob o tênis e seus dedos estavam quase dormentes. Suas mãos também congelavam mesmo estando cerradas em punho, cobertas pelas mangas do moletom. Ainda sim ela amava o frio, ele congelava seu corpo mas aquecia seu coração, a fazia se sentir confortável. À sua frente a lua cheia trocava carícias com as ondas, elas vinham calmas e brilhantes até a praia e quando se ouvia as ondas envolvendo a areia também se podia sentir os ventos gelados que as acompanhavam desde o horizonte. Helena estava sentada a algumas dezenas de metros da praia, em um pequeno morro gramado, atrás de si havia uma murada feita de rochas, a murada ficava no topo do pequeno morro que na verdade era um jardim. Encostada ao muro Helena podia ver, enquanto estava sentada, a grama descer até o pé do morro e dar lugar à areia da praia. Estava tudo escuro, o muro se estendia atrás de si até onde sua visão alcançava, sobre ele várias casas de praia luxuosas se erguiam lado a lado, à frente delas haviam pequenos jardins montados sobre os morros de areia com grama sintética. O jardim onde Helena estava tinha apenas grama e arbustos plantados no limite entre a areia da praia e a grama do morro, um pequeno tronco com uma lâmpada menor ainda enfeitava o centro do jardim, entre a garota encostada ao muro e os arbustos deitados à areia. A lâmpada do jardim iluminava menos que uma vela, e tudo que se podia ver era graças a lua. Mesmo as casas luxuosas tinham suas luzes apagadas e os outros jardins não tinham iluminação. Helena só podia ver as ondas distantes, a lua enorme ao horizonte escuro e, ao seu lado, Luke.
Não era mais que uma silhueta negra sentada ao seu lado, encostado no muro, mas mesmo assim ela sabia como era lindo com seus olhos verdes e cabelo negro. Eram namorados desde os dezesseis anos, Helena ainda lembrava do dia que se conheceram, à três anos quando recebeu uma flor do garoto, no meio da rua ele à abordou, uma linda rosa e olhos profundos e brilhantes foram suficientes para Helena se apaixonar. Agora sentados ali no escuro, vendo a lua e o mar na praia deserta e fria, ela se sentia anônima, era como poder observar o mundo e não ser visto, era como ser Deus. Eles eram infinitos, ilimitados e imortais. Pelo menos até saírem dali. Luke suspirou ao seu lado.
-Você não imagina como vai ser nosso futuro? Daqui alguns anos, quando pudermos fazer o que quisermos, quando formos livres?- O garoto soava pensativo.
-Meus planos sempre se limitaram até a minha entrada pra faculdade, mas eu quero ser feliz, e se você estiver comigo, vai ser o suficiente- Ela olhou para o garoto, uma sombra ao seu lado, ela pode vê-lo sorrir com expectativa e mesmo no escuro quase podia ver o brilho de seus olhos. Pequenas gotas de chuva começaram a cair. Helena se encolheu ao senti-las, um sofrimento prazeroso e adorável. Ele se aproximou ao ver a garota encolhida, sentou mais próximo e envolveu os ombros da jovem com seu braço.
-E onde vamos morar quando você se formar?- Perguntou Luke, fitando a lua agora.
-Não sei, um lugar frio talvez, se nós conseguirmos terminar a faculdade de medicina vamos poder morar em qualquer lugar. O que você tem em mente?
-Ah, uma praia talvez- Ele olhou para Helena e soltou pequenas risadas enquanto se levantava e estendia sua mão para a garota. Enquanto ele a erguia ela indagou.
-Porque uma praia?
-Não seria nada mal acordar todos os dias com mulheres de top-less no nosso jardim- Ele riu ao falar
-Bobo- Disse Helena rindo, quando deu um pequeno empurrão no peito do garoto.
-Uou- Ele disse quando começou a deslizar. Helena não havia empurrado forte porém a grama molhada e lisa fez o garoto surfar sobre seus tênis, de costas, morro abaixo. De início a jovem riu, mas ao ver o garoto, ainda de frente para ela, tropeçar no tronco com a lâmpada, a garota arregalou os olhos. Luke caiu de cabeça nos arbustos, o pequeno tronco cedeu com a luz ainda acesa, o garoto ficou imóvel com a cabeça oculta por folhas. Helena ainda assustada com as mãos na boca, perguntou um pouco alto demais
-Luke, meu Deus, você está bem?- Não houve resposta.
-Por favor Luke, não brinca comigo!- Ela disse um pouco desesperada. Nenhuma resposta. O corpo do garoto estava iluminado fracamente pela lâmpada do tronco, mas sua cabeça continuava oculta pelos arbustos.
Helena se aproximou, nervosa, seu coração pulava freneticamente e agora podia sentir seus pés e mãos. A grama estava lisa mas a garota desceu agachada. Se aproximou cautelosamente do arbusto, "Luke?" ela continuava a perguntar, seu coração parecia bater como um tambor gigante e suas orelhas estavam muito quentes. Ainda sem resposta ela se aproximou, a pequena lâmpada iluminando o arbusto que ocultava a cabeça do garoto, seu corpo parecia que ia derreter de tão quente ou se rachar de tão tenso. Ela empurrou o arbusto. Seus olhos se arregalaram e seus pulmões se esvaziaram, por um momento o tempo parou, ela caiu sentada ainda encarando a cena, sua boca aberta de surpresa mas sem som algum. Ela correu, precisava de ajuda, correu pela escuridão, pela praia deserta. "Luke! Me desculpe! Não foi de propósito, você precisa de ajuda! Por favor Luke espere!" ela gritava para si enquanto sentia lágrimas ferverem seu rosto. Ali, ao jardim de uma luxuosa casa, um tronco com uma pequena lâmpada iluminava o rosto de um garoto, caído no gramado, tinha olhos verdes arregalados, sua boca se abria em um ângulo assustador e dela escorria sangue, assim como do nariz e ouvidos, atrás da cabeça do garoto uma grande pedra pontuda era envolvida pelo que antes fora um cérebro, um cérebro cheio de planos e desejos, planos e desejos que não seriam mais que adubo agora.

Infelizes - Contos&Desencantos [SEM REVISÃO/SEM CONTINUAÇÃO]Stories to obsess over. Discover now