Uma ruiva inesquecível

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A casa deles está uma bagunça. Há caixas empilhadas por todos os cantos, malas com roupas e móveis desmontados pelos quartos e corredores. "Quanto tempo teriam para arrumar tudo?", ela pensa. Ela é extremamente organizada, quer tudo milimetricamente no lugar e odeia desordem. Parece que seus nervos vão explodir em mil pedacinhos se ela vir algo fora do lugar. Se depender do marido, que não é nenhum pouco incomodado com bagunça, aquela casa irá permanecer daquele jeito para sempre. Ela o namorou por quase seis anos, mas somente a partir de hoje é que irão morar juntos, depois de um casamento lindo e emocionante. Está tão atarefada que nem teve tempo de retocar o ruivo do cabelo. Isso era um vício. Ela pintava compulsivamente a raiz dourada de vermelho acobreado. Queria ter nascido ruiva, de sardas e tudo.
Ela lamenta o caos no interior da casa, mas ao mesmo tempo agradece por ter realizado o sonho de se casar com alguém que ama. Sai pisando descalça pelo piso gelado de madeira e o encontra sentando em uma caixa, enquanto analisa uma foto. A imagem de uma ruiva de anos atrás. Ela fazia uma careta sem graça na hora. Foi tirada no dia em que se conheceram.
- Olhando essa fotografia de novo?
Ele se vira surpreso, inclina-se e encosta os lábios delicamente nos dela.
- Não sei porque não gosta desta foto.
Ela ri e se senta no chão. Seus pés descalços estão gelados.
- Se é tão importante para você, eu também gosto dela.
Ele ri e encara a fotografia mais uma vez.

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Seis anos antes

- Com licença... Onde fica o banheiro? - Ela peguntou com a voz embargada, as lágrimas querendo saltar dos olhos.
A recepcionista a olhou com dó, controlando-se para não indagar o que havia acontecido com ela. O cabelo vermelho e liso da garota estava puxado para frente, numa tentativa frustrada de esconder o rosto. Mas, por fim, acabou indicando com a mão em que direção ficava o banheiro.
- Obrigada. - A garota agradeceu.
Seguindo as instruções da recepcionista, chegou correndo, mas a porta estava trancada. Ela bateu o pé no chão e sentiu a primeira lágrima rolar pelo rosto. Algumas pessoas começaram a notar. Não teve outra escolha a não ser entrar no masculino.
Jogou a bolsa e o celular em cima da pia e se sentou no chão, chorando muito alto, soluçando e sacudindo os ombros. Caramba. Ela nunca esperaria por aquilo. Nunca pensou que tivesse aquele problema tão grave nos olhos. Como era o nome mesmo? Descolamento de retina? O médico falou em cirurgia, mas mesmo assim chorou copiosamente.
Depois de alguns minutos daquele pranto incessante, lavou o rosto, pegou a bolsa e saiu, como se nada tivesse acontecido.
Foi somente quando entrou no táxi é que ela deu falta do celular.
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- Com licença, onde é que fica o banheiro?
A recepcionista hesitou em responder, admirando a beleza do rapaz. Ele piscou o olho antes de sair, fazendo-a suspirar.
Ele entrou e logo viu algo de errado: um celular em cima da pia. Olhou para o corredor, esperando por alguém que viesse buscá-lo por tê-lo esquecido. Como ninguém apareceu, aproximou-se devagar do aparelho e apertou o botão de desbloqueio. Precisava-se de uma senha, mas na tela havia a foto de uma ruiva. Muito bonita, por sinal. O coração dele pulou de susto com o toque do celular quando o aparelho tocou alto. Alguém ligava.
- Alô?
- Alô, você está com meu celular? Eu o deixei no banheiro da clínica.
- Mas o quê você estava fazendo no banheiro masculino?
Ele escutou a respiração forte dela, demonstrando impaciência.
- Olha só - ela falou - preciso do meu celular de volta. Podemos nos encontrar pra você me devolver, por favor?
- Huuum... Adoraria conhecer essa ruiva que tem na tela de bloqueio desse celular aqui. É você mesmo? Que gatinha, hein.
- Ah, me poupe. Estou indo para aquele restaurante na beira mar, conhece?
- Sim, sim. Almoço romântico?
- Escuta aqui, mermão. - o tom de voz dela aumentou - sem gracinhas, ok? Tchau.
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Logo reconheceu a moça da foto, era ainda mais bonita pessoalmente, mas estava com o rosto inchado. Chegou sem rodeios, sentando-se na mesa dela sem nem pedir licença.
- Oi. É você a dona do celular? Sua maquiagem parece melhor na foto.
- Vai se catar! - Ela exclamou, impaciente. - Cadê meu celular?
Ele riu, encostando-se na mesa e chamando o garçom.
- O cardápio, por favor.
- Cardápio?! Eu só vim pegar meu celular.
- Calma, lindona.
- Não me chama de lindona.
- Por quê? Você é linda. Esse cabelo é natural? Cor bonita.
Mas, como eu disse, sua maquiagem está melhor na foto. O que houve?
Ela cruzou as pernas e respirou fundo.
- Meu olho está gravemente lesado.
- É sério? - Ele se inclinou sobre a mesa, os olhos grandes e verdes a mirando intensamente. - Que droga hein? Eu não queria estar no seu lugar.
- Cara, alguém já te disse que você é um idiota? Só me deixou ainda pior esse seu comentário.
- Já me disseram, sim. Mas fala sério, o que queria que eu dissesse? Sinto muito? Tenho pena de você? Pena é um sentimento meio sem graça, não acha?
Ela estreitou os olhos, tentando não rir. Quase riu, mas se controlou.
- De que planeta você veio?
- Isso não interessa. Qual seu nome?
- Bel. - respondeu, querendo rir novamente da falta de bom senso daquele rapaz.
- Belinda? Belatriz? Isabel?
- Não, só Bel. Meu nome é Bel mesmo. E o seu?
- Rodrigo.
Bel ajeitou-se na cadeira, e depois colocou o queixo nas mãos.
- Rodrigo, você é sempre atirado assim ou ficou desse jeito depois de alguma decepção?
- Sou assim desde que nasci. E eu não sou atirado. Só acho que as pessoas devem sempre ser sinceras em tudo. Qual o problema de eu dizer que não queria estar no seu lugar, se eu não quero mesmo? E qual problema de eu dizer que te achei uma gata se eu achei de verdade? As pessoas se escondem atrás de máscaras, dizem o que não sentem e não dizem o que sentem.
- Huum... Você é bem filosófico. Só acho que está na hora de devolver meu celular.
- Agora não. - Ele se espreguiçou - por que a gente não sai daqui?
Ela estreitou o olhar.
- Vamos, Bel. Vamos nos conhecer melhor. Vem. Eu juro que vou te fazer sorrir mais do que você já chorou hoje.
Bel levantou os braços e foi se levantando devagar.
- Tudo bem, você venceu. Onde quer ir?
- Não sei, qualquer lugar será o lugar perfeito na sua companhia.
- Ai, que cantada dos anos oitenta barata! - Ela tentou evitar, mas deixou escapar um sorriso.
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Eles foram ao shopping, assistiram a um filme de terror e depois tomaram sorvete de chocolate. Eles também fizeram compras juntos e até uma aposta (quem conseguisse fazer a maior bola de chiclete teria que comprar algo para o outro).
- Graças a Deus que ainda enxergo para poder testemunhar isso. - Bel falou dentre as gargalhadas, enquanto observava o chiclete grudar em todo o rosto de Rodrigo.
Como combinado, ele comprou um ursinho de pelúcia para ela.
Depois, resolveram comer uma pizza, e, enquanto Bel comia, foi pega de surpresa pelo flash do celular dele. Deu tempo de fazer uma careta, mas ela achou a foto horrível e implorou para que ele apagasse. Mas ele não o fez.
- Lembra quando eu disse que pena é um sentimento sem graça? - Rodrigo indagou, olhando Bel nos olhos - Você não merece esse sentimento. Pelo menos eu só sinto orgulho de você. Hoje eu conheci uma garota incrível, que chora escondida no banheiro, mas que na rua, ri e se diverte. Hoje eu conheci uma garota madura e muito sincera. E que me fez uma ótima companhia. Continue assim. - Ele beijou a mão dela com ternura. - Você se importaria se eu te pedisse em casamento agora?
Ela arqueou as sobrancelhas.
- Casamento? Mas a gente se conheceu hoje!
- E o que é que tem?
- Você é louco! - Ela riu pela milésima vez por causa da cara que ele fazia.
- Tudo bem. Pessoal - ele falou alto, o que fez Bel corar de vergonha na pizzaria lotada - ela não quer casar comigo.
Quando ele baixou o tom de voz novamente, chamou o garçom e pediu a conta.
Rodrigo insistiu para deixar Bel em casa, mas ela recusou todas as vezes em que ele se ofereceu. Então ele chamou um táxi e o ficou esperando junto com ela.
- Tome. - disse, depositando o celular em sua mão.
Bel pegou o aparelho, e, por instinto, fez a única coisa que teve vontade de fazer o dia todo, enquanto estava na companhia de Rodrigo. Ela o beijou. E foi o melhor beijo da vida dos dois, tão bom, que nem se importaram quando sentiram os pingos de chuva cair sobre aqueles dois rostos que se amavam tão intensamente. Ela por fim se afastou, fazendo carinho na barba por fazer dele, gravando todos os detalhes do seu rosto. Quando o táxi parou ao lado deles, a chuva aumentou de intensidade. Então se despediram com mais um beijo e um "boa noite" muito apaixonado.
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Rodrigo já havia se chamado de idiota mil vezes por não ter pensado naquilo antes. Estava há uma semana sem notícias de Bel, porque ele tinha sido muito tapado de não ter pedido o número dela. E, pelo que constatou após pesquisas cansativas e inúteis pela internet, ela não tinha nenhuma rede social. Foi então que lembrou-se de ir à clínica onde ela estivera no dia em que se conheceram. Depois de muitas cantadas em todas as recepcionistas, uma cara de cachorrinho perdido e mil bajulações que ele nunca pensou que pudesse dizer um dia, uma alma boa resolveu ajudá-lo consultando o cadastro de Bel e dando a ele o endereço dela. Beijou as mãos de todas as funcionárias sentindo-se a pessoa mais feliz do mundo.
Mas a felicidade durou pouco. Quando chegou na casa dela, foi recebido por uma senhora triste, que informou a ele a pior notícia que poderia escutar.
- Ela tinha um problema na vista... Foi atravessar a rua e não viu o carro que vinha na direção dela... A pista estava molhada por causa da chuva... Já faz uma semana.
- Uma semana?! - Ele disse, desesperado. - Como eu não soube? Mas há uma semana ela estava comigo. Nós nos conhecemos, nós nos beijamos!
Ele não chorou. Ficou em estado de choque. Sentiu-se perdido, louco, muito, muito impotente. Não queria acreditar no que escutava.
Saiu correndo da casa tentando encontrar um rumo. Ele choraria por muitas noites agarrado à foto dela.
Ele sequer tentou entender aquele destino absurdo dos dois, como se conheceram tão rapidamente e como ela partiu mais rápido ainda? Deixando somente saudade e um buraco enorme no meio do coração dele. Ele não entendia, ele não queria aceitar. Mas um dia, tentaria se consolar com outras mulheres, mas por nenhuma delas jamais sentiria o que sentiu por Bel. Ele andou sem rumo por um tempo. Rodrigo ficara encantado pela garota, tudo o que ele queria era ter tido mais tempo com ela. Ele lacrimejava quando passava em frente àquela pizzaria, ou assistia ao filme que assistiram naquele dia tão feliz. Ele pensou que não iria casar nunca, nem ter filhos, nem uma casa com uma esposa adorável ao seu lado.
Até que, após meses de sofrimento e lamentações, conheceu Ângela. Uma loira que pintava o cabelo de vermelho para parecer ruiva de verdade. Ela tinha problemas com organização, e por muitas vezes ele disse que ela tinha TOC. Mas ela sempre dizia que não. Rodrigo se apaixonou pelas qualidades de Ângela, pelos defeitos dela, e dizia muitas vezes que seu cabelo era mais bonito natural. Ele contou a história triste de Bel, e algumas vezes Ângela até brigava por sentir ciúmes de uma pessoa que nem existia mais. No entanto, eles se amavam. E namoraram por quase seis anos e depois se casaram. E agora estão em uma casa nova abarrotada de caixas e com uma Ângela à flor da pele porque não pode ver bagunça.
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- Meu amor. - Ângela levanta-se do seu lugar e senta no colo de Rodrigo, tirando a fotografia das mãos dele. - Eu queria tê-la conhecido.
- Você iria adorá-la.
- Eu sei. - Ela ri, colocando a foto dentro da caixa com um sorriso. - Muito bonita sua história com a Bel, mas o que acha de nós começarmos a arrumar essa bagunça?
Ele ri e a beija na testa.
- Amor. Agora não.
Ela se levanta de súbito, obrigando-o a fazer mesmo.
- Agora sim.
E sai arrastando Rodrigo pelo braço para ajeitarem o lar que Deus dera a eles. O lugar onde irão passar o resto de suas vidas. Com vários filhos e netos correndo pela casa gritando e bagunçando tudo outra vez.

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