Capítulo Treze

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Yuri só lembrou da existência do seu sem-teto de estimação, quando entrou no apartamento.

— Ah, Yuri! Que bom que tu chegou, veio tarde hoje, ein? Tá, não é da minha conta, mas estava te esperando pra ver onde colocar esse vaso! Eu levei as roupas de cama na lavanderia, no caminho peguei pão e margarina com os troco que você deixou pra isso e ia lavar o banheiro, mas aí decidi que ia fazer pão na chapa! Só que daí eu vi essa estantemeio molenga e arrumei ela, também comecei a dar uma mexida e achei esse cacto todo coitado, aí eu dei água pra ele e estou procurando um ponto no sol, quando fui na sacada e vi esse outro vasinho com terra que não sei se tem algo plantado e... — Arsênio começou com sua verborragia usual, todo animado enquanto Yuri sentia sua dor de cabeça aumentar só de ouvir a voz dele.

— Cai fora, garoto — O cortou na hora, seco. Ele lhe olhou confuso.

— Que?

— Cai fora, piá! Vamos! Vaza! — Yuri ergueu a voz dessa vez, apontando para a porta de saída — Só me deixa em paz!

Os ombros de Arsênio se encolheram e ele deixou o vasinho na mesa, rumando rápido para a porta, dizendo baixo:

— Desculpe, tô indo, desculpe...

Yuri fechou a porta de forma audível, suspirando. Se sentia exausto e encurralado com os próprios problemas.

Atravessou o kitnet já tirando a camiseta e desabotoando o binder, já estando sem ar e dolorido. Se perguntava por quanto tempo ainda conseguiria esconder os seios com tamanha sensibilidade que havia adquirido com a gravidez, tentando assim segurar esse momento o máximo possível. Pois diferente de outros transmasculinos, não tinha problema com essa parte do corpo em si, quando estava sozinho, mas mais como lhe percebiam aos arredores por eles. A ideia de ter algo em si que gritasse a palavra MULHER tão visivelmente o perturbava.

A gravidez avançando lhe causava uma sensação muito parecida. Nos últimos dias, sentia isso gritando em cada parte de seu corpo e condição. Se perguntando por quanto tempo ainda conseguiria pelo menos passar com os desconhecidos, sua pequena vitória pessoal de transição. Será que voltaria a ser ele mesmo algum dia agora?

Eram péssimos pensamentos para se ter durante o banho. Mas se sentia incomodado mesmo com os toques sutis do médico de antes, querendo se livrar até mesmo da presença metafísica dele. Precisava do choque do registro e de água quente para isso. Ignorando o quanto ficaria sua conta de água, deixou ela escorrer sobre seu corpo por vários minutos enquanto olhava para cima, sentindo os pingos mornos contra o rosto.

Em determinado momento, lentamente Yuri abaixou a cabeça, encarando a si mesmo por um instante, se analisando. Não havia mudado tanto, mas sentia os seios mais inchados e por vezes doloridos com o toque. A barriga já estava ali, mas estava mais rígida do que costumava ser. Ainda não havia muito o que se notar nele, mas Yuri sentia as mudanças que o corpo passava, ficando cada dia mais alerta e apreensivo.

— A gente vai ficar bem... — Não sabia se dizia isso para si próprio ou para o trocinho. Ali, ele se lembrou das batidas rápidas que ouvira no consultório, sentindo em mais intensidade por fim o alívio de estar livre do que tanto havia lhe afligido antes. Yuri alisou a própria barriga por um instante, a princípio para averiguar a diferença, mas passou a ser mais afetuoso em seguida.

Ainda era confuso ter aquele sentimento de agora desejar tanto aquilo que estava tumultuando sua vida, mas já estava cansado de tentar racionalizar o que provavelmente estava longe de ser racional.

É a mãe dele. É. Aquele era um sentimento muito estranho. Mas poderia seguir em frente com ele agora que possuía essa certeza. Yuri não sabia mais dizer se as lágrimas misturadas ao banho eram de euforia ou de pavor. Mais provável que o misto dos dois, mas principalmente, de alívio.

Entranhas (Pandorgas vol.1)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora