Capítulo 1

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Aurora Rossi

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Aurora Rossi

Yácov Novikov

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Yácov Novikov

O quarto era imenso, paredes brancas com detalhes em rosa pálido, cortinas leves que deixavam a luz do sol entrar suavemente. Aurora Rossi parou em frente ao espelho de corpo inteiro, passando a mão devagar pelo cabelo longo e brilhante, sorrindo para si mesma. Estava linda - um vestido leve, cor de creme, que caia perfeito nela, e o brilho nos olhos era o de quem não tinha motivo nenhum pra não estar feliz.

- Hoje vai ser um dia perfeito... - sussurrou pra si mesma, ajustando o tecido nos ombros.

Ela passou o batom, deu uma última olhada no reflexo e saiu do quarto, os passos leves no piso de madeira polida. Desceu a escada enorme, rindo baixinho, sentindo aquele cheiro de lar, de conforto, de tudo que sempre conheceu. Chegou à sala de estar, enorme, com móveis caros e quadros que valiam mais do que muita gente ganha a vida toda - e parou.

O sorriso morreu nos lábios na hora.

O pai, Giovanni, estava sentado de costas pra ela, as mãos apertadas entre as pernas, os ombros caídos. A mãe, Lucia, tinha os olhos vermelhos, enxugando o rosto com um lenço, sem parar de respirar fundo, como se segurasse o choro. O silêncio ali era pesado, sufocante, nada parecido com a casa alegre que ela conhecia.

- Mãe? Pai? - chamou Aurora, baixinho, dando um passo pra frente. - O que foi? Por que essas caras?

Lucia virou devagar, e quando viu a filha, os olhos encheram de lágrimas de novo.

- Aurora... querida... - sussurrou ela, estendendo a mão. - Vem cá, filha.

Aurora aproximou-se devagar, o coração já batendo mais forte, e sentou-se ao lado da mãe no sofá, pegando sua mão.

- Tá me assustando, mãe. O que aconteceu? Onde estão os sorrisos? O almoço de hoje era pra ser especial, lembra? - olhou pro pai, que não se mexia. - Pai? Fala comigo, pelo amor.

Giovanni virou-se então, e Aurora quase não reconheceu ele: o rosto que sempre era firme, confiante, cheio de vida, agora parecia ter envelhecido anos de uma vez só. Os olhos estavam sem brilho, fundos.

- Filha... - começou ele, a voz rouca, baixa. - Tenho que te falar uma coisa. E você precisa ouvir com calma, por favor.

- Tô ouvindo. - Aurora apertou a mão da mãe. - O que é? Alguém ficou doente? Algum problema com a empresa?

Giovanni soltou um riso seco, sem alegria nenhuma.

- A empresa... - ele respirou fundo, fechando os olhos por um instante. - A empresa está falida, Aurora. Completamente falida.

Aurora ficou parada, olhando pra ele, sem reagir de primeira. Depois, balançou a cabeça, forçando um sorriso.

- Não... não brinca com isso, pai. Não é engraçado. A sua empresa é a mais sólida de Roma! Todo mundo fala que é um sucesso!

- Era, filha. Era. - Lucia falou, a voz tremendo. - As dívidas foram crescendo... os investimentos deram errado... ninguém nos avisou a tempo.

- Mas... mas como? - Aurora se levantou, os olhos arregalados. - Você sempre dizia que estava tudo sob controle! Que tínhamos dinheiro pra vida toda! Isso é mentira, tem que ser! Pai, fala que é brincadeira!

- Quem me dera ser, Aurora! - Giovanni levantou também, a voz subindo, desesperada. - Quem me dera poder te enganar pra sempre! Mas é verdade! Os números não mentem! Perdemos tudo!

- Tudo? - sussurrou ela, sentindo as pernas ficarem moles. - O que quer dizer com "tudo"?

- O que investimos deu errado, muito errado. - Giovanni passou as duas mãos pelo cabelo, bagunçando tudo. - Empréstimos que não conseguimos pagar, parceiros que fugiram... o mercado virou contra nós e não tivemos pra onde correr. As contas estão bloqueadas. Os bens vão ser leiloados.

Aurora sentou-se de novo, devagar, como se o chão tivesse sumido debaixo dela. Olhou da mãe pro pai, sem saber o que pensar.

- E agora? - perguntou, quase sem voz. - O que vamos fazer?

Lucia puxou a filha pra um abraço apertado, as lágrimas caindo no cabelo de Aurora.

- Ainda não sabemos, meu amor... ainda não sabemos. Mas temos que resolver isso rápido. Muito rápido.

- Por quê? - Aurora afastou-se um pouco, olhando nos olhos da mãe. - Por quê com tanta pressa?

- Porque... - Lucia hesitou, engolindo em seco. - Se não conseguirmos reverter a situação, seremos despejadas daqui em poucos dias.

- Despejadas? - Aurora franziu a testa, sem acreditar. - Da nossa casa? A casa que a família tem há gerações? Não podem fazer isso!

- Podem e vão, filha. - Giovanni sentou-se na poltrona, parecendo um homem derrotado. - Não temos dinheiro pra pagar nem mais um mês. Se nada mudar, saímos daqui e não temos nenhum outro lugar pra ir.

Aurora ficou olhando os dois, um depois do outro, o coração doendo forte no peito. Tudo o que ela conhecia - a mansão, a segurança, o futuro que sempre pareceu garantido - estava desmoronando diante dos olhos, e ela não conseguia fazer nada pra impedir.

- Vamos ficar pobres... - murmurou, mais pra si mesma do que pra eles. - É isso, né? Vamos ficar sem nada.

- Nós vamos tentar, Aurora. De qualquer jeito. - Lucia segurou o rosto da filha entre as mãos. - Mas você precisa saber a verdade. Não podemos mais esconder.

Aurora olhou pro pai, que estava com a cabeça baixa, sem coragem de encará-la. E então sentiu o desespero tomar conta dela, frio e cortante.

- E o que vai ser de nós? - perguntou, a voz tremendo. - Onde vamos morar? O que vamos comer? Como vamos viver?

Ninguém respondeu. O silêncio voltou, mais pesado do que antes, e Aurora entendeu: eles não tinham respostas. Nenhum plano, nenhuma saída. Apenas o medo e a ruína batendo à porta.

Ela se levantou de novo, andou de um lado pro outro, sem saber o que fazer, sem conseguir ficar parada. Tudo parecia um sonho ruim - mas não era. Os olhos vermelhos da mãe, o rosto cansado do pai, a verdade nua e crua diante dela... era real.

- Isso não pode estar acontecendo... - repetia, andando de um lado pro outro. - Isso não é possível!

- Aurora, filha, vem cá... - chamou Giovanni, estendendo a mão.

Ela parou, olhou pra ele, e de repente as lágrimas vieram, sem que ela conseguisse segurar.

- Como vocês deixaram isso acontecer? - perguntou, a voz quebrando. - Como não perceberam antes?

- Eu errei, Aurora. Eu errei muito. - Giovanni também tinha os olhos cheios d'água. - E vou fazer de tudo pra arrumar. Mas não tenho como voltar no tempo.

Aurora sentou-se de novo, encolhida no sofá, abraçando a si mesma, sentindo o frio do medo tomar conta de tudo. O futuro que ela imaginava - tranquilo, seguro, cheio de planos - tinha sumido em um instante. E agora, o que vinha pela frente? Ninguém sabia.

- Nós vamos dar um jeito... - sussurrou Lucia, abraçando a filha de novo, mas a voz não convencia ninguém. - De alguma forma, vamos dar um jeito.

Aurora não respondeu. Ficou olhando pra frente, sem ver nada, com o coração apertado e uma certeza dolorida crescendo dentro dela: nada jamais seria igual.

Continua...

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