Capítulo 1 - Hariel

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Acordo de repente, o ar preso na garganta seca, como se o próprio ar tivesse decidido abandonar meus pulmões, enquanto meu coração dispara, martelando tão forte que sinto a vibração subir pela pele, ricocheteando entre as costelas.

O quarto encolhe à minha volta. As paredes parecem se aproximar, em silêncio, como predadores tentando me engolir.

Merda. Di nuovo, no.

Me sento devagar, mas o mundo não acompanha o movimento. Tudo gira um pouco — luz, sombras, o som abafado da minha própria respiração. Eu tento puxar o ar, mas ele entra irregular, cortado, ferindo a garganta.

Segundos se passam... ou talvez minutos. Difícil dizer — o tempo sempre vira um borrão quando isso acontece — até meus olhos finalmente se ajustarem à escuridão.

Pequenos flashes começam a invadir minha mente: a festa para a qual a Sophie me arrastou, música alta demais, gente demais, bebida demais. Eu sabia que não deveria ter exagerado..., mas às vezes é mais fácil assim. Afogar o barulho de dentro com o barulho de fora.

Um cheiro doce me alcança, suave, familiar de alguma forma. Viro o rosto e encontro uma mulher adormecida ao meu lado, os cabelos loiros espalhados pelo travesseiro, cobrindo parte do rosto. Tento vasculhar minha memória, mas ela devolve só fragmentos desconexos. Nos conhecemos na festa. Alguém nos apresentou. Sophie? Vivian? Não faço ideia.

Seu nome flutua na minha cabeça, fraco, distante. Luiza... Letícia... talvez Laura. Tanto faz. Ela dorme tranquila, completamente alheia ao caos que está a poucos centímetros dela.

Merda. Eu não devia ter adormecido. Culpo o álcool, o cansaço... e a minha eterna falta de controle.

Mas isso não importa. Porque eu já sei o que vem depois.

Jogo as cobertas para o lado e me levanto num movimento brusco. O pânico percorre minhas veias como se tivesse acordado antes de mim. Minha pele formiga, meu estômago revira, e cada parte do meu corpo grita a mesma ordem: Saia daqui. Agora.

E eu obedeço, como sempre.

Não sei explicar essa sensação. Essa... ruptura. Mas toda vez que durmo ao lado de alguém, é como se um alarme interno disparasse, me empurrando porta afora antes que... antes que o quê? Nem eu sei. Só sinto que preciso ir, como se ficar fosse perigoso de um jeito que não posso explicar.

De qualquer forma, relacionamentos são complicados. Pessoas são complicadas. E eu aprendi a me virar muito bem com a minha própria solidão. É confortável, previsível e principalmente segura.

Afinal... se você não deixa ninguém entrar, não corre o risco de ninguém sair.

Acho que meu corpo entende isso tão bem quanto a minha mente.

Pego minhas roupas e me visto rápido, quase automática. Minhas mãos tremem enquanto procuro as chaves na mesa de cabeceira. Quando finalmente as encontro e puxo, elas caem da minha mão no chão com um baque seco. Prendo a respiração.

A — Definitivamente — Laura se mexe, mas não acorda.

Respiro aliviada. Ótimo.

Em poucos segundos estou fora do quarto, atravessando o apartamento em passos apressados e silenciosos. A sensação de estar sendo observada me acompanha — mesmo sabendo que ninguém está acordado o suficiente para isso.

Quando fecho a porta atrás de mim, sinto o ar frio do corredor bater no meu rosto. Mas não traz alívio. Ainda não. Eu preciso de mais... distância.

Então continuo fugindo.

Somente quando entro no carro e fecho a porta é que finalmente solto o ar. Seguro o volante com força — tanta que meus dedos doem.

Respiro fundo, ainda meio trêmula e entorpecida.

Ligo o motor e deixo que meus instintos decidam o caminho por mim. Quanto mais longe eu vou, mais o peso no peito diminui.

Dirijo sem pensar, sem olhar para trás, até parar num estacionamento vazio, iluminado por postes amarelos vacilantes que piscam como se também estivessem cansados. Encosto a cabeça no banco e fecho os olhos.

Minha respiração ainda sai torta. Prendo os dedos no couro do volante, focando na textura, no toque firme. Em qualquer coisa que me devolva um pouco de controle.

Não sei por que meu corpo reage assim.

Mas funciona desse jeito. E, no fim... é melhor assim.

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