Taehyung conferiu o passaporte pela quarta vez antes de guardá-lo. Não precisava, e ele sabia disso.
O papel plastificado já tinha uma leve curva nas bordas de tanto que ele havia manuseado nas últimas semanas, e a foto — uma foto que ele odiava porque o pegou com o cabelo um pouco mais comprido do que gostaria. — estava exatamente onde deveria estar, no bolso interno da mochila, junto da carteira e da pasta fina onde havia separado todos os papéis importantes para o intercâmbio.
A textura do couro da carteira era familiar sob seus dedos quando ele passou a mão por cima para confirmar, e o papel da pasta tinha um cheiro seco, de impressão recente, que ele já associava a formulários e autorizações.
Tinha conferido tudo antes de sair da Coreia, durante a viagem e, provavelmente, conferiria mais uma vez antes de chegar ao apartamento. Era um hábito que vinha da ponta dos dedos, uma ansiedade pequena e muscular que se repetia sozinho. Ou talvez fosse apenas a maneira que tinha encontrado de manter as coisas sob controle quando havia coisas demais acontecendo ao mesmo tempo — o voo, a mudança, a língua nova, a cidade imensa que ainda não cabia em olhos.—
O aviso de desembarque já havia terminado alguns minutos antes, mas Taehyung ainda permanecia sentado enquanto o corredor começava a esvaziar. O assento era duro, e o tecido do estofado tinha uma textura áspera que ele sentia através da calça.
Pessoas passavam ao seu lado puxando malas com rodinhas que rangiam no piso, ajeitando casacos que faziam aquele som de tecido atritando contra tecido, procurando seus pertences nos compartimentos superiores com braços esticados e respirações ofegantes. Ele ouvia o zíper de uma bolsa sendo aberto, o clique de uma fivela sendo solta, o murmúrio baixo de uma conversa em francês entre dois passageiros que provavelmente estavam discutindo algo banal. Ele esperou e havia uma tranquilidade estranha em ficar ali, ouvindo o silêncio crescer à medida que o avião se esvaziava. A luz artificial do corredor parecia mais forte agora que havia menos gente bloqueando-a, e ele piscou algumas vezes contra o brilho.
Quando finalmente se levantou, puxou a mochila para os ombros e sentiu o peso familiar se acomodar na curva da coluna. A alça esquerda sempre escorregava um pouco, e ele a ajustou com um movimento automático. Conferiu o assento pela última vez — o encosto azul, o bolso vazio à sua frente, o chão onde não havia nada esquecido. Nada, e então seguiu pelo corredor.
O aeroporto parecia maior do que nas fotografias que tinha visto. Talvez fosse a altura do teto, que se perdia em uma claraboia distante e deixava entrar uma luz cinzenta de fim de tarde, ou talvez fosse apenas a primeira vez que estava olhando para aquilo pessoalmente. O chão era de um mármore claro e polido que refletia as luzes do teto em pequenos pontos brilhantes, e ele ouvia o som dos próprios passos ecoando de maneira diferente. Mais nítidos e mais secos do que estaria acostumado em Seul. Francês. Ele ouvia francês em todos os lugares.
Não apenas como uma língua, era uma textura sonora que preenchia todos os espaços. As vogais abertas que pareciam sair de trás da garganta, os r's que vibravam no fundo da boca, as entonações que subiam e desciam como ondas pequenas. Vozes próximas, anúncios pelos alto-falantes que chegavam até ele com um leve chiado eletrônico, conversas rápidas entre pessoas que caminhavam sem sequer precisar pensar sobre as palavras que estavam usando.
O som daquelas palavras era novo para seus ouvidos, mas havia algo de familiar na maneira como as pessoas as pronunciavam com pressa, desleixo e sua naturalidade. Taehyung conhecia a língua o suficiente para entender algumas coisas. Havia estudado antes de viajar, passado horas repetindo frases em frente ao espelho do banheiro enquanto a água quente do chuveiro embaçava o vidro. Tinha se preparado justamente para não chegar completamente perdido. Ainda assim, ouvir aquilo acontecendo naturalmente ao seu redor era diferente. O som entrava pelos ouvidos e ele sentia um formigamento na nuca, como se o cérebro estivesse trabalhando em velocidade dupla para processar, traduzir e reconhecer.
Ele sorriu. Era estranho.
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Garoto Biscoito - Taekook
FanfictionTaehyung sempre acreditou que algumas oportunidades só aparecem uma vez. Por isso, quando conseguiu a chance de deixar a Coreia e passar uma temporada na França, não pensou duas vezes. Entre uma nova língua, ruas que ainda não conhecia, museus que q...
