capítulo único

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04/07/2026 03:37

Ana olhava para o papel em sua mão. Mais especificamente, uma carta.

Algo simples que ninguém mais fazia naquela época. Somente um envelope branco, sem nada de especial ou qualquer detalhe caloroso.

Era nada mais do que um papel frio e liso contendo uma simples folha de caderno comum, que cheirava a algo guardado por muito tempo.

Nada extravagante ou incomum, mesmo que quem visse não contasse o fato de ser uma carta escrita à mão em um mundo onde se podia enviar uma mensagem em questão de segundos para quem desejasse, ou ouvir a voz de alguém através de uma ligação a qualquer momento.
Contudo, aquilo ainda irritava Ana.

Não a carta em si, nem aquele papel vagabundo comprado por menos de dois reais na papelaria mais fuleira que ela poderia imaginar, ou porque a pessoa sequer tinha se preocupado em arrumar um papel melhor para escrever aquela atrocidade.

Não, nada disso importava de fato, apesar do incômodo que lhe causava. O problema estava naquelas palavras odiosas no topo do papel, escritas de forma tão certinha em um vermelho com glitter, cheirando a morango.

_"Acabou o tempo, se decida de uma vez."_

Ela leu aquelas palavras repetidas vezes. Não só elas, como também o resto do conteúdo do odioso papel. Ainda assim, nada ali dava mais ódio em Ana do que aquelas palavras.

Era revoltante como estava sendo forçada a tomar aquele tipo de decisão no auge dos seus 40 anos.

Ela não tinha mais idade para algo tão besta. Era revoltante demais ser obrigada a decidir o que fazer naquela situação.

Seu amado Diego havia recentemente conseguido, depois de 4 anos trabalhando duro, uma promoção no trabalho dele como programador, onde finalmente conseguiu a chance de virar supervisor chefe de um projeto milionário. No entanto, ele teria que viajar para outro país, onde sequer sabia falar fluentemente a língua local.

E devido a isso, Ana se via obrigada a escolher entre ir com seu amado e perder tudo o que havia conquistado naquele lugar, suas lembranças mais queridas e os momentos mais gostosos que vivera ali...
Ou ficar e perder seu amado completamente.

Aquilo era muito difícil para ela. Ambas as opções pesavam demais em seu coração para que sequer pudesse pensar em escolher entre uma e outra.

O pior de tudo era não ter tempo sobrando para decidir qual seria a melhor opção, pois faltava somente um dia para que seu amado partisse de vez da sua vida. Ela não queria sentir aquela dor de vê-lo sumir entre seus dedos. Não aceitava aquilo, não importava o quanto tentasse pensar a respeito. Era inviável.

Ao mesmo tempo, tornava-se cruel consigo mesma deixar tudo para trás. Tudo aquilo pelo qual lutou tanto para conseguir. As coisas que seria impossível levar consigo para um lugar tão distante.

Mesmo que deixasse tudo o que fosse mais pesado e levasse apenas o essencial, ainda doeria muito se livrar de bens tão preciosos.

E isso a irritava ao extremo, piorando ainda mais seu ódio e sua ansiedade cada vez que lia aquelas palavras no topo daquele papel.

Ainda mais à medida que o tempo passava. Enquanto andava pela casa em busca de uma resposta para aquele dilema cruel, ela se tornava cada vez mais desesperada com o tempo se esgotando.

Até que finalmente, ao passar por seu quarto e ver o presente que havia preparado para entregar ao seu amado em comemoração à sua promoção, Ana finalmente sorriu.

Uma decisão se formando em sua mente enquanto corria para se arrumar e sair levando consigo a carta.


                  ********

O cheiro de café fresco voava pelo ar frio daquela tarde de domingo na rodoviária.

As vozes das pessoas se misturavam ao barulho dos ônibus chegando e partindo, enquanto malas eram arrastadas pelo chão e anúncios ecoavam pelos alto-falantes antigos espalhados pelo lugar.

Para muitos, aquela era apenas mais uma rodoviária cheia de desconhecidos indo para destinos diferentes.

Mas, para Diego, aquele lugar representava uma saída.

Uma porta aberta para longe de tudo aquilo que o sufocava.

Sentado enquanto esperava o ônibus que o levaria para fora daquele lugar desprezível onde morava, ele segurava seu copo de café entre as mãos, sentindo o calor atravessar seus dedos enquanto observava as pessoas passando ao seu redor.

Ele odiava com todas as forças tudo e todos daquele lugar cheio de gente perturbada e sem classe alguma.

Não via a hora de finalmente entrar naquele ônibus e se jogar nos braços da mulher que amava com todas as forças, aquela que daria o mundo para ver feliz.

Já sonhando com o abraço reconfortante e os beijos quentes que finalmente poderia receber, Diego tomou mais um gole de café enquanto esperava sentado em seu assento.

Então, o motorista deu a partida.

Aos poucos, o ônibus começou a deixar a rodoviária para trás, seguindo pelas ruas conhecidas daquela cidade que, por tanto tempo, havia feito parte da sua vida.

Pela janela, Diego observava os prédios cinzentos, as ruas movimentadas e os lugares que antes faziam parte da sua rotina ficarem cada vez menores em sua visão.

Cada quilômetro percorrido parecia arrancar um pouco do peso que carregava nos ombros.

Era como se finalmente estivesse se libertando das amarras que aquele lugar representava para ele.

Dos momentos ruins.

Das lembranças que preferia esquecer.

E principalmente...

Das pessoas que nunca deveria ter conhecido.

Ele soltou um suspiro aliviado enquanto encostava a cabeça no banco, permitindo-se aproveitar aquela sensação de liberdade.

Pela primeira vez em muito tempo, o futuro parecia realmente pertencer a ele.

Parecia que o próprio ar estava mais leve, deixando-o tão feliz que decidiu comemorar aquele momento.

Abriu sua bolsa e pegou o chocolate caro que havia comprado especialmente para aquela ocasião.

Era um pequeno presente para si mesmo, ao qual nunca se permitiu desfrutar antes.

Uma forma de celebrar a nova fase que finalmente começava.

Porém, enquanto procurava o chocolate entre seus pertences, algo inesperado caiu sobre suas coxas.

Um envelope.

Diego franziu a testa ao olhar para aquilo.

Ele não se lembrava de ter colocado aquele objeto ali na noite anterior.

Curioso, pegou o envelope entre as mãos e analisou sua parte externa.

Não havia nome.

Não havia endereço.

Nenhuma informação sobre de onde aquilo havia surgido.

Apenas um simples envelope branco, agora um pouco amassado por ter ficado dentro de sua bolsa.

Sem entender aquilo, decidiu abri-lo.

No instante em que puxou a folha de dentro, sentiu um cheiro doce de perfume de morango invadir o ar.

Seu rosto se contorceu em incômodo.

Ele conhecia aquele cheiro.
E odiava lembrar da pessoa que o usava.

Mas logo tentou ignorar aquilo e voltou sua atenção para o papel.

Ao desdobrá-lo, seu corpo ficou completamente imóvel.

Aquela  letra.

Ele conhecia aquela letra.

E, antes mesmo de terminar de ler a primeira linha, seu estômago já começava a se revirar.

Então seus olhos correram pelo conteúdo da carta.

"ACABOU O TEMPO, SE DECIDA DE UMA VEZ!!

Olá, meu querido Diego...

Estou tão triste por você ter me feito fazer isso. Ainda não consigo acreditar que você pode ser tão insensível e me deixar desse jeito...

Depois de tudo o que fiz por você.

Depois de tanto tempo que te amei e mostrei isso diversas vezes...

Nós poderíamos estar vivendo nosso amor juntos, tendo uma casa grande cheia de crianças e animais, com um jardim enorme em cima de uma montanha onde poderíamos ver o pôr do sol juntos, de mãos dadas, até o final de nossas vidas...

Mas você simplesmente decidiu ir embora assim...

Tudo para ficar com aquela vadia destruidora de lares.

Mesmo magoada, sou boazinha o suficiente para te dar uma chance...

Eu estou com sua putinha aqui na minha casa.

Eu sei que você não a ama de verdade. Aposto que ela te enganou e por isso você está fazendo isso.

Mas não se preocupe.

Seu presente está aqui comigo.

Venha até meu apartamento, desista dessa ideia de viagem e me peça em casamento de joelhos até o meio-dia.

Se fizer isso, eu "dou um jeito" nessa mocreia e iremos viver juntos para sempre, como deve ser!!

Mas...

Caso você não apareça...

Bem.

Desculpe, Dieguinho.

Mas se você não for meu...

Não vai ser de mais ninguém.

Assinado: Ana Frontinele. ;⁠)

Ao terminar de ler, um arrepio subiu pela espinha de Diego.

Ele não conseguia acreditar que aquilo estava acontecendo.

Aquela mulher ainda estava atrás dele.

Mesmo quando finalmente estava indo embora daquele lugar.

Mesmo quando acreditava que tinha conseguido escapar.

Ela ainda havia encontrado um meio de alcançá-lo.

Diego inicialmente não queria sair da sua rotina, mas, devido às constantes perseguições e assédios de Ana — que havia se tornado obcecada por ele desde o dia em que entrou naquela empresa, há 4 anos —, ele viu aquela promoção como uma verdadeira boia salva-vidas para tirá-lo daquele inferno.

Principalmente depois de descobrir que o lugar para onde iria se mudar ficava perto de sua web namorada de longa data, alguém que ele sonhava há anos em finalmente conhecer pessoalmente.

Mas agora ele não conseguia acreditar no que lia.

Ele desejava desesperadamente que aquilo não fosse verdade.

Aquilo só poderia ser uma piada.

Tinha que ser uma piada.

Afinal...

Aquela mulher não iria tão longe assim.

Ou iria?

Antes que pudesse pensar mais sobre aquilo, um som de explosão ecoou vindo da cidade.

O barulho fez o trânsito parar e chamou a atenção dos passageiros, que começaram a olhar para trás tentando entender o que estava acontecendo.

Sem pensar duas vezes, Diego saiu correndo para fora do ônibus junto com outras pessoas.

E então ele viu.

A enorme nuvem de fumaça subindo no céu.

O lugar que ele estava tentando deixar para trás agora desaparecia diante dos seus olhos.

Mas, entre a fumaça e o caos, algo chamou sua atenção.

Fogos de artifício.

E três palavras brilhavam no céu, fazendo seu peito apertar enquanto lágrimas começavam a cair pelo seu rosto.

Ele segurou o próprio corpo, sem conseguir acreditar no que estava vendo.

ACABOU O TEMPO.

ACABOU O TEMPO!Stories to obsess over. Discover now