Prólogo

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Jeon Jungkook

Daegu, Coréia do Sul

Ano 2015

Na sexta-feira, enquanto meus colegas provavelmente contam as horas para se encontrar com os amigos e aproveitar o início do fim de semana, eu só consigo pensar em uma coisa: quanto tempo falta para eu voltar para casa. Para mim, a noite de sexta-feira nunca trouxe liberdade, diversão ou descanso. Pelo contrário, era o momento em que eu precisava estar mais atento, porque sabia exatamente o que me esperava atrás daquela porta. Cada minuto longe de casa era precioso.

O som dos meus tênis contra o asfalto molhado se mistura ao barulho incessante da chuva, mas, depois de algum tempo, até isso começa a me incomodar. A água despenca sobre Daegu sem dar trégua, acompanhada por rajadas de vento que atravessam minhas roupas. A temperatura está próxima dos dois graus, e o frio já se infiltrou até os ossos.

Meu moletom escuro, que normalmente uso por baixo de uma jaqueta jeans larga, está completamente encharcado. A camiseta que visto por baixo se cola ao meu corpo a cada passo, enquanto a calça cargo pesa por causa da água acumulada no tecido. As mangas da jaqueta estão pesadas e frias, e meus cabelos, antes cuidadosamente presos para trás, agora caem desordenados sobre a testa, pingando sobre meu rosto.

Qualquer pessoa sensata já teria procurado abrigo, eu não. Aperto a alça da mochila contra o ombro e continuo correndo. O frio, a chuva e o desconforto são insignificantes perto do que me espera em casa. Preciso chegar antes dele, preciso chegar até Chaewon.

Todos os dias, caminho cerca de dez quilômetros, cinco para ir e cinco para voltar, entre minha casa e o ensino médio. Na maioria das vezes, não me importo. Caminhar me ajuda a espairecer, a passar algumas horas longe de casa. Mas não às sextas-feiras, nesse maldito dia, cada minuto importa. Acelero o passo quando percebo que a noite já caiu. Meu peito começa a apertar porque sei que ele já deve ter chegado em casa. Isso significa que o pesadelo provavelmente começou.

É por isso que, todas as sextas-feiras, faço questão de chegar em casa antes dele. Infelizmente, hoje não consegui porque um dos meus professores me segurou depois da aula para reclamar da minha falta de esforço e do meu desempenho estar caindo ha algum tempo. Eu sabia que aqueles minutos eram preciosos. Sabia exatamente o que poderia estar acontecendo enquanto eu permanecia preso naquela sala. Mas não havia nada que eu pudesse fazer além de esperar que ele terminasse.

Agora, corro como se minha vida dependesse disso.

Quando finalmente alcanço a rua escura onde moramos, avisto imediatamente o carro estacionado na entrada da garagem. Meu coração dispara e atravesso os últimos metros quase tropeçando nas próprias pernas. Subo os degraus de dois em dois e quase arrombo a porta da frente quando escuto os gritos vindo de dentro.

- Deixa ela ir, Gihun! - O grito de Eunji atravessa a porta e me paralisa por um segundo enquanto meu sangue gela. Abro a porta com tanta força que ela bate contra a parede, e a cena diante dos meus olhos faz meu estômago se revirar. Eu conheço cada detalhe daquele pesadelo. A diferença é que, normalmente, sou eu quem está no chão. Sou eu quem apanha e eu que preciso engolir a dor para que Chaewon não veja. Mas, desta vez, é ela.

Minha irmãzinha de apenas sete anos está presa pelas mãos enormes de Gihun. O corpo pequeno treme sem controle, os ombros sacodem a cada soluço e os cabelos negros estão grudados ao rosto molhado escondido pela franja bagunçada, vejo suas lágrimas. Seus olhos, enormes e aterrorizados, percorrem a sala desesperadamente, procurando alguém que possa tirá-la dali. Então ela me vê e meu corpo inteiro estremece com seu olhar.

- Jung... - Minha garganta fecha, ela tenta respirar, mas o medo parece impedir o ar de chegar aos pulmões. - Guk... eu estou com medo. - Aquelas palavras me atingem como um golpe. Por um instante, não ouço mais a chuva, não ouço minha própria respiração. Não ouço os gritos de Gihun. Só ouço a voz dela, a voz da minha irmã pedindo por mim. Alguma coisa dentro de mim se rompe. Todo o medo desaparece e não penso nas consequências. Não penso no que ele pode fazer comigo. Não penso em nada, apenas nela.

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