09/11/2015
- Jeon Jungkook?
A voz feminina ecoou pelo corredor, fazendo o rapaz arrancar um dos fones do ouvido. Confirmou que o chamado era para si e levantou-se depressa, alisando a camisa antes de acompanhar a elegante ruiva até a sala de entrevistas.
Assim que cruzou a porta, seus olhos curiosos passearam pelo ambiente. O chão de taco ecoava cada passo dos saltos da mulher à sua frente, paredes claras faziam a mesa de madeira parecer ainda mais imponente. Vasos com plantas verdadeiras ocupavam os cantos da sala, enquanto quadros de traços modernos decoravam o espaço com uma elegância silenciosa. Jungkook não entendia nada de arte, mas tinha certeza de que cada um deles custava mais do que alguns meses do seu aluguel.
A ruiva apontou para uma cadeira de cor clara posicionada à frente de sua mesa, sentou-se e observou com calma Jeon fazer o mesmo.
Com alguns papéis do processo seletivo em mãos, a mulher sorriu educadamente e estendeu a destra ao mais novo.
-Prazer, Jeon, me chamo Jung Hyeon. Estive cuidando de seu processo e devo lhe dizer que estou empolgada com seu currículo. É sempre uma honra receber jovens como você aqui.
O acastanhado sorriu sem mostrar os dentes. Disfarçou o suor nas mãos, limpando-as discretamente na calça antes de corresponder ao aperto.
- Eu agradeço pela oportunidade, sra. Jung.
Os olhos esverdeados da mais velha repousaram sobre as folhas em sua mão, conferindo atentamente as informações ali antes de fazer sua primeira pergunta.
- Você ja sabe como nossas entrevistas funcionam. Não serão muitas perguntas, mas talvez sejam um pouco difíceis, pois aqui queremos conhecer o seu profissional, mas acima de tudo o seu diferencial. - hidratou-se com uma taça ao lado, antes de enfim começar com suas perguntas. - Quero saber quem você é, se apresente, do seu jeitinho mesmo. Prefiro que seja informal, se for verdadeiro.
Enquanto buscava a folha de redação que o candidato ja havia feito, para conferir as informações, esperava a resposta de Jungkook. Este, gaguejou com a voz baixa, antes de respirar fundo e começar sua apresentação. Sabia o estilo de discurso que eles queriam, nada muito monótono, algo que fugisse do óbvio.
- Eu acho que sempre fui muito ligado ao audiovisual, desde criancinha mesmo, sabe? Sempre gostei de estar atrás das câmeras, filmava, roterizavatrabalhos práticos do colégio, fazia documentários de viagens de família. Meu irmão mais velho e eu até gravávamos um jornal pros meus pais quando éramos crianças...-Ele ri pelo nariz, quase sem perceber. - Era bem ruim, mas eles assistiam como se fosse um jornal em horário nobre. Eu vim para Inchaeon recentemente, pouco menos de um ano, para fazer a faculdade de produções audiovisuais. Gosto muito de estudar sobre temas diversos, sou completamente fissurado em reportagens e filmagens antigas, gosto de entender como cada tecnologia funcionava em sua época. Inclusive... até pouco tempo eu ainda usava a mesma filmadora da infância. Ela pesa uma tonelada, a imagem é horrível... mas eu nunca consegui me desfazer dela.
A ruiva encarava e ouvia até surpresa. Quase ninguém fazia a entrevista realmente contando sobre si, eram sempre coisas como "sou perfeccionista" ou "sou meio workaholic", mas nunca com a sinceridade que Jeon acabara de ter.
O garoto estava mais leve, agora a mulher a sua frente conhecia sua voz e uma fração de sua história, era o suficiente para que não sentisse mais o frio na barriga tomar conta de si.
- Eu realmente gosto da forma que você descreve sua arte com tanto brilho, e quero conhecer melhor isso. Então, por exemplo, se eu te entregasse uma câmera agora e dissesse "conte uma história", sobre o que seria?
Os pensamentos de Jeon pareciam voar diretamente à Busan. Soltou um sorriso caloroso e orgulhoso, encarando a mulher.
- Eu provavelmente faria um documentário sobre a minha família. Acho que as melhores histórias que conheço começaram dentro da minha casa. Meus pais sempre foram incríveis e... eu cresci cercado de pessoas que me ensinaram a enxergar beleza nas coisas mais simples.
As orbes brilhantes do rapaz pareceram convencer a mulher. Ela queria alguém com aquele amor pelo que fazia.
- Mudando nossas perguntas de rota, quero saber por que veio até à Jornaly? Digo, qual o nosso diferencial que se conecta ao seu?
Jeon varreu outra vez o local com os olhos, antes de os pousar sobre as orbes esverdeadas da mulher.
- Eu cresci assistindo essa emissora. Acompanhei muitos anos de muitos jornalistas daqui e muitas produções audiovisuais daqui. Admiro muito o trabalho de Choi Taesung desde o meu ensino médio. Sou realmente muito fã do trabalho da emissora e sempre acompanhei de perto.
Essa resposta pareceu desanimar um pouco a mulher talvez por ser genérica demais, mas ainda sim, tinham mais pontos positivos do que negativos. Jeon notou sua mudança de expressão pontual e engoliu seco, sentindo seu nervosismo o atacar outra vez.
- Por fim, Jungkook... Por que você deveria entrar para a Jornaly?
- Essa é difícil...-Ele pensou por alguns segundos.- Eu acho que porque eu me importo de verdade com o que faço. Não vejo uma câmera como só um equipamento, nem uma reportagem como só uma pauta. Gosto de conhecer pessoas, entender histórias e encontrar um jeito de contá-las com respeito. Ainda tenho muito a aprender, mas acho que esse é um bom lugar para começar.
A mulher a sua frente demorou os olhos sobre seu rosto, que ja transparecia a ansiedade outra vez e, após alguns segundos, sorriu.
- Bem, muito obrigada, Jungkook. Isso é tudo.
Se levantou, guiou o garoto até o lado de fora e voltou até sua sala. Sem resposta, deixando apenas que a ansiedade do garoto buscasse uma solução para responder sua dúvida.
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Enquanto ouvia sua música e caminhava de volta para casa encarando a paisagem ao redor, Jeon pensava sobre a entrevista. Ele não sabia se passaria. Honestamente, sequer estava confiante, sabia que poderia ter soado genérico ou sonhador demais para ela. São duas coisas que os adultos de verdade parecem odiar. Jungkook achava engraçado saber que as pessoas costumam menosprezar justamente a autenticidade que vivem dizendo que almejam ou que admiram.
Ja na rua de seu apartamento, notou o toque inquietante de seu celular atrapalhar sua música. Atrapalhado, buscou o celular no bolso e olhou o visor brilhar.
"Mamãe".
Atendeu rapidamente e sorrindo.
- Oi mãe! Como as coisas estão por ai?
O silêncio do outro lado da linha foi ensurdecedor, principalmente após um soluço involuntário da mais velha.
- Mãe..?
Seu tom agora era preocupado e o sorriso sequer ocupava seus lábios.
- Filho... é o Seungho... achamos ele no quarto...
A voz chorosa, cortada e cansada da mulher, preocupava cada vez mais Jungkook.
O corpo de Jeon paralisou na calçada, ouvindo o que sua mãe dizia com tanto receio.
- Mãe, você ta me deixando preocupado. O que houve?
-Seu irmão, partiu filho... ele desistiu...
Um longo silêncio foi feito na linha, Jeon podia escutar o choro baixo da mãe e as palavras de conforto - saindo embargadas- de seu pai.
Seu irmão se foi... e da forma mais dolorosa que poderia o perder.
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Nota da autora
Esta obra abordou e abordará temas delicados, incluindo luto e prevenção ao suicídio. Meu objetivo é tratar esses assuntos com respeito, responsabilidade e sensibilidade, jamais romantizá-los ou incentivá-los.
Se a leitura despertou sentimentos difíceis em você, lembre-se de que você não precisa enfrentar tudo sozinho. Conversar com alguém de confiança ou buscar apoio profissional pode fazer diferença. O centro de valorização da vida possui atendimento 24h por chat em seu site ou por telefone, basta discar 188.
E lembre-se sempre, você não está sozinho.🤍
CZYTASZ
Até Que O Sol Te Encontre
FanfictionTodas as noites, Jungkook adormece esperando voltar ao mesmo lugar. Em seus sonhos, existe um reino banhado pelo sol, um bosque que parece saído de um conto de fadas e Jimin, o garoto por quem se apaixonou em uma vida que só existe quando seus olhos...
