Todas as quintas-feiras, Samuel Winchester entra no mesmo confessionário e repete as mesmas palavras:
- Padre... Eu pequei.
Mas seus pecados nunca são por atos. E sim, apenas sentimentos reprimidos que o Winchester carrega. Entre confissões, silênci...
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O sino da igreja marcava sete horas da manhã quando Castiel empurrou a pesada porta de madeira para o lado de dentro.
O rangido era antigo. Constante. E o moreno havia aprendido, ao longo dos anos, que toda igreja possuía sons próprios. Como o estalar discreto dos bancos quando os primeiros fiéis se ajoelhavam. O atrito da batina roçando contra o piso de pedra. O vento atravessando os vitrais coloridos, trazendo consigo o perfume úmido da manhã antes de se misturar ao incenso que queimava diante do altar. Era um lugar de paz. Sempre foi. Talvez fosse exatamente por isso que o conflito parecesse tão ofensivo ali dentro.
Castiel percorreu o corredor central com passos lentos, os dedos deslizando distraidamente sobre o rosário preso à cintura. Cumprimentou algumas pessoas com um aceno discreto. Um casal de idosos já ocupava o primeiro banco. Uma mulher acendia uma vela em silêncio. Uma criança tentava convencer a mãe de que conseguia ficar ajoelhada por mais tempo do que o irmão. Tudo parecia comum. Como em qualquer outra manhã. Como em qualquer outro domingo. E, ainda assim, havia um momento específico da semana que fazia toda aquela serenidade desmoronar.
Quinta-feira. Às cinco horas da tarde. O horário das confissões. Cas jamais admitiria isso em voz alta. Jamais. Mas havia deixado de enxergar aquele horário como um compromisso sacerdotal fazia meses. Era um horário que ele esperava, e odiava esperar. Tentou afastar o pensamento antes mesmo que criasse raízes. Fez o sinal da cruz quase por impulso, como se pudesse expulsá-lo da mesma forma que afastava uma tentação qualquer. O que, claro. Não funcionou. Nunca funcionava. Porque tentações comuns desaparecia. Aquela não.
A missa começou pouco depois, com as palavras saindo de seus lábios com a mesma firmeza de sempre. Leu o Evangelho. Falou sobre perdão. Sobre misericórdia. Sobre a capacidade infinita de Deus de acolher aqueles que se arrependiam sinceramente. É enquanto isso, os fiéis o ouviam atentos. Alguns emocionados. Outros apenas em silêncio.
Castiel conhecia quase todos pelo nome. Sabia quem perdera um parente naquele ano, quem enfrentava dificuldades financeiras, quem rezava diariamente por um filho distante. Era impossível ouvir tantas confissões sem carregar um pouco da dor alheia consigo. Era esse o papel de um sacerdote. Ouvir. Acolher. Guardar segredos que morreriam entre quatro paredes. Ele sempre acreditara ser capaz disso. Até conhecer Samuel Winchester.
A primeira confissão foi absolutamente comum. Samuel é um homem alto. Educado. Com uma voz grave, mas que carregava insegurança. Dissera que era novo na paróquia. Que passara anos afastado da igreja e desejava recomeçar. E Castiel, claro. O acolhera como acolhia qualquer outro fiel. Sem perguntas desnecessárias ou curiosidade. Ele apenas o ouvia. Como Samuel queria. Depois daquela tarde, o Winchester voltou na semana seguinte. E na outra. E na outra, nunca faltando. Sempre no mesmo horário. Sempre no último atendimento do dia.
No começo, Castiel acreditou tratar-se de um homem excessivamente zeloso com a própria fé. Algumas pessoas realmente precisavam falar. Precisavam ser escutadas. Não havia nada de incomum nisso. Não mesmo. Mas, pouco a pouco, as confissões mudaram. Os pecados deixaram de ser ações, e transformaram-se em pensamentos. Depois, em sentimentos. Até que um dia...