A chuva miúda de Londres nunca perdoava o horário de saída da escola. Era sempre àquela hora, pontualmente às quatro da tarde, que o céu cinzento e pesado de outubro decidia desabar sobre o bairro nobre de Kensington, transformando o asfalto numa pista escura, molhada e reluzente. O vapor denso que saía dos bueiros misturava-se com o ar gelado do outono, criando uma névoa espessa que envolvia as tradicionais fachadas vitorianas de tijolos vermelhos e as carruagens modernas que deslizavam silenciosamente pelas ruas.
Para Hinata Hyūga, aquele dia já estava a ser um verdadeiro pesadelo antes mesmo de colocar os pés no jardim de infância.
Ajeitou o sobretudo bege de corte impecável sobre os ombros, segurando o guarda-chuva preto de marca com uma firmeza quase dolorosa. Tinha acabado de sair de uma reunião exaustiva na prestigiada firma de contabilidade onde trabalhava como secretária executiva — um prédio espelhado, frio e implacável no centro financeiro de Londres, onde números não podiam errar, balanços precisavam ser perfeitos e qualquer falha pessoal era tratada como inaceitável. O salto alto estalava no passeio de pedra molhada enquanto ela apressava o passo, sentindo o peito apertar de pura ansiedade.
Um telefonema urgente da diretora. Às três e meia da tarde. Em pleno fecho de mês contábil.
"Dona Hinata, precisamos da sua presença imediatamente na escola. A Scarlet esteve envolvida num incidente grave durante o recreio."
A palavra "incidente" ecoava na sua cabeça como um alarme incômodo. Scarlet tinha apenas seis anos. Era uma menina doce, sensível, mas que carregava um gênio defensivo e forte quando se sentia ameaçada — uma herança amarga de um passado que Hinata tentava a todo o custo apagar da memória. Desde que o ex-companheiro a abandonara ainda grávida, o mundo de Hinata resumira-se a trabalhar incansavelmente para garantir que nada faltasse à filha naquela casa enorme de três andares que herdara, mantendo uma rotina milimetricamente calculada onde não havia espaço para o caos.
Ao passar pelos imponentes portões de ferro da escola primária, Hinata respirou fundo, tentando compor a postura impecável de sempre. Limpou o pingo de chuva que caíra na bochecha, alinhou as mechas do cabelo escuro sobre o casaco e caminhou pelos corredores silenciosos do edifício antigo.
Quando se aproximou da porta de madeira maciça com a placa dourada onde se lia "DIRETORIA", ouviu o som de uma voz grave e alterada lá de dentro. Uma voz alta, arrastada, com um sotaque carregado e peculiar que definitivamente não pertencia à aristocracia britânica.
— Mas senhora diretora, a minha Lily não é de arranjar confusão! Ela só estava a brincar com o carimbo de tinta! — dizia a voz, num tom que misturava uma defensiva paternal e uma frustração profunda.
— Nee, papa! (Não, papai!) A garota que começou! Ela empurrou a minha cadeira primeiro! — respondeu uma vozinha infantil, fluida, mas com uma pronúncia holandesa perfeita antes de mudar rapidamente para o português. — Eu só estava a pintar o meu desenho, papai! Ela é que é chata e mandona!
— Rustig maar, lieverd... (Calma, meu amor...) — murmurou o homem de volta para a filha, tentando baixar o tom de voz e conter a impaciência. — A gente já vai resolver isto aqui em cima.
Hinata hesitou por meio segundo antes de bater duas vezes na madeira e abrir a porta.
O cenário no interior do gabinete era um caos silencioso. A diretora, a Sra. Albright, estava sentada atrás da sua pesada mesa de mogno, com os óculos de leitura na ponta do nariz e uma expressão de profunda exaustão estampada no rosto enrugado. A um canto da sala, duas garotas de seis anos ocupavam cadeiras de madeira, viradas praticamente de costas uma para a outra, com as respetivas mochilas no chão.
Scarlet, a filha de Hinata, tinha a farda da escola completamente manchada de tinta guache azul na saia plissada. Estava com o rosto emburrado, os braços cruzados sobre o peito e fungava baixinho, tentando segurar o choro de raiva. Ao lado dela, uma garotinha loira de olhos azuis incrivelmente vivos e bochechas coradas — Lily — exibia um enorme borrão de tinta vermelha na camisa branca. Lily falava perfeitamente a língua do pai, mas na escola usava quase sempre o português para se fazer entender melhor com os colegas, alternando entre os dois idiomas com uma facilidade impressionante.
E em pé, bem no meio do gabinete, estava o pai da garota loira.
Hinata parou por um segundo no limiar da porta, involuntariamente intimidada pela presença dele. Ele era enorme. Não apenas alto, mas largo de ombros, com uma cabeleira loira espetada e desalinhada que parecia desobedecer a qualquer pente ou norma social. Vestia uma farda de trabalho gasta — um macacão de lona azul com manchas escuras de graxa nos joelhos e o logotipo desbotado de uma empresa de manutenção no peito. Tazia as mãos grossas, calejadas e com marcas de trabalho pesado cruzadas sobre o peito. A jaqueta de cabedal puído que trouxera vestida cheirava fortemente a metal, chuva e graxa fresca de motor.
O choque visual entre os dois era absurdo, quase violento. Ela, impecável, cheirando a perfume francês caro, de maquiagem leve e com uma pasta de couro sob o braço; ele, com as botas de trabalho sujas de lama a secar no tapete da diretora, exausto e visivelmente vindo direto de um canteiro de obras improvisado.
— Boa tarde — disse Hinata, a voz suave, mas impregnada daquele tom formal e frio que treinara para usar no trabalho. — Lamento o atraso. Houve um problema crítico com o trânsito na saída do centro financeiro.
O homem virou-se para ela. Os olhos dele eram de um azul absurdamente claro e cristalino, um contraste bizarro com a pele bronzeada pelo trabalho pesado ao ar livre e a barba por fazer. Ele mediu-a de alto a baixo por uma fração de segundo — não com malícia, mas com a surpresa genuína de quem via uma figura saída diretamente de um anúncio de revista de luxo entrar naquela sala abafada.
— Boa tarde, Sra. Hyūga. Por favor, sente-se — pediu a Sra. Albright, apontando para a cadeira vaga ao lado do homem. Hinata hesitou um segundo antes de se sentar, ajustando a saia e mantendo uma distância física calculada. O homem apenas assentiu com a cabeça num gesto rápido e carrancudo, voltando a atenção para a diretora. — Como eu estava a explicar ao Sr. Uzumaki, a situação entre a Scarlet e a Lily ultrapassou todos os limites do razoável.
— O que aconteceu exatamente? — perguntou Hinata, olhando severamente para a filha, que apenas encolheu os ombros na cadeira pequena.
— Uma verdadeira guerra de tinta no atelier de artes — suspirou a diretora, massageando as têmporas. — A Lily pegou no material que a Scarlet estava a usar sem pedir licença prévia. A Scarlet reagiu atirando-lhe com o pincel sujo, e a partir daí... bem, o resultado está à vista nas fardas de ambas. E esta não é a primeira vez. Há três semanas que os professores relatam que elas trocam provocações constantes na sala de aula. Elas simplesmente não se suportam.
— A Lily disse-me que a outra menina lhe chamou nomes primeiro — interveio o homem, a voz profunda ressoando com força pelo pequeno gabinete. O sotaque holandês arrastava os "r"s de uma forma marcada e rústica. — Ela não atira tinta assim do nada, senhora diretora.
— A minha filha não chama nomes a ninguém sem razão, Sr. Uzumaki — respondeu Hinata imediatamente, virando o rosto na direção dele. A sua voz saiu fria, cortante, sustentada pela postura defensiva de uma mãe que já tinha visto a filha sofrer demais e que não admitia acusações levianas. — A Scarlet é uma criança extremamente bem educada. Se ela reagiu, foi porque foi provocada ou agredida verbalmente.
O homem — Naruto — olhou para Hinata de cima para baixo novamente. Não havia raiva nos olhos dele, apenas uma canseira profunda, de quem já tinha trabalhado dez horas debaixo de chuva antes do meio-dia. Ele passou a mão grande e calejada pelo cabelo loiro, soltando um suspiro pesado que cheirava levemente a café barato de máquina.
— Escute aqui, dona... — começou ele, num tom mais baixo, arrastando as palavras em português com aquele sotaque pesado. — Eu não estou aqui para fazer julgamentos de quem é a boa e quem é a má da fita. Eu tive de largar um serviço de emergência num cano estourado no subsolo para vir aqui correndo. A única coisa que eu sei é que a minha filha voltou para casa a chorar na semana passada por causa de picardias da sua garota.
— O senhor está a insinuar que a culpa é exclusivamente da minha filha?! — Hinata ergueu o queixo, os olhos claros fixando-se nos dele com firmeza. A distância social entre eles era evidente, mas a proteção maternal de Hinata empatava com a bruteza defensiva dele.
— Nee, papa, escuta! (Não, papai, escuta!) A saia dela já estava suja! — interrompeu a pequena Lily, olhando para o pai em holandês para tentar se explicar, mas mudando logo para o português ao apontar o dedo para Scarlet: — Ela me empurrou primeiro!
— Eu não empurrei! Mentirosa! — gritou Scarlet da sua cadeira, cruzando os braços com mais força e batendo com os pés no chão.
— Chega! As duas! — interrompeu a Sra. Albright, batendo com a caneta na mesa. — O ponto aqui não é procurar um único culpado, mas sim resolver a convivência diária. Se esta situação continuar na próxima semana, serei obrigada a suspender ambas por dois dias letivos. E como sei que ambos os senhores trabalham, imagino que uma suspensão seja um transtorno enorme.
Hinata fechou os olhos por um segundo, sentindo uma pontada aguda de dor de cabeça. Uma suspensão? Ela não podia faltar ao trabalho de forma alguma. A firma de contabilidade onde trabalhava não tolerava ausências por motivos pessoais, e a sua chefe já olhava de lado para o facto de ela ser uma mãe solteira que precisava sair pontualmente para buscar a filha.
Ao seu lado, viu o rosto de Naruto fechar-se numa linha dura e preocupada. Para ele, ficar dois dias sem trabalhar significava dois dias inteiros sem faturar um único tostão. E num T2 modesto e pequeno, onde a renda estava no limite e as contas se acumulavam sobre o balcão da cozinha, perder dias de serviço simplesmente não era uma opção viável. Ele precisava daquele dinheiro para alimentar Lily, comprar as roupas que a menina perdia rapidamente e manter a casa aquecida durante o inverno rigoroso que se aproximava.
— O que sugere, então? — perguntou Hinata, respirando fundo e tentando recuperar a compostura profissional.
— Uma advertência por escrito hoje no registo das alunas, mas com uma condição obrigatória — disse a diretora, encarando os dois pais por cima dos óculos. — Elas vão ter de fazer um projeto de artes juntas para a feira da escola no final do mês. Vão ter de aprender a trabalhar em equipa. E isso vai exigir que os senhores colaborem diretamente para que elas se encontrem fora do horário escolar para preparar o trabalho.
Hinata e Naruto olharam-se ao mesmo tempo, apanhados de surpresa.
O olhar dele caiu involuntariamente sobre o relógio de ouro discreto no pulso de Hinata, sobre a mala de pele de marca e o casaco de corte perfeito. O olhar dela caiu sobre as unhas dele, sujando-se com resíduos escuros de graxa que não saíam facilmente, e sobre os sapatos de trabalho gastos e estragados pela água. Dois mundos diametralmente opostos que nunca se deveriam cruzar naquela cidade enorme, forçados agora a partilhar o mesmo espaço e tempo.
— Por mim... tudo bem — murmurou Naruto, a voz baixa, arrastada e visivelmente contrariada. Ele olhou para a pequena Lily, que continuava de cabeça baixa, brincando com a barra da camisa suja. — A gente faz essa coisa funcionar. Não tenho tempo para suspensões.
— Se é a única alternativa para evitar a suspensão da Scarlet... que assim seja — concordou Hinata, a voz mantendo o tom estritamente formal e distante. — Organizaremos os horários.
A reunião terminou minutos depois, com a assinatura rápida dos papéis de advertência sobre a mesa da diretora.
No corredor largo e gelado da escola, o ar parecia ainda mais pesado. Hinata ajoelhou-se com elegância para ajudar Scarlet a vestir o casaco grosso por cima da farda manchada de azul, falando com a filha num tom baixo, firme e repreensivo. A menina mantinha um bico enorme nos lábios, recusando-se a olhar para o lado.
A poucos metros dali, o contraste era evidente. Naruto ajoelhou-se sem qualquer preocupação com a lama nas botas ou o chão de linóleo frio. Ficou exatamente ao nível da filha. Não ralhou, não ergueu a voz, nem demonstrou a frustração que sentia pelo dia de trabalho perdido. Com a sua mão enorme e calejada, limpou com uma delicadeza impressionante uma lágrima teimosa que escorria pelo rosto da garotinha e ajeitou a franja loira que caía sobre os olhos azuis dela.
— Alles goed, lieverd? (Tudo bem, meu amor?) — murmurou ele num tom infinitamente doce e protetor, a voz tão suave que nem parecia o mesmo homem rude que enfrentara a diretora há poucos minutos. — Já passou, sim? O papá não está zangado contigo... mas quando chegarmos a casa a gente vai conversar a sério sobre essa tinta. Agora vamos embora que o papá ainda precisa fazer o jantar e preparar as tuas coisas.
— Ja, papa... (Sim, papai...) — respondeu Lily baixinho, fungando e abraçando o pescoço do pai com força. — Eu estou com fome.
— Ik weet hoe het is, meid. (Eu sei como é, querida.) A gente come uma sopa bem quente — disse ele, dando-lhe um beijo carinhoso na bochecha corada.
Hinata acabou de apertar os botões do sobretudo da filha e, involuntariamente, olhou para o lado ao ouvir o som daquela língua estrangeira. Viu a forma como aquele homem gigantesco e bruto se encolhia no chão só para dar conforto à filha, a forma dedicada e amorosa como a olhava, apesar das roupas gastas, da graxa nas mãos e do aspeto exausto. Por um milismo de segundo, os olhos azuis de Naruto ergueram-se e cruzaram-se com os dela novamente.
Ele levantou-se com algum esforço nas costas, ajustando a mochila rosa de Lily num dos seus ombros largos e segurando a mão pequena da filha com a sua mão gigante e calejada.
Caminharam juntos para fora do edifício principal, saindo para a chuva miúda de Londres. Enquanto Hinata caminhava em direção ao seu carro topo de gama estacionado do outro lado da rua, Naruto conduziu a filha até ao canto do estacionamento escolar onde estava o seu meio de transporte.
Ali estava estacionado o seu velho companheiro de quatro rodas: um Ford Escort antigo, de cor verde-musgo desbotada, com a pintura gasta pelo tempo, o para-choques ligeiramente amassado num canto e um motor que gemia alto e tossia sempre que ele virava a chave na ignição. Não era nada elegante, a ferrugem já ameaçava as cavas das rodas e o aquecimento demorava dez minutos a funcionar, mas era o que ele tinha conseguido pagar à vista com as suas próprias economias. Era o carro que o levava de um lado para o outro de Londres para carregar ferramentas, tubos de cobre e esperança.
Naruto abriu a porta do carona com cuidado, ajudando Lily a subir para o banco estofado que já mostrava a espuma a saltar num dos cantos. Apertou o cinto de segurança da menina, deu a volta pelo capô fumegante e entrou no lado do motorista, fechando a porta com um baque seco.
O motor engasgou duas vezes antes de pegar, soltando uma pequena nuvem de fumaça cinzenta pelo escapamento. Naruto engatou a primeira marcha com força, controlando a embraiagem gasta, e começou a guiar devagar pela rua escura, deixando para trás a imponência de Kensington.
Hinata, já dentro do seu carro aquecido e confortável, viu o velho carro verde-musgo passar a seu lado na rua, espirrando água da sarjeta antes de desaparecer na neblina londrina.
Dois pais solteiros. Duas crianças teimosas de seis anos. Duas realidades financeiras e sociais que não podiam ser mais distantes — separadas por carros de luxo e carros velhos, por mansões vitorianas e apartamentos modestos. Nem Hinata, no seu mundo protegido, nem Naruto, na sua luta diária sobre rodas enferrujadas, podiam imaginar que aquele encontro desastroso e frio na diretoria era apenas o primeiro capítulo de uma história que mudaria as suas vidas para sempre.
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Olá a todos ! Esta é a minha primeira história , espero que vocês gostem ! Vou tentar publicar o máximo que conseguir . Se quiserem podem dar ideias para os próximos capítulos 😉
Beijinhos e abraços , meus amores ! Até ao próximo capítulo !❤️❤️
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A Força De Te Amar - NaruHina AU
FanfictionDuas realidades opostas. Duas crianças de seis anos. Um amor que nasceu do caos. Nas ruas frias de Londres, Hinata Hyūga e Naruto Uzumaki não podiam pertencer a mundos mais diferentes. Ela é uma mulher elegante e reservada que trabalha como secretár...
