Existe uma diferença brutal entre o barulho da vitória e o silêncio que segue uma derrota no Santiago Bernabéu.
Quando você ganha, a estrutura inteira de concreto e aço parece pulsar, vibrando sob seus pés enquanto 80 mil vozes cantam e o ar cheira a suor, fumaça e glória. Mas quando você perde ── especialmente quando perde do jeito que nós perdemos hoje, jogando mal, sem alma, errando passes bobos e parecendo um bando de garotos perdidos ──, o estádio simplesmente morre. E o silêncio que sobra não é calmo. É um silêncio pesado, sufocante, carregado de um julgamento implacável que atravessa as paredes de concreto e chega direto ao vestiário.
Estávamos todos ali, sentados em nossas respectivas cadeiras no vestiário principal do Real Madrid. O chão de piso escuro reluzia sob as luzes frias de LED, manchado de lama, marcas de chuteiras e fitas de joelho descartadas. O ar estava denso de suor e do cheiro forte de spray analgésico.
Eu estava inclinado para a frente, com os cotovelos apoiados nos joelhos, os dedos entrelaçados e a cabeça baixa. A camisa 5, encharcada de suor e impregnada pela grama do campo, pesava como uma armadura de chumbo sobre meus ombros. Eu sentia meu coração batendo na garganta, não apenas pelo cansaço do jogo, mas pela raiva. Uma raiva quente e descontrolada que subia pelo meu peito a cada segundo.
Dois a zero. Em casa. Contra um adversário que deveríamos ter atropelado antes do intervalo.
A minha camisa estava rasgada na gola por causa de um puxão no segundo tempo, o meu joelho esquerdo latejava após uma entrada dura que o árbitro sequer marcou falta, e os meus ouvidos ainda ecoavam as vaias da torcida no momento em que o apito final soou. O Bernabéu não tolera a apatia. E hoje, fomos apáticos.
À minha esquerda, Vini Jr. mantinha as mãos sobre o rosto, balançando a cabeça em negação estática. À minha direita, Luka assentia devagar, encarando o nada com o olhar fixo de quem já tinha visto todas as eras daquele clube, mas que ainda se recusava a aceitar a derrota. Ninguém falava uma palavra. Ninguém ousava. O vestiário do Real Madrid, com todas as suas estrelas, seus salários milionários e seus títulos mundiais, parecia um velório.
E então, o som das portas duplas de vidro se abrindo quebrou o silêncio.
Passos firmes ressoaram contra o piso cerâmico. Não eram os passos indecisos de um assistente ou a caminhada calma do nosso antigo treinador. Eram os saltos de botas de couro pesado, marcando um ritmo ritmado e inflexível.
Luísa Castellani tinha entrado na sala.
Apertei meus dedos com mais força, sentindo a pele dos meus nós dos dedos clarear, mas não levantei o olhar de imediato. Apenas a presença dela já mudava a pressão atmosférica do ambiente.
Faziam apenas três semanas desde que a diretoria cometeu a loucura ── aos olhos da imprensa esportiva global ── de contratá-la. Luísa Castellani. Apenas trinta e quatro anos, com um histórico impecável e revolucionário no futebol alemão e italiano, mas sem uma única gota de experiência sob a pressão desumana de Madri. A primeira mulher a assumir o comando técnico do time masculino principal do Real Madrid.
A imprensa passou os últimos vinte dias discutindo se ela teria "pulso firme" para lidar com um vestiário repleto de egos gigantescos. Os analistas de TV diziam que ela era inteligente demais para o próprio bem, teórica demais, rígida demais.
E nos últimos vinte dias, eu tinha aprendido a odiar absolutamente tudo nela.
── Levantem a cabeça ── a voz dela soou.
Não foi um grito. Luísa nunca gritava. Essa era a pior parte. A voz dela era limpa, afiada e cortante, proferida num espanhol impecável enriquecido por um sotaque italiano sutil. Era o tom de voz de alguém que nunca na vida tinha duvidado de uma decisão própria.
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Além do Ódio | Jude Bellingham
FanfictionQuando o talento de Jude Bellingham desmorona no real Madrid, a nova treinadora, Luísa Castellani, desafia seu ego. Entre rivalidade e superação, eles transformam ódio em amor.
