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Operação Resgate do Papai Izu

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  O problema de ser casado com Izuku Midoriya era que, tecnicamente, o Japão inteiro achava que tinha um pedacinho dele. Shoto lidava bem com isso na maior parte do tempo. Ele entendia o peso do título de Símbolo da Paz e admirava a luz que o marido ômega irradiava para o mundo. O sorriso de Izuku era um patrimônio nacional, e a sua gentileza era o pilar da sociedade heróica.
  Na maior parte do tempo, Shoto era o herói implacável e o marido compreensivo. Mas havia momentos em que o instinto de um alfa lúpus, especialmente um tão devoto quanto ele, simplesmente falava mais alto.
  Era um sábado de primavera excepcionalmente ensolarado no Parque Central de Musutafu. A Agência Todoroki-Midoriya estava promovendo um evento beneficente de arrecadação de fundos para orfanatos locais. O clima era de festa, com barraquinhas coloridas, crianças correndo com balões e o aroma doce de algodão-doce flutuando no ar.
  Longe da aglomeração principal, sentado num banco de madeira sob a sombra agradável de uma cerejeira, Shoto observava o movimento. O Herói Número Dois vestia roupas casuais que mal escondiam os ombros largos e a postura de quem estava sempre em alerta. No entanto, o seu olhar bicolor, geralmente tão afiado e indecifrável para a mídia, estava completamente derretido enquanto acompanhava a miniatura de gente sentada ao seu lado.
  Fuyuki Todoroki-Midoriya, com os seus recém-completados cinco aninhos de idade, era a verdadeira obra-prima daquela família. O omegazinho era uma mistura perfeita e delicada dos dois maiores heróis do país. Ele tinha a pele alva como a neve e fios de cabelo incrivelmente brancos e lisos, que hoje estavam cuidadosamente presos de um lado por uma presilhinha de abelha. O rostinho redondo era adornado por uma constelação de sardinhas fofas que se espalhavam pelo nariz, exatamente iguais às de Izuku, e os seus olhos eram duas grandes e brilhantes esmeraldas.
  Fuyuki usava um macaquinho jeans sobre uma blusinha amarela pastel e calçava os seus inseparáveis tênis All Stars, também amarelos, que não alcançavam o chão e ficavam balançando no ar. Ele estava muito concentrado em não deixar o seu picolé de morango pingar na roupa, exalando um cheirinho doce e puro de mel que era a sua marca registrada. Ele era um menino dócil, extremamente educado e que preferia brincar de festa do chá a assistir a lutas na televisão.
  A uns quinze metros dali, Izuku atendia a uma longa fila de fãs. O Símbolo da Paz sorria, dava autógrafos, bagunçava o cabelo das crianças e exalava aquele aroma de baunilha morno e acolhedor que Shoto tanto amava. Tudo estava indo perfeitamente bem, até que a fila de civis acabou e um herói novato, um alfa recém-estreado de outra agência, decidiu se aproximar.
  O rapaz era alto, tinha um sorriso de comercial de creme dental e, aparentemente, não conhecia o conceito básico de espaço pessoal.
Shoto cruzou os braços sobre o peito largo, estreitando os olhos. Ele observou, em um silêncio perigoso, o novato gesticular animadamente e rir de forma exagerada. Mas o que realmente fez o sangue do lúpus ferver foi o momento em que o rapaz, num gesto de falsa camaradagem, apoiou a mão no ombro de Izuku e inclinou o rosto para perto dele, sussurrando algo que fez o Símbolo da Paz piscar, claramente pego de surpresa.
  Izuku, sendo a pessoa gentil que era, apenas deu um sorrisinho sem graça e tentou dar um passo sutil para trás. Mas o novato acompanhou o movimento, invadindo a bolha de baunilha novamente.
  No banco sob a cerejeira, a temperatura ambiente despencou quase dez graus em questão de segundos. A garrafinha de água que repousava ao lado de Shoto começou a trincar, congelando de dentro para fora. O seu cheiro amadeirado de cedro, normalmente tão calmo e reconfortante para a sua família, tornou-se espesso, frio e avassaladoramente territorial.
  Fuyuki parou de chupar o próprio picolé. O omegazinho piscou os cílios brancos, levantou a cabecinha e acompanhou o olhar fixo do pai gigante. O cérebro infantil e perspicaz de Fuyuki processou a cena rapidamente: o seu Papai Zu parecia acuado, e aquele moço estranho estava invadindo o espaço do seu ômega favorito no mundo.
  O cheirinho de camomila de Fuyuki oscilou. Ele não fez escândalo, não gritou e não fez birra, porque o seu coraçãozinho era brando demais para isso. Em vez disso, ele franziu as sobrancelhas, formando o biquinho emburrado mais adorável e de partir o coração da face da Terra. O bebezinho escorregou do banco de madeira, parou na frente de Shoto e puxou a barra da camisa escura do pai.
— Papai Sho... — a vozinha mansa soou quase num sussurro triste, carregada de um ciúme puramente inocente. — Aquele moço não sabe que o Papai Zu é só nosso?
  Shoto olhou para baixo. A expressão letal do Herói Número Dois suavizou-se por um milésimo de segundo ao ver a carinha indignada do seu pinguinho de neve. Ele suspirou, um som baixo e barítono, e ofereceu a sua mão gigantesca e cheia de cicatrizes para o filho. — Acho que ele não sabe, Fuyu. Nós deveríamos lembrá-lo de forma educada, não acha?
  Fuyuki assentiu com a maior seriedade do universo. Ele agarrou dois dedos da mão do pai com a sua mãozinha miúda, e os dois começaram a marchar em direção à barraquinha.
  Quando eles se aproximaram o suficiente, a voz do herói novato finalmente ficou nítida. "...então eu estava pensando, Midoriya-san, já que nós dois temos folga no domingo, quem sabe a gente não pudesse tomar um café? Só nós dois. Para trocar umas ideias sobre táticas de resgate, sabe? Eu adoraria aprender algumas coisas... de perto."
Izuku abriu a boca, as bochechas sardentas levemente rosadas de puro constrangimento, provavelmente buscando no fundo da alma a desculpa mais gentil possível para não ofender o colega de profissão. Mas ele não precisou dizer uma única palavra.
  Uma lufada de ar congelante varreu as costas do herói novato, fazendo os pelos da nuca do rapaz se arrepiarem violentamente. Quando ele virou o rosto, deu de cara com Shoto Todoroki. O alfa lúpus não estava em posição de combate, não havia ativado as suas chamas e nem levantado a voz, mas a sua simples presença — a postura colossal, o olhar bicolor fixo e sem brilho, e aquele cheiro de cedro que parecia esmagar os pulmões de quem estivesse perto — era o suficiente para fazer qualquer instinto de sobrevivência gritar.
— Ele não tem folga no domingo — Shoto informou. A voz era baixa, polida, mas cortante como uma lâmina de gelo. — E a agenda dele para encontros com outros heróis está fechada por tempo indeterminado.
  O novato engoliu em seco, pálido como um fantasma, dando um passo rápido e desesperado para trás, finalmente tirando a mão do espaço de Izuku. "T-Todoroki-san! Eu não... eu só estava sugerindo um..."
  Antes que o clima ficasse ainda mais intimidador, Fuyuki decidiu que era a sua vez de agir. O omegazinho, que estava escondido atrás da perna grossa de Shoto, deu um passinho à frente. Os All Stars amarelos pisaram firme na grama.
  Com as mãozinhas cruzadas nas costas e o biquinho ainda moldando o rostinho cheio de sardas, Fuyuki olhou para cima, encarando o novato com as suas grandes esmeraldas.     Diferente da maioria das crianças mimadas que gritariam "ele é meu", Fuyuki usou a educação impecável que os pais lhe deram, mas com aquele tom inabalável de quem estava defendendo o seu bem mais precioso no mundo inteiro.
— Com licença, senhor herói — Fuyuki disse, a vozinha clara e mansa soando no meio do silêncio tenso. — O meu Papai Zu é muito ocupado. Ele não pode tomar café da tarde com você. No domingo, nós temos que montar um castelo de blocos no tapete da sala, e o Papai Sho vai fazer panquecas de morango pra gente. Então ele não tem tempo pra mais ninguém.
  Izuku ofegou, cobrindo a boca com as duas mãos. Ele olhou para Shoto e depois para Fuyuki.
O novato, percebendo a gafe monumental que havia cometido ao tentar flertar com o marido do Herói Número Dois na frente do próprio e do filho deles, ficou vermelho de vergonha e pavor. Ele curvou-se num ângulo perfeito de noventa graus. "E-Eu entendo perfeitamente! P-Peço mil desculpas! Com licença, Midoriya-san, Todoroki-san... pequeno príncipe. T-Tenham um ótimo evento!" O rapaz virou as costas e praticamente correu pelo gramado do parque, sumindo no meio da multidão antes que Shoto pudesse sequer piscar.
  Assim que o estranho desapareceu, o ar ao redor deles voltou a esquentar. O cheiro territorial de cedro foi, aos poucos, se acalmando.
Fuyuki virou-se para Izuku. Ele esticou os bracinhos curtos para o alto, ainda com o olhar pidão e o lábio inferior tremendo de leve, como se tivesse acabado de sobreviver a uma grande ameaça. — Papai Zu...
  Izuku não aguentou. A sua baunilha explodiu numa doçura tão intensa, apaixonada e derretida que ofuscou completamente qualquer cheiro de doce do parque. O Símbolo da Paz jogou-se de joelhos na grama e puxou o filho para um abraço apertado, enchendo o rostinho de Fuyuki com dezenas de beijos estalados e rápidos, arrancando uma risadinha gostosa do bebê.
— Ah, céus, vocês dois são inacreditáveis! — Izuku riu alto, com os olhos verdes brilhando de lágrimas de puro amor e diversão. Ele aninhou Fuyuki no colo e olhou para cima, encarando Shoto. — Ficaram com ciúmes? Vocês sabiam que eu jamais aceitaria tomar café com ele, não é? Eu só estava tentando achar uma forma de dizer não sem magoá-lo!
  Shoto aproximou-se lentamente, a expressão dura derretendo como neve ao sol. Ele ajoelhou-se na grama ao lado de Izuku e levou a mão grande aos cachos verdes do marido, afagando-os com uma delicadeza e devoção absolutas. O seu cheiro finalmente se misturou à baunilha e à camomila, restaurando a bolha invisível de segurança que era o lar deles.
— Ninguém precisa inventar desculpas quando eu estou por perto para dizer a verdade — Shoto respondeu calmamente. Ele inclinou-se e deixou um beijo demorado e carinhoso nos lábios de Izuku, ignorando completamente se havia repórteres ou fãs olhando de longe. — Além disso, o Fuyuki tem toda a razão. A nossa agenda de domingo está cheia. Panquecas e castelos no tapete não podem ser cancelados por ninguém.
Fuyuki, seguro no calor do colo do Papai Zu e sentindo a presença imensa do Papai Sho como um escudo protetor ao redor deles, soltou um longo suspiro de alívio. O biquinho sumiu, dando lugar ao seu sorriso banguela, dócil e radiante de sempre.
— Papai Zu, o seu cheirinho é só nosso, não é? Pra sempre? — Fuyuki perguntou, escondendo o rosto sardento na curva do pescoço de Izuku.
— Inteirinho de vocês, meu pinguinho de neve. Daqui até além das estrelas — Izuku garantiu, fazendo um carinho nas costas pequenas do filho.
  Com a ameaça devidamente neutralizada e o amor declarado de forma tão pura, Shoto ajudou Izuku a se levantar. De mãos dadas, com Fuyuki saltitando no meio dos dois heróis gigantes, a família voltou a caminhar pelo parque. O resto do Japão poderia ficar com as revistas, os autógrafos e a imagem dos heróis invencíveis. Shoto e Fuyuki só precisavam saber que a baunilha pertencia a eles, e com isso, o universo estava em perfeita paz.

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