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Em um belo dia, o ômega saiu para o bosque ao sul da vila, como fazia todas as manhãs. A névoa ainda se agarrava às raízes das árvores antigas, e o canto distante dos pássaros parecia guiá-lo por entre os caminhos que só ele conhecia tão bem. Com cuidado, ele separava folhas, raízes e pequenas flores, cada uma com seu propósito, lembrando-se das palavras do pai, o grande bruxo que o acolhera ainda filhote. Seu cesto já começava a pesar quando decidiu seguir mais adiante, até a barra do rio, um lugar onde a água doce encontrava o início da correnteza mais forte. Ali, diziam, cresciam ervas raras, nutridas por dois mundos. O som da água correndo era mais intenso naquele ponto. Ele se abaixou próximo às pedras úmidas, observando uma planta de folhas azuladas que brilhavam levemente.
Quando estendeu a mão para colhê-la, um vento estranho soprou. Não era como os outros. Era mais frio, mais pesado, fazendo as árvores se curvarem como se estivessem ouvindo algo... ou temendo. O ômega ergueu o olhar, sentindo um arrepio percorrer todo o seu corpo.
Muito acima, onde o céu deixava de ser azul e começava a se tornar um vazio infinito, duas presenças colidiam. Uma explosão de luz dourada rasgou as nuvens, seguida por um clarão escuro como a própria noite. O som não era exatamente um estrondo; era algo mais profundo, como se o próprio ar estivesse sendo partido.

- Você não deveria ter voltado... - ecoou uma voz firme e antiga.

- Eu nunca fui embora - respondeu outra, carregada de fúria.

As duas figuras moviam-se rápido demais para serem vistas com clareza. Apenas rastros permaneciam: um como fogo celestial, outro como sombra viva. Cada choque entre eles fazia o céu tremer, criando ondas que desciam até o mundo abaixo. Ventos fortes sopravam, a luz mudava de intensidade, e uma estranha sensação apertava o peito de qualquer criatura sensível.

Lá embaixo, na beira da barra do rio, o ômega levou a mão ao coração. Ele não sabia explicar o motivo, mas sentia que aquele confronto tinha alguma ligação com ele. Um pressentimento inquietante tomou conta de seu espírito, como se seu destino estivesse começando a despertar.

O ômega recolheu seu cesto e caminhou de volta para a cabana onde morava com seu pai. Naquele dia, a noite começou a cair mais cedo do que o normal. Logo, o céu escureceu completamente, e uma forte chuva de granizo começou a cair sobre a Floresta de Miralyth. O pequeno ômega observava tudo pela janela, enquanto seu pai permanecia sentado na poltrona da sala, lendo um antigo livro de feitiços.
De repente, um intenso brilho iluminou o céu, seguido por um estrondo tão forte que fez a terra tremer. Assustado, o grande bruxo levantou-se rapidamente.

- Meu filho, não saia de casa e não abra a porta para ninguém, nem mesmo para as fadas. Nessa hora, elas podem ser traiçoeiras.

O ômega assentiu e trancou a porta, obedecendo à ordem. Depois, sentou-se na poltrona e começou a folhear o livro de feitiços do pai. Alguns minutos mais tarde, resolveu verificar o estoque de ervas para saber quais precisariam ser colhidas no dia seguinte. Foi então que teve a brilhante ideia de preparar uma poção por conta própria.

- Não, ômega, não faça isso - alertou seu lobo interior, já imaginando que aquela ideia não terminaria bem.
Emburrado, o jovem desistiu e permaneceu esperando o pai voltar. Pouco tempo depois, a porta se abriu, e o grande bruxo entrou carregando um homem gravemente ferido. Com cuidado, deitou o desconhecido sobre uma cama improvisada na sala.

- Pai, o que houve? - perguntou o ômega, preocupado.

- Não sei. Eu o encontrei caído no meio da floresta, coberto de ferimentos. Corra, pegue água quente e um pano limpo. Vou cuidar dessas feridas.

- Está bem, pai. Também vou preparar alguns remédios com ervas.

Sem perder tempo, o ômega trouxe a água aquecida e os panos limpos. Em seguida, correu para a cozinha, onde começou a preparar uma infusão e um unguento com as ervas medicinais que havia colhido mais cedo, esperando que seus conhecimentos fossem suficientes para ajudar a salvar a vida daquele misterioso homem.

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