A praça central de Iguatu fervilhava naquela noite de 19 de março. O ar quente e seco do Sertão carregava o cheiro de milho assado, poeira e o som do forró que ecoava dos alto-falantes da igreja. Celeste não precisava de luxo para ser o centro das atenções. Vestia um vestido de chita simples, com a bainha já um pouco gasta, e nos pés, um par de chinelos de dedo que, em seus pés, pareciam joias preciosas. A pele dourada, viçosa, parecia capturar o brilho das luzes coloridas da quermesse, enquanto o cabelo, negro como a noite, descia em um liso impecável pelas costas, emoldurando um rosto onde o sorriso parecia nascer do nada, radiante e puro.
Ela dançava com uma entrega que não era para ninguém; era apenas o pulsar do seu próprio sangue. Havia nela uma graça natural, um gingado que não precisava de ensaio, uma sensualidade que não gritava, apenas existia, contida em cada movimento de suas mãos e no brilho de seus olhos de onça.
Naquele exato momento, o som do ambiente pareceu diminuir, como se o destino estivesse dando passagem para uma revelação. Dos alto-falantes, a melodia de Flor de Tangerina começou a envolver a praça, suave e nostálgica: "Hoje eu sonhei que ela voltava / E vinha muito mais que linda..."
Ao virar, o olhar de Celeste encontrou o de Cassiano. Ele estava parado perto de uma das barracas de comida, observando-a. O verso da música parecia sussurrar sobre o que ele sentia: "À meia-luz me acordava / Cheirando à flor de tangerina".
Ele não era apenas mais um. Havia uma firmeza no porte daquele rapaz, uma segurança que Celeste, acostumada à lida pesada das faxinas e à solidão de ter herdado o destino solitário da mãe, nunca tinha visto. Cassiano, por sua vez, sentia como se estivesse diante de um mistério: "Eu lhe amava e mergulhava / No seu olhar de onça-menina".
— Vai dizer que ele não tá vindo na tua direção? Se ele pedir pra dançar, eu finjo que sou sua tia e vou junto pra garantir a moral! — Ritinha cochichou, já rindo da própria desgraça, o tom de voz subindo para uma comédia quase desesperada enquanto acompanhava a cena.
Ele parou à frente dela. O sorriso de Cassiano era aberto, genuíno, carregado de um brilho que denunciava que, ali, naquele instante, ele tinha encontrado o seu norte.
— Eu não podia ficar ali parado vendo o mundo girar enquanto você dançava sozinha — a voz dele era rouca, mas firme. — Sou o Cassiano. E você é... um problema, Um problema muito bonito.
Celeste sentiu o coração disparar. "E docemente me afogava / Em suas águas cristalinas". A letra parecia traduzir o que acontecia ali: um reconhecimento imediato, uma paz súbita em meio ao barulho.
— Celeste — ela respondeu, meio sem fôlego. — E eu não sou problema, seu moço. Sou só uma moça que gosta de dançar.
— Pois se gosta de dançar, tem que dançar comigo — ele estendeu a mão.
Dançaram a noite toda. Enquanto giravam, a conversa fluiu com uma intimidade assustadora. Ele falava da rotina com os caminhões do pai, das estradas poeirentas, e ela falava, sem esconder o peso da realidade, das roupas que lavava para sobreviver e dos cadernos do terceiro ano que a esperavam no dia seguinte. Havia uma honestidade crua ali; enquanto ele oferecia a segurança de um futuro planejado, ela oferecia a resiliência de quem não tinha nada além do próprio trabalho.
Quando a música parou e as luzes da praça começaram a apagar, o silêncio que se formou entre eles foi pesado de desejo. Cassiano não queria que aquela noite terminasse.
— Eu te levo. Tenho o carro do meu pai aqui perto.
Celeste hesitou, olhando para Ritinha, que já estava de braços cruzados, observando a cena com uma cara de quem tinha acabado de presenciar um filme de romance que ela mesma não acreditava que estava acontecendo.
— Não precisa, Cassiano. Eu moro ali perto, é um pulo — Celeste tentou desconversar, sentindo o peso da sua condição social, da casa simples na Vila Neuma que contrastava com a vida organizada da família de Cassiano.
— Deixa de ser teimosa, menina! — Ritinha se intrometeu, dando um tapa leve no braço de Celeste. — Tu vai a pé com esse chinelo que já tá pedindo socorro e eu vou de carona, nem que eu tenha que ir no porta-malas! Vai logo, Celeste, que esse rapaz tem cara de quem é gente fina e eu não sou obrigada a andar no escuro e enfrentar o sereno!
Cassiano riu alto da sinceridade da amiga, olhando para Celeste com uma doçura que a fez esquecer, pela primeira vez em muito tempo, das pilhas de roupas sujas que a esperavam ao amanhecer.
— Vamos, Celeste — ele insistiu, abrindo a porta do carro para ela com um cavalheirismo quase esquecido. — Eu não saio daqui enquanto você não aceitar.
Ela entrou no carro. Naquele momento, sentada ao lado dele, Celeste não sabia que o destino tinha acabado de selar um pacto. Eles trocaram um último olhar antes de o motor ligar, e a conclusão veio silenciosa, quase como uma prece: é ele. E, da parte de Cassiano, o pensamento ecoava com a mesma força: é ela.
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Do luto ao amor
Ficción GeneralCeleste vivia a calmaria de um amor simples no interior do Ceará, até que uma tragédia devastadora reduziu seus sonhos a cinzas. Sem chão e disposta a escapar das sombras do passado, ela decide deixar tudo para trás e recomeçar sua vida na efervesce...
