O telefone de Miu vibrou às oito e quarenta e dois da manhã pela terceira vez consecutiva e ela o ignorou pela terceira vez consecutiva com a competência específica de quem havia transformado ignorar telefonemas do pai numa forma de arte.
O quarto tinha aquela luz de Bangkok de manhã cedo que entrava pelas frestas das blackouts em lâminas douradas e densas, a mesma luz que havia entrado por aquelas janelas quando ela tinha seis anos e acordava para encontrar o avô sentado na poltrona de linho junto à varanda, já vestido, já com o chá, já olhando para a cidade com aquela expressão de homem que havia construído algo e sabia exatamente o que havia construído. A luz não havia mudado. O avô não estava mais na poltrona.
O telefone vibrou de novo.
Miu abriu um olho.
Khun Prawit Taechamongkalapiwat. Pai. Quarta tentativa.
Ela atendeu com a voz de quem acaba de emergir de dez metros de água quieta. - Pai.
- São quase nove - disse ele, com aquele tom que ela havia catalogado aos doze anos como o Tom da Decepção Controlada, versão executiva.
- Eu sei que horas são - disse ela, ficando de costas no travesseiro e olhando para o teto de gesso trabalhado da cobertura, que tinha aquele detalhe em relevo que o arquiteto havia insistido em incluir e que o avô havia aprovado porque dizia que tetos eram a primeira coisa que uma pessoa via quando acordava e mereciam ser bonitos.
- Você tem uma reunião de diretores às onze.
- Eu sei.
- Miu.
- Pai. - Ela jogou as pernas para fora da cama. - Eu sei da reunião, vou chegar na reunião, tudo vai ficar bem.
Uma pausa. Ela conhecia aquela pausa. Era o espaço onde ele guardava as coisas que calculava se valia a pena dizer. - Vou passar aí mais tarde. Preciso conversar sobre uma coisa.
- Usa o interfone - disse ela, e desligou.
O quarto ao redor dela era o resultado de três dias sem Anchalee por dentro. A governanta havia ido visitar a família em Chiang Rai no fim de semana e voltava hoje, o que significava que o quarto havia ficado entregue à própria lógica de Miu, que era uma lógica de acumulação gradual e sem remorso. Um vestido de Bottega Veneta estava sobre o braço da poltrona de linho bege, comprado na quinta impulsivamente durante uma tarde em que ela havia decidido que precisava de algo verde. Três pares de sandálias em posições geográficas inexplicáveis no tapete persa. Uma caixa de Ladurée aberta sobre a mesinha de cabeceira, com dois macarons restantes. O tablet com a tela trincada no canto, que ela havia deixado cair na piscina dois meses atrás e havia substituído imediatamente por outro e havia continuado usando o trincado também porque havia ficado com preguiça de transferir os arquivos.
Ela foi para o banheiro, que era uma das coisas do apartamento que não refletia o caos do quarto porque o banheiro era onde ela pensava e ela pensava melhor em ambientes impecáveis. Mármore Calacatta branco do piso ao teto, metais em latão escovado, um espelho de borda iluminada que custara mais do que a maioria dos carros de pessoas normais, a banheira independente no centro que ela usava quando precisava tomar decisões difíceis porque havia descoberto com dezoito anos que decisões difíceis ficavam mais fáceis submersa em água quente com sais de banho japoneses.
ESTÁS LEYENDO
Legacy | LenaMiu +18
Fanfiction+18 | Forced Proximity | Corporate Romance | LenaMiu Há impérios que se herdam. E há impérios que precisam ser encontrados. Natsha "Miu" Taechamongkalapiwat cresceu dentro do Grupo Áster sem nunca ter sido preparada para liderá-lo. Quando o avô morr...
