POV Élise
Não me perguntaram se eu desejava casar; perguntaram apenas se eu compreendia a honra que me era concedida.
Lembro-me daquele momento com uma nitidez excessiva, quase como se a memória tivesse decidido punir-me pela obediência. Meu pai estava sentado à escrivaninha, com a luz baixa da tarde pousando sobre seus papéis, enquanto minha mãe permanecia em silêncio ao seu lado, as mãos entrelaçadas com força suficiente para anunciar sua apreensão. Não havia severidade em seus rostos, tampouco afeto; apenas a serenidade fria e protocolar de quem cumpre um dever inevitável.
Disseram-me que a família Rochefort era respeitável, que o senhor Louis Rochefort era um homem íntegro, de caráter ilibado e fortuna estável. Disseram-me, com aquela insistência mansa, que minha união com ele garantiria proteção ao nosso nome, segurança à minha mãe e tranquilidade aos meus irmãos mais novos. E nada disso era falso. Ainda assim, nada disso era escolha.
Aceitei com a cabeça baixa, deixando que o gesto servisse como uma prece muda. Aprendi cedo que as decisões mais importantes da vida de uma mulher costumam ser tomadas em salas onde ela entra apenas para ouvir o veredito. Tinha vinte e quatro anos e era considerada afortunada por ainda não ter sido esquecida à margem do mercado matrimonial - e não me escapava a ironia amarga de ser jovem o suficiente para gerar herdeiros, mas velha o bastante para não exigir explicações.
Só mais tarde compreendi que aquele acordo não me entregava apenas a um homem, mas a uma engrenagem inteira: uma casa que eu ainda não conhecia, um nome que passaria a carregar e uma filha.
Madeleine Rochefort.
Conheci-a poucos dias após o anúncio oficial do noivado e recordo-me de ter pensado, com uma lucidez quase cruel, que ela não se parecia em nada com o pai. Onde ele era contido, ela era observadora; onde ele falava com a autoridade de quem está habituado a ser ouvido, ela silenciava com a atenção de quem compreende muito mais do que revela. Naquele tempo, eu realmente acreditava que o coração era uma entidade dócil, submissa às regras que nos eram ensinadas desde a infância, e presumi, por ingenuidade ou pura conveniência, que bastava evitar certos pensamentos para manter a ordem das coisas.
Enganei-me redondamente. E talvez o mais cruel de todos os enganos tenha sido este: o de pensar que amar era um ato que exigia permissão.
A casa Rochefort erguia-se afastada do centro, cercada por árvores antigas que pareciam ter aprendido a observar o mundo em silêncio. Não era imponente de maneira ostensiva, mas havia nela uma sobriedade que intimidava, com os vinhedos se estendiam ao redor em fileiras milimetricamente ordenadas, lembrando que a fortuna da família vinha da terra e do cultivo. Tudo ali parecia saber exatamente o lugar que ocupava.
Fui recebida como se já pertencesse àquele espaço, o que me causou um desconforto difícil de nomear. Criados se moviam com naturalidade ao meu redor, informados de minha presença antes mesmo de eu cruzar o limiar della porta, chamando-me de "senhorita" com respeito suficiente para não parecer afeto. Disseram-me onde ficaria instalada, os horários que deveria cumprir e o que exatamente era esperado de mim. Nada disso me surpreendeu.
Louis Rochefort encontrou-me no final da tarde, na sala destinada às visitas formais. Levantou-se ao me ver em um gesto correto, medido, quase ensaiado pela vida inteira, e falou comigo como se fala com alguém que se pretende conhecer com extremo cuidado. Não houve toque, não houve proximidade indevida; apenas palavras ponderadas e um olhar honesto demais que, ironicamente, foi o que mais me desarmou.
Foi então que Madeleine entrou.
Ela não anunciou sua presença, apenas surgiu, como se aquele fosse o modo natural de ocupar os espaços. Vestia-se com sobriedade, mas havia algo em sua postura que simplesmente não obedecia às regras. Não era desafio; era pura consciência de si.
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A Noiva Do Meu Pai
General FictionFrança, século XIX. Prometida em casamento ao conde Rochefort, Élise Belmont acredita que seu destino já foi escrito. Até conhecer Madeleine Rochefort. Entre o peso das convenções, os segredos de uma pequena cidade e um sentimento que jamais deveria...
