A noite em que tudo mudou

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A música clássica preenchia o enorme salão de festas do Hotel Imperial. Lustres de cristal brilhavam no teto, refletindo a luz dourada sobre os convidados vestidos com roupas elegantes.
Valentina Moretti, de dezoito anos, observava tudo da varanda.
Ela odiava aquele tipo de evento.
Enquanto outras garotas da sua idade sonhavam com vestidos caros e festas luxuosas, Valentina só queria terminar a escola e estudar jornalismo.
- Está fazendo aquela cara de novo. - disse sua melhor amiga, Sofia, aproximando-se.
- Que cara?
- A cara de quem preferia estar em qualquer outro lugar.
Valentina riu.
- Porque eu preferia mesmo.
As duas conversaram por alguns minutos, mas algo chamou a atenção de Valentina.
Seu pai.
Ele estava perto do bar conversando com alguns homens de terno.
Parecia nervoso.
Muito nervoso.
Ela franziu a testa.
Aquilo era estranho.
Seu pai sempre demonstrava confiança, mesmo em situações difíceis.
Mas naquela noite ele parecia assustado.
Muito assustado.
- Já volto - disse Valentina.
Ela atravessou o salão discretamente.
Quando estava perto o suficiente para ouvir alguma coisa, percebeu que a conversa estava ficando tensa.
- O prazo acabou. - disse um dos homens.
- Eu preciso de mais tempo. - respondeu seu pai.
- O senhor já pediu tempo demais.
Valentina sentiu um arrepio.
Antes que pudesse ouvir mais alguma coisa, o homem percebeu sua presença.
Imediatamente o grupo ficou em silêncio.
- Valentina. - Seu pai forçou um sorriso. - Está tudo bem?
- Claro...
Mas ela sabia que não estava.
Algo estava errado.
Muito errado.
Duas horas depois, a festa continuava.
Os convidados dançavam.
Os garçons serviam bebidas.
A orquestra tocava.
Então aconteceu.
As luzes apagaram.
O salão inteiro mergulhou na escuridão.
Gritos começaram imediatamente.
Alguém deixou uma bandeja cair.
Vidros se partiram.
Valentina sentiu seu coração acelerar.
Quando as luzes de emergência se acenderam, homens armados já estavam espalhados pelo salão.
O pânico tomou conta de todos.
Algumas pessoas tentaram correr.
Outras ficaram imóveis.
Valentina procurou seu pai desesperadamente.
- Pai!
Nenhuma resposta.
- Pai!
Então ouviu um disparo.
O som ecoou pelo salão.
As pessoas começaram a gritar ainda mais.
Valentina tentou correr na direção oposta.
Mas alguém segurou seu braço.
Forte.
Muito forte.
Ela tentou se soltar.
- Solta-me!
A pessoa a puxou para perto.
Quando ela finalmente viu quem era, sentiu o sangue gelar.
O homem era alto.
Vestia um terno preto perfeitamente ajustado.
Seu rosto era sério.
Seus olhos escuros pareciam incapazes de demonstrar qualquer emoção.
E mesmo sem conhecê-lo pessoalmente, Valentina sabia exatamente quem ele era.
Lorenzo De Luca.
O homem sobre quem toda a cidade cochichava.
O homem que aparecia em rumores, histórias e notícias.
O homem que muitos acreditavam controlar metade do submundo.
- Você vem comigo. - disse ele.
- Nem pensar.
- Não estou pedindo.
- Eu não te conheço!
- Conhece meu nome.
Ela odiou perceber que ele estava certo.
- Onde está meu pai?
Lorenzo não respondeu.
- ONDE ESTÁ O MEU PAI?
Por um segundo, algo mudou na expressão dele.
Algo parecido com pena.
Mas desapareceu rapidamente.
- Vamos.
A viagem foi silenciosa.
Valentina estava no banco traseiro de um carro de luxo, cercada por dois seguranças.
Tentou abrir a porta.
Trancada.
Tentou pegar o telefone.
Tinham levado.
Tentou falar.
Ninguém respondeu.
Apenas Lorenzo, sentado à sua frente, observava a cidade pela janela.
Como se nada estivesse acontecendo.
Como se sequestrar alguém fosse completamente normal.
Depois de quase uma hora, os portões de uma enorme propriedade se abriram.
A mansão parecia saída de um filme.
Gigantesca.
Luxuosa.
Protegida.
Assustadora.
- Desçam. - ordenou Lorenzo.
- Não.
Ele suspirou.
- Você pretende dificultar tudo?
- Pretendo.
Pela primeira vez, ele sorriu.
Foi um sorriso pequeno.
Mas suficiente para deixá-la ainda mais irritada.
- Gosto da sua coragem.
- E eu não gosto de você.
- Isso pode mudar.
- Nunca.
Lorenzo apenas virou as costas.
Como se já soubesse algo que ela ainda não sabia.
Mais tarde naquela noite, Valentina estava presa em um quarto enorme.
A cama era confortável.
Os móveis eram caros.
A vista era incrível.
Mas continuava sendo uma prisão.
Ela caminhava de um lado para o outro quando ouviu a porta abrir.
Lorenzo entrou.
Sozinho.
- O que você quer agora?
- Conversar.
- Eu não quero conversar.
- Mesmo assim vou explicar algumas coisas.
Valentina cruzou os braços.
- Então fala.
Lorenzo permaneceu em silêncio por alguns segundos.
Como se estivesse escolhendo cuidadosamente as palavras.
- Seu pai fez negócios perigosos.
- Isso eu já percebi.
- Ele devia dinheiro.
- Quanto?
- Muito.
Ela engoliu seco.
- E agora?
- Agora ele desapareceu.
O coração dela parou.
- O quê?
- Ninguém sabe onde ele está.
- Você está mentindo.
- Gostaria de estar.
Valentina sentiu os olhos se encherem de lágrimas.
Mas recusou-se a chorar na frente dele.
- Então me deixa ir.
- Não posso.
- Por quê?
- Porque há pessoas procurando você.
- Pessoas da sua máfia?
- Pessoas muito piores.
O quarto ficou em silêncio.
Pela primeira vez naquela noite, Lorenzo parecia genuinamente preocupado.
E isso assustou Valentina mais do que qualquer arma.
Porque se um homem como Lorenzo De Luca estava preocupado...
Então ela realmente corria perigo.

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