O mormaço de janeiro na região serrana do Rio de Janeiro tinha a textura de uma gaze úmida e sufocante presa à pele. Naquela tarde de terça-feira, o ar parecia pesado demais para ser respirado, carregado com a promessa silenciosa de uma tempestade que se acumulava atrás das montanhas de pedra.
Dentro da Oficina Mecânica do Gerson, o calor era ainda pior. O teto de zinco transformava o galpão em um forno industrial, onde o cheiro de óleo queimado, graxa e estopa imunda ditava o ritmo das horas.
Pérola limpou o suor da testa com as costas do antebraço, deixando um rastro escuro de fuligem na pele clara. Ela estava deitada de costas em um carrinho de rolimã embaixo de um jipe antigo, com os olhos fixos na caixa de marcha condenada. Seus dedos, calosos pelo manejo diário de chaves inglesas e blocos de motor, trabalhavam com uma precisão quase cirúrgica. Aos vinte e dois anos, Pérola não tinha o biotipo clássico de quem passava o dia carregando peso; sua postura era firme, os olhos escuros carregavam uma seriedade precoce e havia uma rigidez em seus ombros que falava mais sobre responsabilidade do que sobre esforço físico. Naquele ambiente majoritariamente masculino, ela precisou aprender a falar mais alto e a trabalhar o dobro para impor o respeito que hoje ninguém ousava tirar dela.
— Pérola, o rádio da recepção tá dizendo que a cabeceira d'água tá descendo forte lá de cima. O rio Quitandinha já tá borbulhando na altura da ponte velha — avisou Gerson, o dono do lugar, um homem de cinquenta anos com os dentes castigados pelo cigarro e as mãos permanentemente manchadas de nicotina e óleo.
— É melhor você fechar essa ordem de serviço e puxar o carro. Se a lama resolver descer a encosta hoje, a baixada vira uma bacia.
Pérola deslizou para fora do veículo, o carrinho rangendo contra o chão de cimento batido. Ela se sentou, respirando fundo, e jogou a chave de boca de lado.
— Vou só terminar de preencher o relatório desse jipe, Gerson. Preciso passar em casa para tomar um banho antes de ir para a faculdade.
Gerson soltou uma risada, limpando uma engrenagem com um pano encardido.
— Faculdade com esse tempo, menina? Você é teimosa demais. Vai despencar o mundo nessa serra. Fica em casa cuidando da tua mãe.
— Se eu faltar hoje, eu perco a prova final de contabilidade — Pérola respondeu, o tom de voz seco, sem espaço para drama ou autocompaixão. Era apenas a crueza da sua realidade.
— Se eu rodar nessa matéria, não tenho duzentos reais para pagar a dependência no semestre que vem. O orçamento lá em casa não tem margem para erro.
Ela se levantou, sentindo cada músculo das costas protestar. Pérola estava no quarto período de Ciências Contábeis. Não porque amava planilhas, mas porque entendeu cedo que, na periferia, a única forma de não ser esmagado pelo sistema era aprendendo a ler as entrelinhas dele. De noite, pegava dois ônibus lotados para sentar na última fileira de uma faculdade particular de segunda linha. Todo o seu esforço tinha um alvo claro: dar uma vida digna para Dona Amparo, sua mãe, cujas articulações estavam destruídas após três décadas limpando o chão dos outros, e garantir que sua irmã caçula, Júlia, continuasse na escola. O sobrenome Albuquerque, que em algum século passado talvez tivesse ostentado brasões, hoje era apenas a assinatura nos avisos de corte de luz na porta de sua casa de três cômodos, cravada no sopé de uma das encostas mais instáveis da comunidade.
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O Peso da Terra, o Brilho do Vidro
ActionDuas realidades separadas por trinta quilômetros e um abismo social. De um lado, uma moça que conhece o peso de lutar por cada pedaço de pão em uma realidade esquecida pelo progresso. Do outro, uma jovem protegida por uma redoma de vidro, cuja única...
