E lá estava eu, um novo país, uma nova vida, onde aquele passado não existia mais. Minha irmã fez questão de me deixar no portão da Sr. Jude com 10 minutos de antecedência, porque segundo ela "A primeira impressão é a que fica".
Eu não gostava muito de primeiras impressões, não depois de tudo que passei, não depois do que ele me fez passar. Não depois de tudo que eu tive que deixar para trás, tudo que NÓS* tivemos que deixar para trás.
Mas enfim, lá estava eu: Nos portões daquele colégio super luxuoso que exalava a porra da pior arrogância que esse mundo poderia proporcionar. Estava claro o tipo de gente que estudava ali, o Sr. Jude não aceita bolsistas, não importa o tipo de aluno que você seja, você só estuda lá se você pagar, e convenhamos que o valor não é acessível para muitas pessoas (Para a surpresa de ninguém).
Assim que adentrei naquela propriedade, não pude negar que era um lugar muito bonito, inclusive as pessoas que lá estudavam. E eu não falo só da aparência em si, os uniformes, livros, armários, cabelos, acessórios, era tudo tão... perfeito. Como se todos ali passassem séculos ensaiando para como deveriam se comportar dentro daquele ninho de cobras.
Um garoto chamou um pouco da minha atenção: Alto, magro, pele bronzeada, cabelos ondulados castanho escuro, e vários acessórios, vários mesmo. Dava pra ver de longe que ele fugia um pouco dos padrões daquele lugar, não importa a distância que você olhasse, você saberia que ele é imperfeito demais para estar ali, mas não sei... algo me dá o pressentimento de que ele não vai ser o único assim.
E então o sinal tocou, o mais estridente possível para os meus ouvidos. Logo, aquele corredor se tornou uma muvuca completa, vários alunos desesperados para ver quem chegaria primeiro, uns chegaram até a se esbarrar e derrubar uns livros. Eu decidi esperar o corredor esvaziar um pouco, não gosto muito de aglomerações. Nada específico, só que nunca foi o meu forte.
Cheguei 5 minutos atrasado para a aula de História. Dei dois toques suaves na porta e entrei quando ouvi a permissão do professor. Sorri gentilmente e dei um bom dia, com a entonação mais amigável que encontrei no momento, ele retribuiu.
— Primeiro dia de aula, e tem gente que não tem compromisso suficiente. Deplorável — ouvi alguém dizer ao fundo, seguido de umas risadinhas.
— Chega galera, todos em seus lugares. — disse o professor
Procurar um lugar vazio em meio a tantos lugares ocupados chega a ser uma tortura, ainda mais quando você está atrasado e todos estão esperando por você. Eu podia sentir o olhar de umas garotas queimarem minhas costas, provavelmente as mesmas garotas de antes.
— Aqui ao meu lado tem um lugar vazio, pode se sentar aqui. — ouvi uma voz do lado direito da sala falar, então reparei que havia um lugar vazio ao lado de uma garota, aparentemente bem amigável. Ela tinha os cabelos castanhos totalmente soltos e jogados para trás, a pele natural, sem nenhum tipo de maquiagem, também não reparei nenhum acessório, ela parecia ser bem humilde perto de todos ali. Sentei-me ao lado dela e a cumprimentei.
— Prazer, meu nome é Murilo. — Eu disse, em um tom totalmente amigável e carregado de gratidão.
— Prazer, Murilo. Eu me chamo Yasmin! Olha, não se preocupa com aquelas garotas, elas são até legais no fundo, a questão é convivência.
Eu dei um leve sorriso e nós dois nos viramos para a frente.
— Vamos começar então com as apresentações!!! — o professor disse, exalando uma empolgação que não foi muito bem recebida pelos alunos, que só emitiram um som de desgosto e se ajeitaram em seus assentos.
— Podemos começar por você! O garoto novo — Eu senti todo o meu corpo ficar rígido quando vi que ele estava apontando em minha direção. — Pode ser do seu lugar mesmo, só quero que fique de pé e se apresente para os seus colegas de classe.
Eu me pus de pé ao lado do meu lugar e disse — É.. bom dia! Eu me chamo Murilo, tenho 16 anos e sou recém chegado na cidade, espero... han.. acho que é só isso, professor — Ele assentiu e então eu me sentei, sentindo a maior vergonha do mundo.
A aula se resumiu apenas a isso: A apresentação dos alunos. Inclusive, descobri que a "Abelha rainha" daquelas garotas que riram de mim assim que entrei na sala, se chamava Nicole. Aparentemente, ela vinha de uma das famílias mais ricas da região, o que já era autoexplicativo.
— Agora você — ele disse, apontando para uma garota que estava com um casaco e um capuz, encostada no canto esquerdo da sala de aula. Ao perceber que era pra ela, ela nem disfarçou o nervoso que estava sentindo, mas decidiu ir o quanto antes, para aquilo não piorar. — Espera, tira o capuz antes! Deixa os seus colegas te verem — Quando ela retirou, pude reparar um pouco mais em seu rosto e seus cabelos: Ela tinha um cabelo cacheado, moreno iluminado, tinha os olhos castanhos e era parda. O que mais chamou minha atenção foram as fortes olheiras que ela tinha.
— É... bom.. bom dia! Eu, eu, e... eu me chamo Beatriz, tenho 16 anos e... e... — Ela tremia loucamente enquanto tentava completar a frase, ao perceber, colocou as mãos nos bolsos do casaco
— É é uma viciada em drogas! — disse algum dos garotos do fundo, seguindo-se da sala toda rindo. Exceto por algumas pessoas em específico.
— Quem disse isso? — disse o professor, com um tom de indignação muito explícito na voz — Eu peço que tenham respeito com a colega de vocês.
É claro que ninguém tava nem aí para o que ele estava tentando falar, todos só continuavam rindo e soltando palavras como: Drogas, drogada, reabilitação, e coisas do tipo.
— Que se foda toda essa merda — Beatriz silabou antes de sair da sala. O professor ia impedir ela, mas o sinal tocou logo na sequência. Dando um fim a aula dele.
Todos os assuntos foram eufóricos na direção da porta. Não entendi muito bem o motivo da pressa deles, parecia que todo mundo naquela colégio vivia nesse padrão: Essa pressa quase sufocante.
Enfim, eu fui em direção a próxima sala. Nem sabia qual era a aula, eu descobriria na hora.
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E F E I T O D O M I N Ó
General FictionNo Colégio St. Jude, cinco vidas correm em paralelo, trancadas em universos completamente isolados, em uma jornada visceral, crua e sem filtros sobre o caos silencioso de carregar o mundo nas costas totalmente sozinho, sem saber que a estrutura frág...
